Viagens, aparências e aparições

[07.ago.2012]

João Luiz Musa, Jardim Elba, 1978

Nestas últimas décadas, valorizou-se uma fotografia que se destaca tanto pela precariedade técnica quanto pela imagem difusa e irremediavelmente ruidosa. Nada contra essas decisões estéticas. Em contrapartida, alguns artistas fortaleceram a autonomia figurativa da fotografia, assumindo-a por inteiro.

Essa segunda variante, que também é uma atitude conceitual da cena contemporânea, além de ampliar o campo de investigação artística, vê a imagem técnica como livre expressão, realista e fecunda, resultado direto da própria natureza do dispositivo. E isso é que vemos na exposição de João Luiz Musa na Galeria Luciana Brito, dividida em duas séries: Vila Prudente, produzida entre 1979 a 1981, e 24X36, que traz os registros de suas viagens ao exterior realizada nos últimos anos.

Distanciados em mais de três décadas, os dois ensaios mostram não apenas o rigor técnico que predomina na obra do artista, mas acima de tudo a coerência diante de tudo que parece transitório e imperfeito. O primeiro foi desenvolvido com filme preto e branco e câmera 6 X 6, dentro dos rígidos padrões do sistema de zonas, mas vistos com  distanciamento nos perturba porque revela o essencial, em última instância, a integridade do autor.

João Luiz Musa, Vila Renato, 1978

No período de realização do ensaio Vila Prudente, Musa trabalhava no Laboratório de  Recursos Audiovisuais da FAU-USP, ao lado de Cristiano Mascaro e Raul Garcez, que idealizavam projetos pessoais como uma possibilidade de ampliar suas atividades fotográficas e políticas na Universidade. Trata-se de um trabalho diferenciado de documentação da periferia da cidade de São Paulo que salta aos olhos, uma vez que consegue criar imagens que materializam um pensamento técnico e estético. Não apenas sobre aquela realidade, mas principalmente, sobre a interpretação da luz. É preciso identificar neste esmerado trabalho que, entre a tomada simples e a cadeia de operações técnicas e interpretativas desenvolvidas ao longo do processo, produz-se um documento fotográfico de inquestionável plasticidade.

João Luiz Musa, Madrid, 2011

Mas é no ensaio 24X36 que podemos sentir plenamente o amadurecimento do artista. Não mais um lugar determinado, nem uma frontalidade assumida diante do Outro, nem o médio formato que exige certos cuidados no procedimento.

O que temos agora é um olhar em trânsito e uma câmera mais livre. Nada de submissão ao que se apresenta como mundo visível e sim fotografias que são comentários absolutamente livres e criativos, sem deixar de acentuar sua sofisticada organização formal – sua sintaxe.

Um olhar sensível que inventa e materializa a imagem a partir de um cotidiano ordinário, que interrompe um movimento, que suspende o fluxo temporal. Suas fotografias agora documentam ações efêmeras e estabelecem uma forte relação entre espaço e tempo. Vejo-as muito mais como fotogramas de um filme que engendram histórias, que deflagram narrativas. Aparentemente, temos uma imagem captada com uma terrível imparcialidade, mas o registro traz uma visão perturbadora que evidencia um momento particular, preciso, que traduz com exatidão um estado imperfeito e provisório.Nas fotografias do ensaio 24X36, que homenageia o formato do velho filme 35mm, Musa encontra uma ordem visual que nos escapa. Aquilo que fotografa é uma aparência dos múltiplos acontecimentos previsíveis e imprevisíveis na ordem temporal, que se concretizam diariamente diante dos nossos olhos. Dessa banalidade é que nasce sua fotografia – tensão advinda de um pensamento técnico que concebe o registro e a livre interpretação da cena fotografada. Há uma seleção diante do aparente visível e no caso desse ensaio em particular as aparências ganham, após cuidadoso trabalho de edição e tratamento técnico, cada vez mais o aspecto de aparições – mistérios que evidenciam uma estranha sensação de cumplicidade.

João Luiz Musa, Londres, 2011

Entre uma infinidade de encontros possíveis o que vemos são imagens carregadas de intensa subjetividade. E isso é consequência da originalidade no ato fotográfico. Ao se deparar com a fotografia ao lado – Tate Modern, Londres, julho de 2011 – é possível perceber também uma espécie de ironia silenciosa no ensaio. Podemos entender que o registro dessa cena banal estabelece uma curiosa relação entre o excesso de imagens a que estamos expostos e o tempo que não temos para apreciar tudo isso que passa diante dos nossos olhos. O cruzamento das duas diagonais dessa imagem, por exemplo, cria um ponto de luz exatamente na cabeça do observador estático e provavelmente em êxtase diante de uma obra em que a cor é o extraordinário. A obra dentro da obra. Sofisticada metalinguagem que revela a sagacidade do artista.

Musa se utiliza do potencial narrativo de sua fotografia para desenvolver sua estratégia de transformar o cotidiano numa aparição carregada de mistério. Tudo parece demasiadamente articulado – uma espécie de tableau vivant idealizado para tensionar a simples aparência com o essencial de um momento flagrado na mobilidade da viagem. Os enquadramentos, tratados com muita liberdade, também são o resultado de experiências estéticas anteriores, pois seu trabalho é antes de tudo cerebral.

João Luiz Musa, Paris, 2011

Em outro exemplo, Boulevard des Italiens, Paris, agosto de 2011, temos a oportunidade de entender melhor sua fotografia – quase palimpsestos ou uma composição de layers que quando superpostos formam a imagem. Mas não é nada disso. O que temos é o simples registro que soma o dentro o e o fora, a luz e a sombra, o aparente e o invisível, o estático e o dinâmico. Uma permanente desconexão de tempo e espaço que transforma o fotógrafo num maestro dos imprevistos.

Os dois ensaios mostram que a fotografia quando se volta para o cotidiano, para a banalidade ordinária, pode se transformar numa poderosa e emocionante manifestação visual. Em conexão com a arte contemporânea, a fotografia de João Luiz Musa centrada nos objetos e lugares comuns, cura nossa cegueira de não enxergar mais nada diante da profusão de imagens a que estamos submetidos. Ele demonstra com sua fotografia que, ao retirar da vida fragmentos visuais da maneira mais direta possível, será possível repensar o homem e a arte e, quem sabe, conferir um pouco mais identidade ao homem diante de tamanha diversidade.

Não deixe de ver a exposição e conhecer os livros produzidos pela Narval/Attar Editorial, impecavelmente impressos graças ao conhecimento técnico desenvolvido por João Luiz Musa e equipe, em sua longa trajetória de produzir, pensar, imprimir e disseminar sua fotografia.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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