Travessias

[06.jul.2015]

German Lorca, Aeroporto,1951

German Lorca, Aeroporto,1951

German Lorca é, seguramente, uma das poucas unanimidades na fotografia brasileira. Sua obra pode ser entendida por meio das diversas travessias que percorreu ao longo de sua extensa trajetória, em busca de imagens que agradassem seu espírito inquieto e seu olhar curioso. Uma obra que nos faz ver o visível através de uma gênese inspirada diante do mágico espetáculo da vida cotidiana.

Da primeira experiência com a fotografia, em meados dos anos 1940, ainda muito jovem, até sua última série, Geometria das Sombras, realizada em 2014, podemos vislumbrar algumas características e particularidades que pontuam sua sintaxe e ganham destaque em suas elegantes composições. Não há distinção entre fotografia e vida, pois em cada imagem podemos entender não apenas sua paixão pelo ordinário, mas também suas experiências de visualizar na banalidade dos cenários triviais alguma força expressiva irreconhecível de imediato.

German Lorca, série Geometria das Sombras, 2014

German Lorca, série Geometria das Sombras, 2014

No Boletim do Foto Cine Clube Bandeirante de janeiro de 1948 seu nome aparece entre os novos associados – ele é o sócio de número 499 – e esta decisão de entrar para o clube de amadores se deve à sua intuição de que ali aprenderia a técnica e realizaria seu desejo de compreender o mundo através da imagem. Trabalhou exaustivamente para incorporar a precisão exigida pelo novo ofício para, em seguida, formular sua visão de mundo. A compreensão simples sobre a linguagem é que possibilitou que sua fotografia se tornasse ambiciosa e inquietante. Ambiciosa, justificada pelas tantas travessias que enfrentou para se firmar pela diversidade de trabalhos assumidos e pela competência técnica; inquietante, porque sua percepção sobre o visível é muito mais complexa e elaborada do que imaginamos.

Lorca trouxe para sua fotografia o mais prosaico dos cotidianos. Sua prática construtiva se mostra inventiva, porém, com total controle sobre seus registros que ordenam o caos quase incompreensível dos desenhos aleatórios do mundo visível. Perspicaz e atento, soube potencializar ao máximo sua facilidade de tirar proveito das cenas banais com a finalidade de enfatizar a autonomia do código fotográfico. Seu modo de trabalhar a composição, por exemplo, denota um profundo conhecimento das variáveis fotográficas – perspectiva, profundidade de campo, contraste, brilho, nitidez, entre outras. Afora isso, ele tem o domínio absoluto do estatuto da fotografia centrado nas relações entre luzes e sombras, que emergem com naturalidade em suas imagens.

Fotografar é acima de tudo estabelecer uma luta, um confronto árduo e direto com o visível. Sabendo disso, Lorca enfrenta a situação com aguda consciência e domina a cena com equilíbrio e exatidão geométrica. Veja, por exemplo, a fotografia Aeroporto, São Paulo, de 1965. Ele busca a harmonia da composição na possível simetria gerada pelo rigoroso enquadramento, no contraluz exagerado, e nas linhas do piso que convergem para um ponto de fuga imaginário, criado por nós, espectadores, e pelos personagens do seu teatro de sombras.

German Lorca, Aeroporto, 1965

German Lorca, Aeroporto, 1965

Sempre versátil, seu olhar percorreu uma multiplicidade de temas nessas travessias que impôs ao seu percurso. Instalado profissionalmente a partir do início dos anos 1950, nunca negou que seu projeto era se tornar reconhecido profissionalmente através da fotografia. Por isso mesmo, fez algumas grandes reportagens que marcaram época, fotografou casamentos e outros eventos sociais, e transformou seu estúdio fotográfico em um dos mais solicitados pelas agências de publicidade. Enfim, esteve sempre à disposição das demandas do mercado.

Seu trabalho artístico e autoral foi realizado entre os mais variados atendimentos que executava comercialmente. Nas brechas e no tempo livre é que ensaiava uma outra fotografia, livre das exigências contratuais, mais imaginativa e, seguramente, muito mais expressiva. Assim, diante dessa criteriosa seleção de imagens organizada pela Galeria FASS (e pela Galeria Milan) fica fácil entender porque Lorca é uma lenda da fotografia moderna brasileira. Mas não apenas isso. É também um pioneiro na fotografia publicitária, um ativo fotoclubista nos anos dourados do Foto Cine Clube Bandeirante e uma referência para várias gerações.

