Saudades da Kodak

[05.mar.2012]

Nossa formação de esquerda ensina que as crises são inerentes ao capitalismo e não permite lamentar quando uma grande corporação vai à bancarrota. Ainda assim, vez ou outra, percebemos que seus extintos produtos ganham contornos afetivos em nossa memória. Nessas horas, o conceito comercial de “marca” assume um sentido menos abstrato, quase sob a forma de uma cicatriz. Foi mais ou menos o que senti quando reencontrei uma caixinha de TRI-X perdida na geladeira, algumas semanas depois de ler as notícias sobre a falência da Kodak.

Na década de 90, fui algumas vezes à fábrica da Kodak, em São José dos Campos. Eu coordenava o Núcleo de Fotografia da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, órgão municipal que geria os projetos de cultura dessa cidade. Todos os anos, fazíamos nossa Semana da Fotografia e sempre batíamos à porta deles para pedir apoio. Saíamos sempre indignados, com três ou quatro latas de filme para rebobinar, meia dúzia envelopes de papel e uns trocados que mal pagavam um workshop. Praguejávamos, porque era o mesmo que, quase todos os dias, eles davam a outros eventos: a festa de alguma igreja, o concurso fotográfico de uma escola etc. Eles eram disputados e esses eram tempos duros: não havia leis de incentivo que devolviam às empresas o que gastavam com patrocínio. Também não acreditávamos quando diziam, já naquela época, que a fotografia não representava para eles um negócio assim tão lucrativo.

Certa vez, tínhamos na programação uma oficina de “processos alternativos”, com Kenji Ota. Quando explicamos do que se tratava, um diretor brincou: “vocês querem dinheiro da Kodak para fazer o próprio papel fotográfico?” Eles não só não se empolgavam, como sabiam que não haveria lealdade de nossa parte. Segundo um amigo que trabalhava lá, esse mesmo diretor teria dito numa reunião: “eles saem daqui e compram Ilford”. Era verdade.

A relação dos profissionais com essa empresa nunca foi simples. A Kodak supriu as necessidades desses fotógrafos durante todo o século XX, mas sua prioridade sempre foi a fotografia amadora, mercado que essa empresa inventou. Viviam portanto das férias em família e das festinhas de aniversário, mais do que da nossa arte. E nos ressentíamos quando éramos lembrados disso. Protestamos quando sumiram com o papel de fibra, quando tentaram tirar o TRI-X do mercado e, de modo geral, com o descaso com a fotografia em preto e branco. Mas, um dia, encaixotamos nossos ampliadores e colocamos na geladeira as caixas e bobinas que sobraram. Sem muita cerimônia, passamos a batalhar por mais e melhores pixels.

George Eastman, fundador da Kodak, ajudou a definir a relação que o século XX teve com as imagens (herança semelhante àquela que, segundo os entusiastas, Steve Jobs deixou para o século XXI). Eastman lançou a primeira câmera com película em rolo em 1888. Já no ano seguinte, suas lojas, que vendiam equipamentos e processavam as imagens, começaram a se espalhar pela Europa. Criou também o slogan que veríamos por muitas décadas: “você aperta o botão, nós fazemos o resto”. Foi um americano exemplar, fez sua própria fortuna, foi um negociante astuto, era respeitado por seus funcionários, praticava a filantropia e saia bem na foto com todos: entre os beneficiários de suas doações, havia universidades frequentadas por negros e também a “Sociedade Americana de Eugenia” (instituição dedicada à “melhoria racial”). Suicidou-se com um tiro no peito, deixando um bilhete que dizia apenas: “Aos amigos: fiz meu trabalho. Por que esperar?” A explicação recorrente é a de que entrou em depressão quando as dores na coluna já não lhe permitiam trabalhar, e não queria acabar numa cadeira de rodas como sua mãe.

Publicidade da Kodak, 1889

A hegemonia da Kodak durou até o final do século XX. Empresas como a inglesa Ilford, a belga Agfa e a compatriota Pollaroid fizeram-lhe algumas cócegas. Sua primeira e mais efetiva concorrente foi a japonesa Fuji. Inicialmente restrita a mercados pontuais e inexpressivos, iniciou seu processo de expansão após os anos 1950 com uma estratégia agressiva de distribuição e de preços. A Kodak parecia confiar no princípio nacionalista do “compre americano”, sobretudo diante dos ex-inimigos de guerra. Mas os números foram demonstrando que o capitalismo não é afeito a sentimentalismos. O golpe moral mais forte veio em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, que teve a Fuji como patrocinadora oficial. E, claro, havia também o restante do mundo, totalmente alheio a esse patriotismo. Aqui no Brasil, lembro que era um esporte divertido dizer que o Vélvia (da Fuji) era muito melhor que o Ektachrome (da Kodak). Já com prejuízo, a Kodak manteve sua liderança nesse minguante mercado de filmes, papéis, insumos para processamento e equipamentos analógicos amadores. Não perdeu o bonde da fotografia digital, mas desceu dele em algum lugar no meio do caminho.

