Um momento especial para a fotografia

[04.out.2010]

Nunca na história da fotografia, nacional e internacional, vivemos um momento tão intenso como este. Pelo fato da fotografia passar por uma nova consolidação de seu suporte tecnológico, tem provocado uma atenção especial à sua produção. Sua legitimidade como manifestação artística e cultural é indiscutível e podemos assistir agora em São Paulo uma verdadeira explosão fotográfica de qualidade inquestionável. É possível acessar exposições em que a fotografia, moderna e contemporânea, ocupa espaços nobres da cidade e provoca nossa imaginação.

O século XX possibilitou a consolidação da fotografia graças aos artistas que souberam não só dominar a técnica, como expandir os limites do fazer fotográfico e produzir imagens que nos deixa em estado de êxtase. Antes de mais nada, entender o território da fotografia dentro da arte contemporânea é perceber como ela conquistou um espaço nobre nas artes visuais através de um trabalho incessante em várias direções, viabilizando-se como documento e como superfície sensível capaz de detonar questões estéticas e perceptivas.

Irmãos Vargas

Irmãos Vargas. Isabel Sanchez Osório, 1926

Se pensarmos na fotografia moderna, há de se destacar as exposições da Pinacoteca do Estado – Estúdio de Arte Irmãos Vargas – a fotografia em Arequipa, Peru – 1912/1930 e Gaspar Gasparian – um fotógrafo, ambas com a curadoria de Diógenes Moura; e a mostra As construções de Brasília, fotografias de Marcel Gautherot, Peter Scheier e Thomaz Farkas, na Galeria de Arte do Sesi (Avenida Paulista, 1313), organizada pelo Instituto Moreira Salles.

Visitar a exposição dos Irmãos Vargas é se deparar com a beleza acentuada da fotografia encenada e se emocionar com o clima dramático das luzes e dos retoques da fotografia pictorialista. Mantendo um estúdio em Arequipa, distante e desconectado dos centros de produção, eles desenvolveram com muito sucesso uma fotografia baseada no retrato teatralizado. Incríveis performances que lembram o cinema mudo, mas que ainda hoje ressoam como experiências estéticas realizadas entre o pictórico e o cinemático no interior da própria fotografia.

Gaspar Gasparian

Gaspar Gasparian

A exposição de Gaspar Gasparian traz outra desconcertante vivência diante do belo, pois estamos frente a cópias vintage, de época, que tem uma adequação exata entre a densidade da matriz (o negativo) e a textura e o tom do papel utilizado. Essa questão é relevante, pois a fotografia produzida nos anos 1950 era idealizada para ser impressa num suporte específico dentre as variedades disponíveis no mercado. Isso dava à fotografia uma característica imagética diferente das impressões digitais atuais. Além disso, Gasparian foi empresário bem sucedido na área têxtil e fotógrafo amador, um exemplo clássico dos associados do Foto Cine Clube Bandeirante, a moderna escola da fotografia brasileira. A exposição nos permite perceber que suas fotografias são composições harmoniosas, algumas arranjadas, de luzes estudadas e cortes precisos, que desvendam os seus procedimentos de trabalho.

Já a Galeria de Arte do Sesi traz em As construções de Brasília, imagens de alguns dos mais importantes nomes da fotografia documental dos anos 1950 – Marcel Gautherot e Peter Scheier – e da fotografia modernista – Thomaz Farkas. A exposição tem a monumentalidade da arquitetura da capital e acentua a qualidade técnica e estética da fotografia produzida por estes profissionais, referências fundamentais da história do período. Como sempre, a montagem do Instituto Moreira Salles é exemplar.

Simultaneamente aos modernos, temos os contemporâneos. As exposições Apreensões, de Bob Wolfenson, no Centro Cultural Maria Antonia; Maldicidade, de Miguel Rio Branco, no Museu da Imagem e do Som; Recorrências, de Mauro Restiffe, na Galeria Fortes Vilaça; Esqueceu de Beber Água, Agora Chora de Sede, de Caio Reisewitz, na Galeria Luciana Brito; A Casa em Festa, da novata Flavia Junqueira, na Zipper Galeria; a 18º edição da Coleção Pirelli-Masp, no Masp; e a presença da fotografia da Bienal Internacional de São Paulo.

Miguel Rio Branco

Miguel Rio Branco

Essa reunião de artistas e instituições culturais mostra a força da fotografia na cena cultural paulistana e brasileira. A individual de Miguel Rio Branco, por exemplo, reúne 40 fotografias, 3 vídeos e uma instalação, discute o drama e o isolamento dos menos favorecidos que vivem nas grandes metrópoles. Rio Branco com seu olhar crítico e poético mantém o tom provocativo de seus trabalhos anteriores e deixa claro que sua intenção é dar visibilidade à situação de abandono e decadência do espaço público. Fotografias sombrias, de extrema complexidade e carregadas de denúncias que, somadas aos vídeos e à instalação, montam uma narrativa dramática e sensível do homem contemporâneo.

Fica claro que houve um esforço por parte das instituições culturais e galerias comerciais que selecionaram o seu melhor para o período da Bienal da Internacional. Se por um lado temos a Coleção Pirelli-Masp com 17 artistas que integram esta edição, mostrando mais uma vez a diversidade geográfica e a singularidade da produção fotográfica brasileira; por outro, temos a Bienal Internacional, que nesta edição ampliou significativamente os espaços para a fotografia e o vídeo.

Nan Goldin

Nan Goldin

A decepção fica por conta da exposição de Nan Goldin, divulgada pela Fundação Bienal de São Paulo com bastante antecedência, mas que na verdade não mostra as fotografias da artista. São apenas imagens projetadas e sonorizadas. Não é vídeo nem fotografia. A expectativa que tínhamos era de ver as ampliações fotográficas de Nan Goldin que, ao longo de suas séries, desenvolveu uma profunda análise das nossas relações sociais, familiares e amorosas. Suas imagens são provocativas e não permitem qualquer indiferença. The Ballad of Sexual Dependency, de 1986, título que remete a uma canção de Bertolt Brecht, já é um clássico da fotografia intimista e dramática; The Beautiful Smile, de 2007, relativo ao prêmio da Hasselblad; e Emotions and Relations, de 1998; são livros que trazem a questão do cotidiano e da intimidade via uma fotografia direta, sem desvios aparentes.

Essas exposições, que mostram importantes artistas, abrangem o moderno e o contemporâneo, ampliam nossa imaginação e oferecem um conjunto de referências significativas para melhor compreensão do mundo que vivemos. Nenhuma outra manifestação das artes visuais ocupa a cidade com tal diversidade e qualidade. Um momento especial para todos nós que batalhamos para criar espaços de visibilidade e circulação para a produção fotográfica nacional e internacional.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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