Irriquieto com seu sucesso profissional, ele se empenha em produzir o belo em sua fotografia. A presença de alguma subjetividade e de algum experimentalismo começou no início dos anos 1950, ocasião em que adquire a autonomia técnica que lhe permite ampliar sua imaginação. Raramente ficamos indiferentes diante de uma imagem de German Lorca, pois trata-se de um intuitivo romântico que deixa transparecer sua criatividade em sua sofisticada composição – ora minimalista, ora centrada em superposições de linhas e planos, ora essencialmente onírica.

É uma vivência atravessada por puros fenômenos de luz e com muita vontade de ver e compreender as aparências do visível. Ele soube revelar os aspectos da coisa fotografada e dar visibilidade às coisas do mundo exterior; seu inventário fotográfico caracteriza-se a partir de sua fascinação pelo banal. É o que vemos, por exemplo, na fotografia denominada Mondrian, de 1960. Da velha janela da estação ferroviária de Sorocabana, conseguiu perceber a transparência e a opacidade, bem como o ritmo visual sugerido em cada retângulo que compõe a imagem. Mais tarde percebeu que a fotografia lembra a estrutura compositiva de Piet Mondrian.

German Lorca, Mondrian, 1960.

German Lorca, Mondrian, 1960.

As experiências inovadoras produzidas em diferentes momentos do seu percurso vêm surpreendendo pela longevidade. Enquanto Lorca viu o mundo com um aguçado desejo de investigação e descoberta, na contemporaneidade, suas fotografias permanecem como pequenos enigmas que conseguem se manter atualizados, pois são fragmentos de um tempo qualquer. São fotografias que nos mostram a transitoriedade da vida e da existência. Concentrado e atento em suas andanças, olhou para tudo com generosa paciência em busca de singularidades atemporais, livre de condicionamentos culturais.

Aliás, nunca teve disposição para esperar pelo acaso e muito menos desejou flagrar o tempo em seu instante decisivo. Pelo contrário, Lorca desenvolveu seu trabalho voltado para a banalidade dos cenários triviais. Talvez, por isso mesmo, diante dessas fotografias aqui publicadas em torno da ideia de Travessias, raramente afirmamos “isso faz tempo”, “isso foi ontem”, e a imagem chega ao espectador com um frescor peculiar que exige um pouco de atenção em suas evidências.

Lorca soube expressar suas inquietações assumindo que o trabalho estético está subordinado à composição. Formalista e quase sempre figurativo, embora tenha imagens quase indecifráveis, ele enfrenta qualquer situação para dar evidências do seu conhecimento e da sua experiência profissional. Suas fotografias são de um encantamento imediato, pois é difícil não reagir diante de um olhar tão instigante, que denota a prazerosa sensação de veracidade e, simultaneamente, a estranha sensação de provocação e questionamentos. A aparente simplicidade na fotografia de Lorca é na verdade sua ordem essencial e desestabilizadora.

German Lorca, Telhados, 1951

German Lorca, Telhados, 1951

Tudo isso é resultado de um longo e silencioso aprendizado. Se no fotoclube aprendeu e aprofundou a técnica, também estabeleceu uma série de relações que alavancou sua atividade. A convivência despretensiosa com os fotoclubistas mais queridos – Geraldo de Barros, Chico Albuquerque e Ademar Manarini – foi essencial para sua fotografia. Mais tarde, teve oportunidade de estabelecer outros contatos fundamentais para sua trajetória: Pietro Maria Bardi, Luis Hossaka, Alfredo Volpi, Aldemir Martins, Haroldo de Campos, Marcelo Grassman, Alexandre Wollner, entre muitos outros que propiciaram conversas e trocas estimulantes.

Por exemplo, em 1952, Pietro Maria Bardi convidou Lorca para realizar, depois de Thomaz Farkas e Geraldo de Barros, a terceira exposição de fotografias no Museu de Arte Moderna de São Paulo, denominada “36 fotografias de German Lorca”. O texto de abertura do catálogo, assinado por Geraldo de Barros, mostra que Lorca já minimiza a importância do referente fotográfico, buscando articular composições mais complexas para a arte fotográfica. Geraldo registra: “Lorca é fotógrafo. Partindo do trabalho bem cuidado, ele se realiza lenta mas seguramente. Abandona o tema social para cada vez mais se exprimir através dos valores plásticos puros. A preocupação do assunto e o gosto pelo literário desaparecem, substituídos pelos ritmos e composições em branco e negro, uma vez adquirida a consciência plástica dos problemas de um arranjo numa superfície. Hoje a objetiva não é mais obstáculo ao seu trabalho, pois Lorca não depende exclusivamente dela para realizar suas fotografias – descobriu afinal, em si mesmo, a liberdade, sentindo plenamente a necessidade de criação.”

