{"id":1005,"date":"2010-08-08T21:09:33","date_gmt":"2010-08-08T21:09:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1005"},"modified":"2016-05-28T14:30:44","modified_gmt":"2016-05-28T14:30:44","slug":"manual-de-primeiros-socorros-para-conceitos-mutilados-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/manual-de-primeiros-socorros-para-conceitos-mutilados-parte-ii\/","title":{"rendered":"Manual de primeiros socorros para conceitos mutilados \u2013 Parte II"},"content":{"rendered":"<p>Depositamos sobre a fotografia uma confian\u00e7a exagerada. Como resposta, muitas teorias se voltaram contra antigos conceitos que pareciam impedir uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica sobre o meio. Mas, afirmada tal consci\u00eancia sobre os limites da fotografia, \u00e9 poss\u00edvel fazer as pazes com um vocabul\u00e1rio que, usado de modo mais preciso, pode nos ser novamente \u00fateis. <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=887\" target=\"_blank\">No primeiro post dessa s\u00e9rie<\/a>, tentamos resgatar as no\u00e7\u00f5es de \u201crealidade\u201d, \u201crepresenta\u00e7\u00e3o da realidade\u201d e \u201crealismo\u201d. Para os que chegaram agora,<a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=887\" target=\"_blank\"> fica o convite<\/a>. Desta vez, recolocamos outros quatro conceitos: analogia, mimesis, verossimilhan\u00e7a e objetividade.<\/p>\n<div id=\"attachment_1012\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1012\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1012\" alt=\"Dr. Rodman, Cirurgia, Filadelfia, 1863\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Dr.-Rodman-Cirurgia-Philadelphia-1863-487x345.jpg\" width=\"487\" height=\"345\" \/><p id=\"caption-attachment-1012\" class=\"wp-caption-text\">Dr. Rodman, Cirurgia, Filadelfia, 1863<\/p><\/div>\n<p><strong>Analogia:<\/strong> a fotografia \u00e9 an\u00e1loga ao real? Analogia pode ser entendida como semelhan\u00e7a ou compara\u00e7\u00e3o. No campo de uma Semiologia, os te\u00f3ricos j\u00e1 brigavam nos anos 70 para decidir se a fotografia e o cinema produziam ou n\u00e3o analogia com a realidade. A quest\u00e3o tamb\u00e9m era tomada de modo polarizado: essas imagens s\u00e3o id\u00eanticas ou totalmente diferentes daquelas que vemos com os olhos? Ora, quando se diz que algo \u00e9 semelhante, isso j\u00e1 implica\u00a0reconhecer\u00a0alguma distin\u00e7\u00e3o entre o que est\u00e1 sendo comparado. Um desses semi\u00f3lgos, Cristian Metz, num artigo de 1970 (\u201cAl\u00e9m da Analogia\u201d), j\u00e1 nos convidava a resolver a quest\u00e3o em termos mais sutis, pensando em diferentes \u201cgraus de analogia\u201d que a imagem poderia manter com um objetos, mas convidando a perceber outras formas de refer\u00eancia que n\u00e3o passam apenas pela semelhan\u00e7a, mas que convivem com ela: conceitos, por exemplo, n\u00e3o tem forma f\u00edsica e n\u00e3o s\u00e3o imit\u00e1veis, mas podem ser representados pela imagem. Os adeptos da semi\u00f3tica peirceana, fortes no Brasil, tamb\u00e9m denunciaram o car\u00e1ter convencional da fotografia, desbancando sua pretens\u00e3o anal\u00f3gica. Hoje, est\u00e1 mais do que claro que, em termos pragm\u00e1ticos, um signo pode ser ic\u00f4nico (produzir semelhan\u00e7a com o objeto), indicial (ter conex\u00e3o f\u00edsica com o objeto) e simb\u00f3lico (relacionado ao objeto por uma conven\u00e7\u00e3o) ao mesmo tempo. Isso j\u00e1 bastaria para que o problema fosse colocado com menos radicalidades. Mas a quest\u00e3o poderia ter se resolvido com um breve olhar sobre os cl\u00e1ssicos. Arist\u00f3teles usa o termo \u201canalogon\u201d no sentido matem\u00e1tico euclidiano, como sin\u00f4nimo de propor\u00e7\u00e3o, para explicar o funcionamento da met\u00e1fora: se A est\u00e1 para B, como C est\u00e1 para D, A pode ser substitu\u00eddo por C numa senten\u00e7a po\u00e9tica. No exemplo dele: \u201ca ta\u00e7a \u00e9 para Dion\u00edsio o que o escudo \u00e9 para