Umberto Eco, a internet e o ornitorrinco

[20.fev.2016]

Neste artigo de 1996, Umberto Eco relata a experiência de procurar a palavra platypus (ornitorrinco) numa ferramenta de busca na internet. Som humor, ele toma esse animal estranho como uma metáfora do corpo de pensamentos fragmentados que as redes já construíam.

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Chamem-no Platypus ou Ornitorrinco, o fato é que ele é muito popular

por Umberto Eco  [1]

Sou um sincero admirador do ornitorrinco (ou platypus), talvez porque tive a oportunidade de vê-lo ao vivo na Austrália, mas também porque ele parece ter sido criado por Deus ou pela Natureza para pôr em questão nosso aparato categorial. O ornitorrinco tem bico de pato, patas espalmadas, põe ovos, mas não é um pássaro; passa boa parte do dia debaixo d´água mas não é anfíbio, é coberto de pelo, tem o rabo de castor, mama quando pequeno, mas não tem mamilos. E quebramos a cabeça para entender de onde os bebês sugam o leite.

Quando, ao final dos anos 700, um exemplar foi trazido à Inglaterra, os naturalistas acreditaram tratar-se de uma piada feita por algum taxidermista. Finalmente (mas o debate durou décadas), decidiram classificá-lo entre os mamíferos, na ordem dos monotremados, mas se observarmos uma árvore taxionômica, ele será encontrado num apêndice, deslocado, apenas para poupá-lo de ser visto como um sem-pátria.

É aparentemente um animal anti-Kantiano, a tal ponto que (só para testar a teoria do conhecimento de Kant) eu me propus a escrever um ensaio sobre Kant e o ornitorrinco [2]. Como as enciclopédias que tenho em casa não me dessem referências históricas, veio-me a idéia fazer uma pesquisa na Internet. Como pude constatar, teria encontrado alguma coisa mesmo tomando seu nome científico (ornithorhynchus anatinus), próximo daqueles que o denomina em italiano, francês, alemão etc. Mas como quase toda a Internet fala inglês, comecei com “platypus”.

Surpresa. Seguindo as ferramentas de busca, encontrei entre dois e três mil sites que falavam do ornitorrinco [3]. Desconsiderei alguns que diziam respeito, por exemplo, a uma livraria, uma empresa de aluguel de computadores, um clube que adotava seu nome, um tal Ornitorrinco in Eden (com dois erres [4], grafado como no português, sabe-se lá porque, já que foi feito na Califórnia) que relata a criação de uma experiência de arte tele-robótica; e a homepage de uma menina que se apelida de Platypus e que exibe uma série de fotos sobre cada ano em seu Colégio… Mas estes são também sintomas interessantes, porque é evidente que a Internet parece marcada por uma Platypus-mania (nome de um site, enquanto um outro é chamado Platypus Loved in USA).

Há faculdades de ciências naturais e centros de pesquisa (muitos deles australianos, obviamente) que nos descrevem o ornitorrinco, exibem fotografias, indicam sua localização geográfica, sua história, e no caso do Catálogo Genético da Universidade de Illinois pode-se achar tudo o que é preciso saber para obter, num exame, dez com louvor. Há pessoas que se dedicam a um culto ao ornitorrinco, entre elas um italiano, Pastrano, que se pergunta como poderíamos permanecer indiferentes a tanta beleza, enquanto desenvolve a hipótese de que o ornitorrinco pode ser meta final da criação. Há um outro fã, Gary S. Rosin, cujo site The amorous platypus foi visitado por 1.693 pessoas nestes últimos seis meses, e que dedica um link ao problema do plural de “platypus” (platypuses? platypi? platypus?). Rosin adapta ao platypus a célebre anedota de um sujeito que queria encomendar cinco destes animais, mas não sabia como denominá-lo no plural. Então escreve: “mandem-me um platypus. Não, mandem cinco”.

Há poesias, livros infantis para colorir, uma tal Gelatinous Platypus Page que dedica ao animal um monte de notícias curiosas. Há uma bibliografia completa, um filme sobre amamentação (55 dólares, 25 minutos), um estudo para a moeda australiana estampada com a imagem do ornitorrinco, que reproduz, na íntegra, um artigo publicado na Creation Magazine (junho/1986), de tendência fundamentalista, onde se afirma que, criado há 110 milhões de anos, o ornitorrinco não teria evoluído, o que significa que ainda está como Deus o criou, entre o quinto e o sexto dia (entre os animais aquáticos e terrestres). Explica-se seu lugar na Arca (pois não sendo um peixe, não poderia ter resistido debaixo de água durante o dilúvio) e se discute como o ornitorrinco teria conseguido ir do Monte de Ararat até a Austrália.

Como sou esperto e sei que a Internet abriga um número infindável de sites sobre o gato, decidi procurar outros animais exóticos, e devo dizer que estão muito bem representados, mais que ornitorrinco: localizei 7.000 sites dedicados ao coala e ao tatu, 10.000 ao panda, mas estes são animais mais conhecidos que, há muito tempo, dão nomes a produtos, como o Fiat Panda.

Permaneço convicto de que a moda do ornitorrinco é um fenômeno incomum. Talvez porque ele seja um animal bastante pós-moderno, uma colagem, uma citação de outros animais; talvez porque pareça invenção de uma mente desequilibrada. Talvez porque seja um símbolo ambiental escondido em seu reduto oceânico, mas protegido e amado.

Eu não sei. Deixo esta reflexão para algum futuro congresso.

Notas:

[1] – Publicado originalmente no jornal L’Espresso, 8/8/1996. Esta é uma tradução que fiz para meus alunos em 1999.

[2]Kant e o Ornitorrinco, publicado pelo autor em 1997, editado em português pela Editora Record (Rio de Janeiro), em 1998.

[3] – Em  2011, o Google apontava cerca de 16 milhões de ocorrências para o termo “platypus”. Em fevereiro de 2016, esse número diminuiu para 9 milhões.

[4] – Em italiano, escreve-se ornitorinco.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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