{"id":10280,"date":"2016-06-13T11:21:39","date_gmt":"2016-06-13T11:21:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=10280"},"modified":"2016-07-13T15:37:32","modified_gmt":"2016-07-13T15:37:32","slug":"os-falsos-falsos-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/os-falsos-falsos-parte-1\/","title":{"rendered":"Os falsos falsos #1"},"content":{"rendered":"<p>Inicio hoje, aqui no Ic\u00f4nica, uma s\u00e9rie que pretendo sustentar por um algum tempo. \u00c9 sobre minha pequena cole\u00e7\u00e3o de arte gr\u00e1fica e pintura. Dito assim, parece coisa &#8220;chique&#8221;, mas n\u00e3o \u00e9, realmente. H\u00e1 alguns anos comecei a comprar em leil\u00f5es na internet obras de autoria desconhecida, sem assinatura ou com assinatura dita &#8220;indecifr\u00e1vel&#8221;. N\u00e3o compro qualquer coisa. Apenas o que gosto ou o que me atrai, por alguma raz\u00e3o que nem sempre est\u00e1 clara para mim no momento da aquisi\u00e7\u00e3o. Imagino que boa parte do que circula por a\u00ed nessas condi\u00e7\u00f5es sejam obras falsas que j\u00e1 ca\u00edram no descr\u00e9dito, mas uma parcela, que suponho significativa, \u00e9 de trabalhos que foram esquecidos nas paredes de pais e av\u00f3s, presentes recebidos n\u00e3o se sabe mais de quem, raspa de tacho de heran\u00e7as e div\u00f3rcios. Imagens cuja origem foi sendo pouco a pouco esquecida e que retornam ao mercado como se fossem \u00f3rf\u00e3os em busca de novo lar.<\/p>\n<p>Nem todas guardo comigo, pois decidi que a \u00fanica coisa com que presenteio parentes e amigos (inclusive os &#8220;ocultos&#8221; nas festas de fim de ano) s\u00e3o &#8220;obras&#8221; da minha cole\u00e7\u00e3o. Mas apenas depois que foram identificadas e tiveram sua autoria comprovada ou &#8220;atribu\u00edda&#8221;, isto \u00e9, depois que se tornam &#8220;ex-an\u00f4nimas&#8221;. Pois essa \u00e9 a segunda parte do processo: levar um quadro an\u00f4nimo para casa e me divertir tentando descobrir (ou, \u00e0s vezes, inventar) seu &#8220;autor&#8221; ou sua &#8220;hist\u00f3ria&#8221;. Quando essa hist\u00f3ria fica em p\u00e9 \u2013 e a imagem redimida por meio dela \u2013, a pe\u00e7a torna-se um &#8220;falso falso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-10288\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-falso1-1-674x506.png\" alt=\"Falso-falso1\" width=\"674\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-falso1-1-674x506.png 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-falso1-1-360x270.png 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-falso1-1-768x576.png 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-falso1-1.png 858w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><br \/>\nAno passado arrematei um pequeno desenho de &#8220;autoria desconhecida&#8221; \u2013 n\u00e3o foi dif\u00edcil nem caro, pois n\u00e3o havia outro interessado. Nele, um grupo de pessoas, amontoadas, espremidas umas nas outras, equilibra-se com dificuldade. As que se encontram mais firmes sobre os p\u00e9s sustentam, mal ou bem, outras que j\u00e1 vem despencando. Qual o motivo desse singular desmoronamento? A maioria das personagens olha na mesma dire\u00e7\u00e3o, para um ponto \u00e0 esquerda, fora de campo. Uma mulher, no entanto, olha para mim \u2013 e foi esse olhar que me fisgou. Ele me reenviava a um lugar em que <em>sabia j\u00e1 haver estado antes. <\/em>N\u00e3o tardei a reencontr\u00e1-lo nas p\u00e1ginas finais de <em>Photographie et Societ\u00e9 \u00ad\u2013 <\/em>o cl\u00e1ssico de Gisele Freund, publicado em 1976. Trata-se de uma fotografia de Cartier-Bresson \u2013 pouco reproduzida \u2013 que a autora utiliza apenas para ilustrar um cap\u00edtulo sobre fot\u00f3grafos amadores e turismo. Na fotografia, a causa do desmoronamento \u00e9 clara. De m\u00e1quina fotogr\u00e1fica em punho, uma senhora prepara o clique de um <em>souvenir tur\u00edstico<\/em>, provocando alvoro\u00e7o nas colegas. Ela tanto olha as amigas, quanto, por interm\u00e9dio da c\u00e2mera, <em>exibe<\/em> seu olhar. As mulheres se contorcem, caem no ch\u00e3o, protegem-se. O espa\u00e7o da cena \u00e9 dominado pelo outro \u2013 um outro invis\u00edvel que, mesmo ausente, se faz toda presen\u00e7a. Um outro por vir \u2013 uma fotografia, que nunca verdadeiramente chega. Por quanto tempo esta situa\u00e7\u00e3o pode prolongar-se? Por quanto tempo \u00e9 poss\u00edvel suport\u00e1-la?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-10281\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/falso-falso2b-674x461.jpg\" alt=\"falso-falso2b\" width=\"674\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/falso-falso2b-674x461.