Wolfgang Tillmans: engenharia do acaso

[16.abr.2012]

As imagens de Wolfgang Tillmans são simples mas, como conjunto, seu trabalho é de difícil apreensão. Não é desses autores que a gente entende buscando referências em livros ou na internet. Quando fazemos isso, fica sempre a impressão de que as imagens não se conectam. Uma exposição panorâmica como a que está agora no Museu de Arte Moderna de São Paulo não muda essa leitura, mas permite constatar o modo como suas imagens efetivamente não se conectam: reconhecemos que o aleatório se constrói ali como uma arquitetura.

Não é suficiente dizer que o trabalho do artista está marcado pelo acaso, conceito que reaparece em lugares muito distintos da experiência com a fotografia. Tillmans passa longe de uma noção de acaso como uma dádiva que só o olhar mais ágil consegue captar, como em Kertész ou Cartier-Bresson. Em princípio, ele parece se identificar mais com o olhar despretencioso de figuras  como Nan Goldin (The Ballad…) ou Corine Day (Diary), que apontam suas câmeras para qualquer coisa que esteja próxima e que lhes seja íntima. Mas ainda não é isso, essas artistas são bastante coesas em suas imagens displicentes. Em Tillmans não há uma temática, não há uma estratégia, um estilo ou um olhar. Mas há um projeto, sem dúvida.

A diversidade e a inconstância daquilo que ele mostra pode ser entendida como sintoma da aceleração e da fragmentação que o olhar enfrenta nas vivências mais cotidianas. “Tillmans constrói um mapa do mundo contemporâneo”, diz Felipe Chaimovich, um dos curadores da exposição. Acostumado a olhar para as estrelas, talvez ele esteja em condições resgatar sentidos desse caos aparente, talvez ele saiba como ligar pontos tão isolados: “qual um astrônomo navegando pela noite, Tillmans busca fenômenos luminosos que possam estabelecer a posição relativa dos corpos entre si”, segue Chaimovich.

Lutamos muito para desconstruir a ideologia do instante bressoniano que fazia da fotografia uma arte de imagens únicas e individualmente poderosas. Em lugar disso, afirmamos o paradigma do ensaio, com imagens que se completam e que constroem juntas um pensamento. Cobramos então do artista que soubese editar o conjunto que apresenta para formar um corpo. Por vezes, esperamos ainda encontrar uma “poética” que permita ler a passagem de um trabalho para outro.

Tillmans se situa totalmente fora dessa polaridade.  Suas imagens se apresentam isoladas, mas precisam ser vistas dentro da tensão gerada por suas vizinhanças. Um trabalho como esse exige a coragem de um ready-made: qualquer um poderia ter feito, mas só nas mãos certas ganha consistência. Articular uma diversidade dessa grandeza é algo que exige tempo e perseverança. Exige ainda um espaço extenso: uma parede solta numa bienal passaria despercebida, ou se tornaria mero altar para aqueles que já cultuam o trabalho.

Mais do que um percurso, Tillmans promove saltos. É habilidoso o modo como ele nos destitui de qualquer tipo de categoria que possa resumir a experiência que propõe. É preciso dar conta de cada imagem, uma por uma. As identificações e os títulos, sempre discretos e agrupados a certa distância das fotos, não prometem nenhuma segurança. Essa diversidade alcança limites extremos: às vezes, encontramos imagens exuberantes, bem compostas, com técnica impecável; outras vezes, vitrines que pontuam a exposição com conjuntos ainda mais variados de informações e objetos apropriados. Nós que não somos astrônomos, já temos dificuldades de reconhecer no céu as constelações. Imagine se nos fosse permitido ver outros tantos pontos brilhantes que ocupam o universo e que não chegam a vencer a escuridão. É mais ou menos essa a sensação que resta diante dessas vitrines.

