VI VER, uma história essencial – Fotografias de Nair Benedicto

[05.nov.2012]

É sempre muito difícil escrever sobre o trabalho de uma pessoa muito querida e admirada como Nair Benedicto. Seu nome reina solitário na constelação da fotografia brasileira e está inscrito na história como uma autora engajada na grande aventura humana. Sua fotografia sempre foi politizada e independente, lírica e amorosa, suficientemente forte. Avassaladora. O livro – VI VER, editado por ocasião do FestFotoPOA – é uma oportunidade para a nova geração conhecer melhor sua trajetória, e se surpreender com a edição das imagens que espelha os dilemas centrais da política brasileira e da cultura contemporânea.

Nair Benedicto, Índio Arantx, Manouki do Mato Grosso, 2006

A fotografia ocupa um papel fundamental na construção da memória. É um documento que estabelece a possibilidade ao leitor de percorrer caminhos diversos e labirínticos entre o passado e o presente, a fim de idealizar um compromisso com o futuro. Para isso, é fundamental entender que a fotografia nada evoca sem o envolvimento de um olhar mobilizado. Fica claro que Nair Benedicto sempre teve consciência que seu trabalho realizado com autenticidade e técnica, foi permanentemente regulado pela emoção e pela intuição. Isso significa que suas fotografias, aqui colocadas num fluxo que gera um ritmo, provocam a memória e a permitem a construção de uma participação reflexiva e cognitiva.

Impossível não destacar que sua temática é política e social. Aliás, é fundamental conhecer um pouco da sua trajetória, mesmo que panoramicamente, para entender porque sua fotografia se diferencia de tantas outras produzidas do mesmo período. No final dos anos sessenta era estudante de rádio e televisão na Universidade de São Paulo. Ativa no movimento estudantil foi presa pela ditadura militar. Parece paradoxal, mas sua prisão ao mesmo tempo inviabilizou seu projeto de trabalhar em emissoras de televisão e possibilitou assumir a fotografia como linguagem e expressão. Em 1975, após fotografar o cotidiano dos nordestinos em São Paulo, suas fotografias foram adquiridas pelo Museu de Arte Moderna de Nova York.

Nair Benedicto. Foto: Juan Esteves, 2008

Trabalhou a vida inteira como free lancer afirmando a cada trabalho sua independência. Essa coragem é que lhe deu liberdade para olhar e fotografar qualquer tema sem restrições. Mais tarde, em 1979, fundou a Agência F-4 de fotojornalismo (com Juca Martins, Ricardo Malta e Delfim Martins) que marcou época e fez história. Em 1991 criou a N-Imagens e participou ativamente do grupo NAFOTO, responsável por organizar o Mês Internacional da Fotografia na cidade de São Paulo.

Sua fotografia ocupou as principais páginas dos jornais e revistas nacionais e internacionais, e documentou todo o movimento sindical do país, em particular o de São Bernardo do Campo e outros temas polêmicos e ainda ausentes da grande imprensa. Sua aceitação no mercado aos poucos revolucionou a mídia impressa, seja pela exigência do crédito da imagem seja pelo engajamento profissional da fotografia. Conhecer minimamente essa trajetória é reconhecer sua importância na história recente do país.

Nair Benedicto, Travestis no Rio de Janeiro, 1984

Sua paixão são os grandes temas sociais e políticos, e para isso mobilizou sua vida em torno dessas questões. Nair deu visibilidade às condições inumanas e sofridas das minorias – as mulheres, as crianças, os homossexuais, os adolescentes, os índios, os travestis, as prostitutas, os grafiteiros, entre outros. Suas imagens trazem a energia da vida e não apenas miséria e sofrimento. São fotografias que tem espírito forte e geralmente são sínteses de situações limítrofes. Raramente temos o registro de um evento singular ou de um momento decisivo, pois seu trabalho tem como estratégia o total respeito pelo Outro.

Partindo da premissa de que fotografia é também uma possibilidade de politizar a recepção, Nair consegue elaborar seu trabalho com forte cunho documental e acima de tudo insuspeito e afetivo. Verdadeiramente autêntico. Nada de enfatizar emergências desnecessárias e sensacionalistas, mas dignificar o continuum da vida e revigorar a imagem buscando o momento de suspensão no cotidiano das pessoas. Aliás, a presença humana é parte de sua percepção expandida voltada para a valorização da vida.

