Revista Joia vê o Brasil

[12.fev.2012]

O ano de 2012 começou para mim com várias frentes de pesquisa e novos projetos. Um deles é tentar organizar informações a fim de elaborar uma cronologia e uma reflexão sobre a fotografia, os fotógrafos e a moda no Brasil, prevista para o segundo semestre de 2013. Claro que, se olharmos para os últimos quinze anos, vamos nos deparar com algumas tentativas de sistematizar uma história da moda, uma vez que o país é hoje referência e alcança até mesmo algumas iniciativas de excelência na área. Mas, na maioria das vezes, poucas dão a devida importância para a autoria da fotografia.

Dentre os principais nomes da área, que merece citação especial desde o final da década de 1950, é o lendário Otto Stupakoff. Como sabemos, ele trabalhou bastante para a empresa Rhodia, desde 1958, e alguns anos mais tarde tornou-se um dos mais ativos profissionais da revista Cláudia, publicada pela editora Abril desde 1961. Portanto, sem sombra de dúvida, seu nome é emblemático nesta historia, seja pelo pioneirismo, seja pelo seu posterior reconhecimento internacional.

Revista Joia, capa com Tonia Carrero

Aqui mesmo no Icônica, já declarei minha predileção especial por revistas. Agora, a intenção é deixar registrado o nome de uma revista pioneira que nem todos conhecem e que poucas vezes é lembrado. Trata-se da revista Joia, cuja primeira edição data de 30 de novembro de 1957, pela editora Bloch, do Rio de Janeiro. Com periodicidade quinzenal, trouxe na capa do seu primeiro número o retrato da atriz Tonia Carrero, realizado em filme Ektachrome, a grande novidade da Kodak na época para os fotógrafos profissionais. Quantas novidades!

Tenho me deparado com vários exemplares da revista Joia e, como sempre, quando concentramos nosso interesse num tema específico para pesquisar parece que os deuses conspiram a nosso favor. Quero destacar um exemplar específico, de abril de 1967, em que o verde-amarelo da capa pulsa diferente em minha retina. Ao folhear a revista me surpreendi com um ensaio do fotógrafo francês Guy Bordin, um dos melhores fotógrafos de moda do mundo, em Brasília, propagando a moda francesa da época na nova capital. Ele também assina a capa, dobrável, a fim de privilegiar a horizontalidade da imagem fotográfica.

Revista Joia - capa dupla

As revistas de variedades destinadas ao público feminino desse período de um modo geral se constituem hoje em arquivos de imagens. Através delas é que temos um amplo painel do registro fotográfico da história da moda, particularmente no Brasil. A revista Joia surgiu no mesmo ano em que o estilista Dener Pamplona de Abreu inaugurou seu primeiro ateliê na Praça da República, em São Paulo, em pleno governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. Num breve histórico, destacamos algumas revistas femininas: A Cigarra (que circulou entre 1917 e 1975), Capricho (1952), Jóia (1957), Manequim (1959), Claudia (1961), Setenta (1970), e as internacionais publicadas no Brasil, Nova (Cosmopolitan, 1973), Vogue (1975), Marie Claire (1991), entre outras. A Joia passou a se chamar Desfile a partir de 1969 e perdeu suas características iniciais.

A editora da revista era Lucy Mendes Bloch, que foi casada mais de quarenta anos com Adolph Bloch, fundador de um império de comunicação que teve como carro chefe a revista Manchete. Seu secretário de Redação era Zélio Alves Pinto e seu diretor de arte Rubens Gerchman, um profissional exigente que revolucionou as artes gráficas e que  também se destacou nas artes visuais. O projeto gráfico rompia com a tradição das revistas femininas, seu formato era diferenciado, 26 X 35 cm, e entre seus colaboradores encontramos Dinah Silveira de Queiroz, Eneida Silveira Sampaio, Otto Lara Rezende, Sergio Augusto, entre outros. Helio Santos, editor de fotografia, contava com a colaboração de Thomaz Scheier, Walter Firmo, Sebastião Barbosa, Gervásio Batista, e muitos outros profissionais importantes da nossa fotografia.

Nesta edição há um ensaio incrível (quinze páginas duplas) denominado A moda conta a história do Brasil – Pret-à-Porter Nacional Inverno/67, com fotografias de Luiz Carlos Autuori, direção de arte de Cyro Del Nero, que se utilizou de vários adereços e obras de museus brasileiros, e manequins da seleção Rhodia Moda. Além da capa, Guy Bourdin também assinou quatro páginas com a moda francesa no cenário futurista de Brasília. Outras interessantes fotografias publicitárias veiculadas pela Standard Propaganda, anunciando a etiqueta Rhodianyl, pontuam as modelos ao lado de figuras características de diferentes regiões do país: Rio Grande do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Goiás.

Revista Joia

É possível perceber que os temas abordados pela revista estava afinados com a nova mulher, aquela que lutava para ocupar uma posição mais definida na sociedade e que, de certa forma, antecipava a grande explosão da liberação feminina ocorrida a partir do final dos anos sessenta. Mas o que é mais interessante é poder verificar que a fotografia de moda já ocupava um lugar destacado nos editorias de algumas revistas. Nossa meta agora é, após recolher esse material disperso nas fontes primárias, aprofundar a pesquisa e entrevistar as pessoas envolvidas nessa atividade. É fascinante se deparar com publicações que fizeram história e nem sempre são devidamente lembradas e creditadas. A revista Joia merece seguramente seu lugar nesta história.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

1 Resposta

  1. Muito bom seu texto, especialmente o reconhecimento à revista Jóia. Minha mãe era fã e agora tenho muitos exemplares da revista.

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