Texto-imagem-teoria

[11.mar.2013]

Uma vez, numa roda de conversa que incluía Lívia Aquino e Pio Figueiroa, perguntei a Maurício Lissovsky se uma teoria poderia ser estética. Ele me respondeu que não havia teoria aceitável que não fosse estética. De fato, tive muitas vezes a intuição de que os pensadores que eu mais admiro são grandes alegoristas: apropriam-se de imagens que, quando sobrepostas aos objetos de suas reflexões, permitem ver alguns de seus aspectos ou dinâmicas mais sutis. Os exemplos são fartos em Benjamin, Barthes, Sontag, Dubois, Flusser, Didi-Huberman, entre tantos outros.

A possibilidade de traduzir uma reflexão teórica sobre a fotografia em uma forma literária já foi demonstrada por obras consagradas como “A aventura de um fotógrafo”, de Ítalo Calvino, “As babas do diabo”, de Júlio Cortázar. Um exercício de reflexão feito a partir de um conjunto de obras literárias, algumas pouco conhecidas, pode ser vista no artigo “O fotográfico na literatura“, de Fernando de Tacca. Lívia Aquino também trazido muitas contribuições na seção “O que é a fotografia”, do blog Dobras Visuais.

Creio ser possível entender algumas experiências estéticas como um trabalho de crítica, não diretamente uma “avaliação de obras de arte”, mas crítica no sentido dado ao termo pela tradição filosófica: a construção das possibilidades de conhecimento de um certo objeto que, no caso, é a fotografia e a cultura formada por essa linguagem.

Segundo Adorno, um ensaio – uma texto reflexivo em forma literária, mesmo que não exatamente ficcional – não pode ser simplesmente pensado como obra arte, porque ainda tenta dar conta de um objeto por meio de conceitos. Mas o ensaio também recusa “a máxima positivista segundo a qual os escritos sobre arte não devem jamais almejar um modo de apresentação artístico, ou seja, uma autonomia da forma” (Adorno, “O ensaio como forma”).

Trata-se, no final das contas, de defender o valor conceitual das imagens, sejam as fotográficas, sejam as literárias. Ou, visto pela perspectiva oposta, busca-se aquilo que persiste de imagem nos conceitos que tendem a tocar a realidade de uma forma fria, neutra e objetiva. Neste sentido, vale lembrar da tese de Nieztsche, segundo a qual “as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tomaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie”(Nietzsche, “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”). O que se busca é devolver um rosto, uma paisagem, uma ação àquilo que temos teorizado sobre a cultura fotográfica.

De modo intuitivo, creio que nos aproximamos muitas vezes disso neste blog. Num post anterior, “A imagem como teoria”, discuti o modo como como os ensaios aqui publicados, apesar de sua intenção teórica, aproximam-se muitas vezes da linguagem ficcional.

No ano passado, arrisquei-me um pouco mais na criação de textos ficcionais, trabalhando numa série de contos e crônicas que ainda penso como produção teórica, escrita a partir das mesmas questões que têm movido os textos acadêmicos. Um desses contos, “A última narrativa“, foi publicado no ano passado, em A Revista #2, editada por Felipe Russo. Um segundo, Claro Escuro, está saindo agora no Dobras Visuais. É a história de um assassino profissional que administra a relação com seus fantasmas por meio de um álbum de fotografias. Tem mais uma dezena dessas histórias na gaveta aguardando revisão e coragem, e que devem aparecer aos poucos.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

1 Resposta

  1. Gostei muito destas reflexões e de seus textos,principalmente Claro Escuro (por que não texto literário?) O tema, o mote- a fotografia. Eu tinha acabado de ver um texto que escrevi sobre uma fotografia que não fiz. Nada é por acaso. Gostei de suas ficções!
    Abs, America

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