O nome do livro – VI  VER – assume todas as ambiguidades possíveis – o verbo ver (vi e ver) e a essência da vida (que é viver) – marcam exatamente os diversos momentos de uma vida em permanente transição. A foto que finaliza o livro é o registro de uma superfície pictórica de um grafite que ao longo do tempo perde suas cores e sua materialidade, e ganha inserções naturais e sobreposições espontâneas ao acaso. De certa forma, a “vida” daquela parede inscrita é muito parecida com a nossa vida. Ao longo do tempo, nós humanos, perdemos e ganhamos, assim como naquela parede fotografada que faz prevalecer o sentido de vazio e uma atmosfera desoladora de desconstrução.

Nair Benedicto, Grafite sob o Minhocão, 2010

Ao nos depararmos com as diferentes séries editadas podemos ter impressão que se trata de ensaios completamente distintos. Mas o conjunto é poderoso e acaba permitindo uma visão ampla e diferenciada do intenso trabalho de Nair Benedicto. Aos nossos olhos cabe reconhecer a importância adquirida pelas imagens e perceber que são ecos de um mesmo movimento em momentos assíncronos. Claro, expressam a atitude libertária de Nair Benedicto diante da melancólica sensação de impotência imposta por aqueles que detém algum poder.

Temos a imagem da criança – seja ela urbana, abandonada, rural ou indígena – que acima de tudo é criança. Temos a imagem da mulher – que é mãe, trabalhadora, batalhadora – que acima de tudo é mulher. Temos a imagem do trabalhador – que é índio, negro, garimpeiro, mateiro, sem terra – mas acima de tudo é homem. Diante disso, com o livro em mãos é possível criar diferentes camadas de leituras a partir das nossas conexões mentais. É possível explorar o tempo já que temos fotografias realizadas ao longo de quarenta anos mas que se mostram tão atuais justamente porque nosso olhar mobilizado é capaz de perceber a importância atribuída ao caráter e à integridade presentes em cada ser humano.

Nair Benedicto, Mulheres do Sisal, 1985

A fotografia de Nair Benedicto não se enquadra facilmente nos possíveis gêneros que atribuímos para classificar uma imagem. Não! É muito mais do que isso: trata-se de um olhar humanista, que vê no Outro algum potencial criador, que valoriza a beleza das coisas simples. Ela jamais corre o risco de transformar uma situação de riqueza humana e sensorial numa experiência visual empobrecida. Diante de situações com alguma desordem espacial e mesmo com ruídos indesejáveis, por exemplo, ela sutilmente se movimenta e procura se posicionar para registrar a cena com uma incrível naturalidade. Essa experiência advém do seu desejo atávico de valorizar visualmente toda e qualquer atividade humana. E isso, às vezes traz para sua fotografia elementos expressivos inexplicáveis e inesperados. Singularidades presentes apenas nos grandes mestres.

Nair Benedicto, Tesão no Forró do Mário Zan, 1977

Cada fotografia conta uma história. Toda fotografia traz gente. As imagens são envolventes e singelas; contem cenários e adereços preferencialmente populares. O tempo e o espaço denotam narrativas povoadas de lembranças. A potência deste livro é exatamente essa mistura fina de imagens que se contaminam, de tempos que se superpõem, de espaços que se associam, de histórias que se completam, de imagens que dilatam nossa imaginação. Nair Benedicto consegue desafiar nosso olhar ao nos conectar e nos confrontar com sua história que se mostra através das suas fotografias. Mergulhar nessa trama é buscar uma compreensão mais profunda e verdadeira do nosso povo e do nosso país.

O livro traz textos assinados por Andréia Peres, Atenéia Feijó, Iza Salles, Junéia Mallas, Laís Tapajós, Nair Benedicto, Rubens Fernandes Junior, Siã Osair Sales-kachinawa e direção de arte de Ricardo Tilkian.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. Belíssimo texto, Rubens!
    Nair é uma fotógrafa essencial para compreender a experiência humana, de modo particular a experiência brasileira.

  2. É uma honra ter atiçado o olhar de Nair Benedicto e um imenso orgulho ver que o Giganto cumpriu seu ciclo completo.
    Fez parte do todo e foi de todos. Era uma fotografia que se tornou ativa e virou parede. Viveu na rua e envelheceu. Mas antes de partir, chamou Nair, que eternizou o efêmero em seu livro. ViVer é saber se transformar.
    Parabéns pelas delicadas palavras, professor Rubens. Me emocionam, pois traduzem o que eu pretendi expressar com a instalação e como eu me sinto em relação à cidade, um desgaste construtivo.

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