Ares, assim o poeta dir\u00e1 da ta\u00e7a que \u00e9 o escudo de Dion\u00edsio\u201d (Po\u00e9tica, XXI). Ou seja, dizer que A \u00e9 an\u00e1logo (proporcional) a C \u00e9 bem diferente de dizer que A \u00e9 igual a C. A met\u00e1fora exige semelhan\u00e7a, mas exige tamb\u00e9m diferen\u00e7a entre as partes envolvidas. Ela simplesmente n\u00e3o funciona com sin\u00f4nimos: \u201ca f\u00e9 \u00e9 uma rocha\u201d \u00e9 uma met\u00e1fora, \u201ca pedra \u00e9 uma rocha\u201d jamais ser\u00e1. Mas voltando ao nosso territ\u00f3rio, \u00e9 Barthes quem deixa os esp\u00edritos armados, quando diz que a fotografia \u00e9 um \u201can\u00e1logon perfeito\u201d, num texto de 1961. Dito assim, fica dif\u00edcil defender. Poder\u00edamos imaginar que, sendo Barthes um profundo conhecedor de Arist\u00f3teles, ele quis apenas falar de um alto poder metaf\u00f3rico da fotografia. N\u00e3o \u00e9 preciso for\u00e7ar a barra. O que cabe lembrar em sua defesa \u00e9 que, em \u201cA c\u00e2mara clara\u201d, ele permanece um \u201crealista\u201d (ver verbete no post anterior), n\u00e3o abre m\u00e3o da for\u00e7a de presen\u00e7a da realidade, mas coloca a quest\u00e3o com muito muito mais cuidado (e poesia). Outro autor mais jovem e pouco lido entre n\u00f3s, Jean-Marie Schaeffer (de &#8220;A imagem prec\u00e1ria&#8221;), tamb\u00e9m\u00a0volta a defender com muita clareza que a analogia ainda \u00e9, em termos pragm\u00e1ticos, o que melhor define nossa rela\u00e7\u00e3o com as fotografias. Como ele diz, n\u00e3o uma analogia entre a fotografia e a realidade em si, que \u00e9 muito mais complexa, mas entre a fotografia e uma certa forma de perceber visualmente essa realidade. Enfim, o que vale resguardar \u00e9 que ser an\u00e1logo nada tem a ver com ser id\u00eantico.<\/p>\n<p><strong>Mimesis \/ Verossimilhan\u00e7a:<\/strong> a fotografia \u00e9 mim\u00e9tica? Mimesis e verossimilhan\u00e7a precisam ser discutidas juntas. Traduzindo literalmente, mimesis quer dizer imita\u00e7\u00e3o. J\u00e1 quanto \u00e0 verossimilhan\u00e7a, ficamos tentados a entender como \u201csemelhan\u00e7a com a verdade\u201d, mas isso \u00e9 totalmente insuficiente. De novo, a Po\u00e9tica de Arist\u00f3teles&#8230; Para ele, arte (techn\u00e9) \u00e9 imita\u00e7\u00e3o (mimemis), mas num sentido peculiar. Ele diz: \u201cest\u00e1 claro (&#8230;) que a obra do poeta n\u00e3o consiste em contar o que aconteceu, mas sim coisas que poderiam acontecer, poss\u00edveis do ponto de vista da verossimilhan\u00e7a ou da necessidade\u201d (Po\u00e9tica, IX). Isso quer dizer que, quando o poeta produz a mimesis n\u00e3o repete uma a\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i uma a\u00e7\u00e3o potencial respeitando certas exig\u00eancias. Verossimilhan\u00e7a \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia dessa imita\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Umexemplo: quando o Hulk fica forte e verde, estamos diante de algo veross\u00edmil? Se a hist\u00f3ria est\u00e1 bem contada, sem d\u00favida. N\u00e3o porque na nossa natureza existam pessoas assim, mas porque essa a\u00e7\u00e3o \u00e9 coerente com a natureza intr\u00ednseca \u00e0 narrativa. Ou seja, se a hist\u00f3ria cria condi\u00e7\u00f5es para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 veross\u00edmil. Alguns saltos dos filmes de kung-fu podem n\u00e3o ser veross\u00edmeis, mas o verde do Hulk sim. Ent\u00e3o, verossimilhan\u00e7a \u00e9 uma qualidade da obra inventiva que, sem repetir, sem reproduzir a natureza cotidiana, constr\u00f3i uma outra t\u00e3o coerente quanto ela. Sendo assim, vejam que interessante: a mais radical das \u201cfotografias constru\u00eddas\u201d pode ser perfeitamente\u00a0veross\u00edmil, porque mostra com coer\u00eancia o mundo que inventa.