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/falso-falso2b-360x246.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/falso-falso2b-768x525.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/falso-falso2b-440x300.jpg 440w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/falso-falso2b.jpg 1519w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/>Foi o cr\u00edtico e curador franc\u00eas, R\u00e9gis Durand quem primeiro observou que o ato fotogr\u00e1fico estava longe de ser instant\u00e2neo. Seria antes uma polariza\u00e7\u00e3o, uma tens\u00e3o em que o instante \u00e9 simultaneamente desejado e postergado. Neste sentido, todas as opera\u00e7\u00f5es do fot\u00f3grafo \u2013 \u201ctais como compor a cena, enquadrar, imprimir etc.\u201d \u2013 n\u00e3o seriam outra coisa sen\u00e3o \u201cretardamento\u201d, servindo para \u201cdissimular que <em>tudo<\/em>, <em>de fato<\/em>, <em>aconteceu num instante<\/em>\u201d. Para Durand, a fotografia s\u00f3 &#8220;seria r\u00e1pida na apar\u00eancia\u201d, funcionando como \u201cum tipo de <em>a\u00e7\u00e3o retardadora<\/em> &#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao real atual.<\/p>\n<p>Costumo chamar essa a\u00e7\u00e3o retardadora de <em>espera<\/em>. \u00c9 dessa <em>espera <\/em>que nos d\u00e1 testemunho essa fotografia, pois, como poucas, coloca em cena a complexidade das for\u00e7as que a atravessam. Em um dos v\u00e9rtices do tri\u00e2ngulo de olhares que anima a foto est\u00e1 o fot\u00f3grafo franc\u00eas (e estamos n\u00f3s, que observamos a cena atrav\u00e9s dele): sua espera pelo instant\u00e2neo \u00e9 atravessada pela espera das mulheres pela decis\u00e3o da colega fot\u00f3grafa, enquanto essa, por sua vez, espera por uma pose conveniente das amigas. A espera fotogr\u00e1fica moderna foi essa abertura a um mundo multiduracional sempre \u00e0 beira de um colapso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-10282\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-Falso3-360x479.png\" alt=\"Falso-Falso3\" width=\"428\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-Falso3-360x479.png 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Falso-Falso3.png 634w\" sizes=\"(max-width: 428px) 100vw, 428px\" \/>Como se sabe, Cartier-Bresson retornou \u00e0 pintura nos \u00faltimos 20 anos de sua vida. A supress\u00e3o da fot\u00f3grafa na vers\u00e3o desenhada da cena poderia refletir seu estado de esp\u00edrito quando, tendo renunciado \u00e0 arte que lhe deu fama, sentia-se \u00e0 suficientemente \u00e0 vontade para esbo\u00e7ar um autorretrato. Mas nunca imaginei que o desenho fosse dele. Em mar\u00e7o desse ano, finalmente, descobri o verdadeiro autor. \u00c9 <em>Apicius<\/em>, expoente da cr\u00edtica gastron\u00f4mica no Brasil, de estilo inigual\u00e1vel, e que frequentemente ilustrava as pr\u00f3prias cr\u00f4nicas. A assinatura estava l\u00e1, para todo mundo ver: o pequeno <em>alfa<\/em> no lado direito da imagem. Ap\u00edcius era o pseud\u00f4nimo de Roberto Marinho de Azevedo Neto (1954-2006), que como Cartier-Bresson, n\u00e3o gostava de ter sua foto publicada nas revistas para poder trabalhar em paz sem ser reconhecido.<\/p>\n<p>Jamais saberemos se Ap\u00edcius conhecia a foto de Cartier-Bresson \u2013 e menos ainda se teria relacionado seu pr\u00f3prio anonimato ao do franc\u00eas, insinuando a semelhan\u00e7a ao tirar de cena a fot\u00f3grafa. Mas seus curiosos desenhos continuam circulando por a\u00ed \u2013 destino incerto favorecido pelo\u00a0zelo com que o autor escondeu-se sob pseud\u00f4nimo durante sua atividade profissional. Outro dia, comprei mais dois. O leiloeiro os atribuiu a Ap\u00edcio \u2013 n\u00e3o deveria ter comprado, algu\u00e9m poderia objetar, pois a autoria estava bem indicada. Mas antes que me acusem de infringir minhas pr\u00f3prias regras, argumento a meu favor que o autor desses desenhos foi identificado no cat\u00e1logo do leil\u00e3o como &#8220;Marco G\u00e1vio Ap\u00edcio&#8221;, gastr\u00f4nomo romano que viveu no s\u00e9culo I. T\u00e3o logo percebi que n\u00e3o havia adquirido a pre\u00e7o de banana duas antiguidades romanas (que poderia ter revendido por uma fortuna para o Smithsonian), presenteei meus novos desenhos do Apicius a madame R., simp\u00e1tica f\u00e3 do cronista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inicio hoje, aqui no Ic\u00f4nica, uma s\u00e9rie que pretendo sustentar por um algum tempo. \u00c9 sobre minha pequena cole\u00e7\u00e3o de arte gr\u00e1fica e pintura. Dito assim, parece coisa &#8220;chique&#8221;, mas n\u00e3o \u00e9, realmente. 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