Quando o olhar parece habituado a esses saltos, nos surpreendemos com uma parede inteira dedicada à questões ligadas ao corpo,  sexualidade, e comportamentos underground, com um interesse de porte etnográfico. Outra série mergulha numa pesquisa quase pictórica sobre cores aplicadas a superfícies que se descolam de seu plano. A mostra encontra assim meios de evitar a pura entropia, isto é, a total dissolução das tensões na pura aleatoriedade. Em outras palavras, quando o acaso se estabelece como regra, é sua própria suspensão por meio de uma série orgânica e bem editada que assume para o olhar a condição de “incidente”.

Wolfgang Tillmans, série Lighter (montagem na Regen Projects, Los Angeles, 2008)

O mesmo vale para os formatos que também são muito diversos e se espalham sem qualquer linearidade pelas paredes, de modo que jamais encontramos a distância mais confortável para se situar diante da exposição. Essas idas e vindas do público são uma coreografia prevista pelo projeto. Uma imagem gigantesca pede para ser vista de longe. Bem ao lado dela, uma outra muito pequena exige sentir o cheiro de tinta da parede. E assim o trajeto vai sendo cumprido por meio de parábolas e hesitações. Quando esses movimentos começam a se tornar automáticos, encontramos uma grande série conjugada por molduras de mesmo tamanho e simetricamente alinhadas. Aqui, é a constância da série que se torna perturbadora.

Wolfgang Tillmans, Concorde Grid (montagem na Chisenhale Gallery, em Londres, em 1997)

Há coisas que me incomodam na exposição. Suas fotografias já constituem uma bela alegoria do caráter fragmentário e transitório da vida contemporânea. Mas algumas radicalizações parecem desejar oferecer, numa escala reduzida, uma síntese daquilo que a mostra constrói aos poucos, num ritmo mais instigante, porque oposto à aceleração do olhar cotidiano. Nesse sentido, tenho dúvidas quanto às vitrines, sobretudo porque não cheguei a ver em meio ao público ninguém disposto a percorrê-las com a mesma atenção que as fotografias conseguem.

As aproximações e afastamentos que cada imagem exige do olhar são planejadas de modo habilidoso e perturbam o espaço idealizado do museu. Algumas imagens colocadas em lugares quase escondidos, nas passagens entre as paredes ou em nichos “não-expositivos” da sala podem se tornar uma espécie de reforço didático de uma ideia que, sem isso, já era poderosa.

Por fim, olhando para os bastidores, não compreendo bem a necessidade recorrente de justificar o trabalho de Tillmans como contraponto das propostas de Dusseldorf, mesmo que sua nacionalidade torne a comparação inevitável, mesmo que, em algum momento, seu contato com os artistas dessa escola tenha efetivamente existido. Ou ainda, mesmo que o próprio artista queira se colocar nesse lugar.

Há muitas imagens que estão suficientemente distantes dos critérios mais dogmáticos de Dusseldorf e há, em contrapartida, algumas que se aproximam deles. Tanto faz, uma coisa e outra são incidentes inevitáveis numa obra que abraça tamanha diversidade, mas a diferença permanece evidente. Tillmans toma um caminho que se sustenta por si mesmo e que não depende dessa comparação. Mesmo os artistas que assumiram a herança dos Becher tentam hoje se aliviar do peso dessa referência. Talvez nomes como Andreas Gursky, Candida Hoffer, Thomas Struth ou Thomas Ruff jamais se descolem totalmente de suas histórias com os Becher. Penso que Tillmans não precisaria carregá-los como fantasmas.

Nada disso ofusca o valor da obra de Tillmans. Se é um tanto difícil explicar o que vemos, a mostra promove uma experiência intensa e duradoura, exatamente num tempo que ali mesmo vemos representado em toda sua instabilidade. A exposição alcança ainda um êxito raro no universo da arte conceitual, que é o de permitir que se sinta também no plano do olhar aquilo que os artistas e críticos debatem num plano teórico. Tillmans é um autor para ser visto e pensado, na ordem que se desejar.

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Exposição: Wolfgang Tillmans

Curadoria: Felipe Chaimovich, Julia Peyton-Jones, Hans-Ulrich Obrist e Sophie O’brien

Até 27 de maio

MAM

Parque do Ibirapuera, portão 3 – São Paulo
(11) 5085-1300

 

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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