<\/p>\n<p><strong>Objetividade: <\/strong>se por objetividade entendemos a possibilidade de eliminar de toda subjetividade, ent\u00e3o, ela n\u00e3o existe em nossas rela\u00e7\u00f5es com as coisas. Portanto, n\u00e3o existe na fotografia. At\u00e9 \u00e9 poss\u00edvel o exerc\u00edcio de resgatar sutilezas. Quando a ci\u00eancia fala em conhecer algo, sup\u00f5e existir um sujeito desse conhecimento, eu, e um objeto, aquilo a que o conhecimento visa. O resultado desse processo tem algo de subjetivo, porque est\u00e1 determinado por predisposi\u00e7\u00f5es minhas (gostos, valores culturais, morais etc.). Mas se aceitamos o fato de que o objeto manifesta algo de si, se determina em parte esse conhecimento, poder\u00edamos bem falar num \u201ccerto grau de objetividade\u201d. No meu Dicion\u00e1rio de Filosofia (Nicola Abbagnano), talvez para evitar problemas com a t\u00e3o desgastada no\u00e7\u00e3o de objetividade, esse reconhecimento da exist\u00eancia do objeto aparece denominada como \u201cobjetivismo\u201d. Peirce, por exemplo, reconhece perfeitamente a possibilidade de uma determina\u00e7\u00e3o do objeto representado sobre o signo, sobretudo (n\u00e3o apenas mas)\u00a0naquele tipo que define como \u201c\u00edndice\u201d, que \u00e9 fisicamente afetado pelo objeto. Mas temos que admitir que foi necess\u00e1rio bombardear a ideia de objetividade seja para reivindicar maior consci\u00eancia sobre os valores culturais e est\u00e9ticos implicados em toda representa\u00e7\u00e3o (como a fotografia), seja para construir uma cr\u00edtica \u00e0s pretens\u00f5es da ci\u00eancia positivista. O problema \u00e9 que, para derrubar a cren\u00e7a nessa objetividade, ca\u00edmos \u00e0s vezes numa esp\u00e9cie de culto egoc\u00eantrico \u00e0 subjetividade, em que as justificativas para todas as coisas se esgotam no sujeito (aquela hist\u00f3ria do \u201ccada um \u00e9 cada um\u201d, \u201ccada um com seu cada qual\u201d, \u201cvai da pessoa\u201d&#8230;). Isso tem sido chamado de relativismo e, para alguns fil\u00f3sofos (L. F. Pond\u00e9), \u00e9 o grande problema desta virada de mil\u00eanio. Quando somos convidados a interpretar uma obra de arte, sabendo que n\u00e3o h\u00e1 objetividade, ficamos sempre tentados a dizer: \u201c\u00e9 subjetivo!\u201d. Essa \u00e9 a melhor forma de fugir da discuss\u00e3o, de n\u00e3o dizer coisa alguma. Falamos isso como se todo sentido da obra viesse de dentro de n\u00f3s, como se n\u00e3o houvesse um autor, uma t\u00e9cnica, uma cultura fora de n\u00f3s articulando tamb\u00e9m a mat\u00e9ria e os sentidos. Se cada um pudesse ver o que quisesse onde quisesse, n\u00e3o precisariamos mais ir ao museu, poder\u00edamos olhar para a parede branca nosso quarto e ver Klee, Chagal, Robert Frank ou Mario Cravo Neto&#8230; Se recusamos a ideia de objetividade, melhor seria ent\u00e3o visar uma \u201cintersubjetividade\u201d, algo que \u00e9 humano, cultural, nada objetivo, mas que n\u00e3o inviabiliza o di\u00e1logo com algo fora do indiv\u00edduo. Afinal, a \u201ccomunica\u00e7\u00e3o\u201d existe porque temos coisas em \u201ccomum\u201d, porque os sentidos produzidos podem ser negociados, podem ser \u201ccoletivos\u201d. Ent\u00e3o, uma imagem n\u00e3o diz uma mesma coisa para todo mundo, mas o que diz pode ser interpretado, debatido e transmitido, sen\u00e3o com consenso, pelo menos com uma coer\u00eancia compartilh\u00e1vel.<\/p>\n<p>Num post futuro, e para encerrar a s\u00e9rie, eu ainda gostaria de discutir o conceito de \u201cvirtual\u201d. Ao contr\u00e1rio dos que foram apresentados at\u00e9 aqui, esse conceito tem sido alvo de forte tietagem, o que pode ser igualmente mutilante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depositamos sobre a fotografia uma confian\u00e7a exagerada. Como resposta, muitas teorias se voltaram contra antigos conceitos que pareciam impedir uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica sobre o meio. Mas, afirmada tal consci\u00eancia sobre os limites da fotografia, \u00e9 poss\u00edvel fazer as pazes com um vocabul\u00e1rio que, usado de modo mais preciso, pode nos ser novamente \u00fateis. 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