Apesar do trabalho incessante e bem sucedido comercialmente, Lorca sempre encontrou tempo para circular pela cidade, aproveitar o tempo livre de suas viagens familiares, e registrar tudo aquilo que despertava sua atenção e curiosidade. Naquela época, viver de fotografia e para a fotografia era para poucos. Ao lançarmos um olhar retrospectivo, particularmente para a Escola Paulista, denominação dos fotógrafos atuantes no Foto Cine Clube Bandeirante, veremos que German Lorca foi um dos poucos que tiveram a ousadia de dar um “salto no escuro” e apostar que sua paixão, a fotografia, também poderia ser sua principal fonte de rendimentos.

Lorca estudou contabilidade, enfrentava a rotina de um escritório que atendia a diversas empresas. Em paralelo, aprendeu fotografia, realizou alguns trabalhos comerciais e, aos poucos, abandonou a contabilidade para se dedicar exclusivamente à nova atividade. Sua produção é relativamente pequena, mas qualitativa e, entre 1948 e 1953 se comparada a outros dentre os mais atuantes fotoclubistas. Na pontuação anual que se publicava na edição de dezembro do Boletim FCCB, Lorca esteva sempre entre os doze primeiros colocados.

Ao contrário da produção fotoclubista, não encontramos em suas fotografias a linha do horizonte diagonalizada, muito menos grandes intervenções nos procedimentos de revelação da imagem. Lorca criou seu próprio alfabeto visual centrado na operação olho-câmera-mundo e, no rigor da sua composição, busca provocar algum ruído nos enquadramentos, justamente pela diferenciada articulação dos elementos da cena.

German Lorca parece trazer para sua fotografia a qualidade da experiência vivenciada. A série Geometria das Sombras, de 2014, exala melancolia como se enfrentasse uma solitária travessia na ampla casa que habita. É a emoção do artista que revive conscientemente a experiência de integrar aos seus sentimentos e às suas emoções a percepção da realidade revelada no silêncio das formas, e nas sombras projetadas no plano do piso.

German Lorca, série Geometria das Sombras, 2014

German Lorca, série Geometria das Sombras, 2014

Ele propõe estabelecer através das imagens uma comunicação direta entre as coisas simples que ocupam a casa e a emoção de reviver no seu espaço íntimo, os aspectos formais que procurava quando, em grupo, com os fotoclubistas, saia para fotografar. Uma viagem que mostra algum inconformismo com a passagem do tempo e o espírito da fotografia moderna brasileira praticada no fotoclube. Como se quisesse reviver com a sabedoria de hoje as intensas proposições estéticas de ontem. Mesmo assim, nesse exercício que revitaliza seu olhar consagrado, criou uma das mais poderosas imagens da sua trajetória. A série já é um clássico contemporâneo.

Essas últimas fotografias têm algo de sentimental mas, ao mesmo tempo, são austeras, pois Lorca cria uma atmosfera sombria, densa, severa, que pouco lembra as imagens anteriores que se pautavam por outra radicalidade, tão agudas e desconcertantes quanto estas, porém menos questionadoras.

Imobilizar as sombras, fenômenos efêmeros que exigem acuidade do olhar, e deter seu movimento espontâneo é tentar entender como a projeção da forma oscila em decorrência o tempo que avança. A projeção da sombra que estava lá por décadas, excita nossos sentidos que tentam reencontrar nas fotografias os verdadeiros objetos daquela casa, agora vazia, mas repleta de sons imaginários e imagens que despertam a memória do artista.

German Lorca, com a série Geometria das Sombras, faz uma experiência lúdica e recupera a força do espanto que provocou com suas fotografias que cada vez mais pertencem ao imaginário coletivo da nossa fotografia. A exposição Travessias evidencia a coerência de um olhar que assume algumas poucas referências – Morandi, Mondrian, Geraldo de Barros, entre outros – e sintetiza uma trajetória virtuosa na história da fotografia brasileira. Agora e sempre, imagens emblemáticas e inspiradoras, que reúnem ideias, materializam formas, concretizam espaços, vivências que denotam seu forte senso de intuição, centrado na liberdade e na experimentação.

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Exposição:
Travessias, de German Lorca
Galeria Millan
Rua Fradique Coutinho, 1360 São Paulo
até 25/07/2015

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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