Em 1975, prestes a completar um século de existência, a Kodak desenvolveu o protótipo daquela que foi considerada a primeira a câmera digital. Deram outros passos importantes. Fizeram o primeiro sensor a alcançar a marca que se tornaria unidade mínima dessas novas câmeras, “um megapixel”. Também fabricaram para a Apple as Quicktake, primeiras digitais que chegaram às mãos dos consumidores domésticos. Depois, tornaram-se coadjuvantes num mundo em que todos passaram a ter uma câmera digital em seus bolsos. A Fuji, os fabricantes tradicionais de câmera como a Nikon e a Canon, os recém chegados ao mercado da fotografia como a Sony e a Panasonic e, por fim, os fabricantes de celular revelaram estratégias mais acertadas.

A sobrevivência da Kodak passou então a depender das impressoras, de equipamentos médicos, de produtos muito especializados cujo nome nem sabemos, e da negociação de patentes. São coisas que muito pouco representam sua importância na história da fotografia.

Dei uma espiada no site atual da empresa. É como encontrar um velho parente que nos conheceu intimamente mas com quem, depois de muitos anos, não restou nenhuma afinidade. Foi estranho ler que a Kodak do Brasil conquistou, como prova de sua excelência, o ISO 14001. Primeiro, esquecemos a ASA, depois, abandonamos o ISO a essas medidas tão pouco sensíveis do marketing. A Kodak que conhecemos sobrevive apenas na memória, ou seja, depende agora do remédio contra a amnésia que fabricou durante um século.

Quantas vezes a Kodak foi o inimigo, pão-duro e displicente com nossa vocação artística. Esse “personagem com o qual perdemos a afinidade” compunha, na verdade, uma figura paterna: arcaico e autoritário, ao mesmo tempo provedor e castrador. Sonhávamos com o momento em que não dependeríamos tanto dele. Em seu leito de morte, vivemos um sentimento ambíguo, já não o reconhecemos, mas sabemos o quanto nossa história está marcada por ele.

O TRI-X na minha geladeira tem a ver com a parte mais consciente, tensa e superficial dessa relação. A Kodak tem raízes mais profundas em nossa experiência com a fotografia, enterradas no fundo de nossos armários, nas caixas de fotografias que guardamos. É uma história que tem a ver com a Brownie, a Instamatic, a lojinha da esquina, o Kodachrome e o Kodacolor, o carrossel de slides, mais do que com os tantos TRI-X que  rebobinamos.

A Kodak tornou a fotografia uma experiência corriqueira o bastante para aparecer numa canção despretensiosa como essa de Paul Simon (diga-se, numa época em que não havia “merchans” e “jabás”).

Kodachrome

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Kodachrome,
Eles nos dão belas cores ​​brilhantes
Eles nos dão os verdes do verão
Fazem você pensar que o mundo todo
é um dia ensolarado
Eu comprei uma câmera Nikon
Adoro tirar fotografias
Então, mamãe, não leve embora meu Kodachrome 

[Paul Simon, do álbum There Goes Rhymin’ Simon, de 1973]

Nós nos esforçamos para nos distinguir desses usuários que compravam seus filmes no supermercado. Mas nossa fotografia profissional – a de publicidade, a de moda, o fotojornalismo – não teria o mesmo alcance se as pessoas comuns não houvessem, há mais de um século, se apropriado dessa técnica. Nossa arte também não estaria tão presentes nas bienais e nas galerias (vale lembrar que foram as vertentes herdeiras da Pop Art que abriram, sem pudores, as portas desses espaços para nós). É mais do que legítimo querer constituir um campo erudito de reflexão e de produção, mas a história da fotografia é indissociável de sua presença na cultura de massa. Nossa melhor poesia continua sendo, em boa medida, uma versão lapidada e conceitualizada de um vocabulário popular que a Kodak ajudou a construir.

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Nesse momento, Livia Aquino analisa em sua pesquisa de doutorado uma série de peças publicitárias da Kodak. Uma pequena amostra desse material está lá no Dobras Visuais.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

3 Respostas

  1. Muito interessante! Tava por fora do papel da kodak no desenvolvimento da fotografia de arte. Muito interessante o texto que esclareceu a posicao da kodak, seu declinio e seu objetivo com a industria fotografica.
    Tambem gostei da conclusao na qual cita a pop art como essencial para a presenca de fotografia em galerias e bienais, como reconhecimento de arte.
    Parabens!
    abc

  2. Gostoso ler seus textos Ronaldo. E muito boa sua palestra ontem!
    Um beijo, Ana

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