Referências cruzadas – outras luzes

[02.abr.2013]

Inúmeras vezes declarei meu desejo de publicar uma história da fotografia a partir de imagens que venho colecionando há anos. Minha impressão é de que centenas (ou seriam milhares?) de fotografias vagam dispersas pelo mundo do acaso e clamam para serem reunidas de outra maneira, a fim de nos oferecer um outro olhar sobre o documento fotográfico. Como pesquisador atento, vibro com cada imagem que salta expressiva de um álbum familiar ou até mesmo de um conjunto aleatório reunido numa velha caixa de sapatos.

Acredito que os arquivos institucionalizados são de reconhecimento público, suas fotografias estão total ou parcialmente catalogadas e parte delas já foi até mesmo publicada. A circulação dessas informações, circunscritas aos mesmos grupos de pesquisa e interesse, provoca repetições e certa comodidade para os jovens pesquisadores que preferem quase sempre trabalhar com aquilo que de alguma forma está consagrado pelo mainstream.

Tenho material iconográfico (fotográfico e impresso) suficiente para uma boa publicação, mas falta ainda reunir mais informações que contextualizem com qualidade as fotografias que foram abandonadas em seu curso, mas que almejam sua resignificação na história. Algumas dessas imagens descartadas merecem uma nova chance e podem ser consideradas peças importantes de um quebra-cabeça que, no momento, ainda está em plena montagem.

Nas últimas duas semanas, deparei-me com algumas fotografias que foram desvinculadas de seus contextos originais. Apesar de tentar entender essas atitudes, procuro estabelecer novos vínculos. Nelas, vislumbrei conexões e narrativas que me estimulam a pensá-las em outras trajetórias, mais próximas do meu interesse de pensar a memória da linguagem. A partir daquilo que foi esquecido, entendo a fotografia como enunciados determinantes para refletir sobre o homem no tempo e no espaço.

Num velho álbum familiar, identifico o casal que fotografava suas viagens e foi nele que encontrei uma intrigante fotografia. Fiz um esforço para não adquirir o álbum, mas convenci o proprietário a me vender apenas uma fotografia: a imagem do casal diante de uma escultura gigante, não tão atraente como aquelas feitas diante da torre Eifel ou as que registram os passeios pelos canais de Veneza. De imediato, relacionei esta fotografia com algo que já tinha visto na Revista S. Paulo, publicada em 1936.

O professor e pesquisador Máximo Barro, amigo de longa data, ampliou meu conhecimento sobre o gigante presente na fotografia. Tratava-se de uma escultura em gesso criada pelo artista paulista Ferri, a partir de um desenho de Luiz Peixoto, um dos revistólogos mais incríveis da época – que também era letrista, músico, cenógrafo, figurinista, diretor e produtor. Muito provavelmente, há uma relação com o filme King Kong (direção Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack), de 1933, cuja estréia no Brasil deu-se anos mais tarde. Enquanto o filme trazia o gorila gigante no topo do emblemático Empire State Building, nosso carnaval criava um Rei Momo, também gigante, nas imediações do edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu de São Paulo. Portanto, as evidências são claras. A escultura foi inaugurada na gestão do prefeito Fabio Prado, cujo diretor do Departamento de Cultura era Mario de Andrade.

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As páginas da Revista S. Paulo mostraram em duas diferentes edições o “monumento” que consagrou a folia paulistana. O ano de 1936 marca a primeira colaboração do poder público municipal com o carnaval da cidade. Portanto, a fotografia adquirida se relaciona com as páginas da revista, de autoria de Theodor Preising e Benedito Junqueira Duarte, dois nomes essenciais da produção fotográfica brasileira. B.J. Duarte foi também um dos fundadores do Foto Clube Bandeirante, mais tarde denominado de Escola Paulista, a modernidade tardia da fotografia brasileira.

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Outra fotografia que causou alegria foi a do bebê propagando o novo filme da Kodak – o Plus-X. A surpresa é que a fotografia está montada na papelaria do Estúdio F.A. –  nada menos que o mestre Chico Albuquerque (1917 – 2000), em seu famoso estúdio localizado numa ampla casa na Avenida Rebouças, 1700, que servia de residência e estúdio. A fotografia está assinada e anuncia um novo filme, formato 120 – atenção: veja o pente colado à caixa e que serve como escala. Uma fotografia de autorreferência, pura metalinguagem, pouco conhecida na iconografia do autor até então publicada.

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Apesar de dispensável a apresentação do profissional, o que me surpreende é encontrar a fotografia no circuito dos esquecidos, ou seja, a imagem que teve suas ligações interrompidas, que estava à margem e que passou desapercebida por inúmeros olhos até encontrar os meus. Se a convivência gera a diferença, fico feliz em poder compartilhar alguns dos meus achados pois, de certa maneira, me fascina essa possibilidade ameaçadora: seja a de perdermos peças fundamentais à nossa história (e provavelmente já perdemos muitas); seja a de encontrar fragmentos visuais que podem se tornar exemplos  de coerência profissional da trajetória do artista.

Por fim, a fotografia de um time de futebol, o Mineiro Athletico Club, Campeão de Ouro Preto de 1933, com um estranho sinal no canto inferior direito, na verdade, a assinatura do fotógrafo Luiz Fontana (1897 – 1968). Pouco conhecido no plano geral da fotografia brasileira, o ouro-pretano Luiz Fontana é filho de imigrantes italianos e atuou na cidade entre as décadas de 1920 e 1950, com estúdio no Largo do Rosário. Desde que iniciei minha pesquisa na cartofilia, busco completar sua série de cartões postais, toda numerada, que ele produziu sobre a vida cotidiana e a paisagem em transformação da cidade.

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Fotógrafo de talento e sensibilidade também documentou as festas profanas e religiosas. Raramente encontramos citações e demais informações sobre seu trabalho, mas sabemos que iniciou como amador e logo se profissionalizou através de uma pequena loja de sua propriedade. Nela, comercializava artigos fotográficos, sua produção de postais, além de retratar a sociedade local e a paisagem. Sua coleção de vistas produzidas no período que antecedeu ao tombamento pelo Patrimônio Histórico capta a essência do cotidiano de Ouro Preto. Esta fotografia que apresentamos acima, do campeonato de 1933, é apenas um exemplo de sua diferenciada produção, que não se concentrou apenas na riqueza arquitetônica do espaço urbano. Foi além ao documentar conscientemente todo o movimento sócio-cultural-religioso com inteligência e coerência.

Através destas três fotografias encontradas no subterrâneo da história e realizadas com objetivos tão distintos, é possível perceber que ao cruzar os autores no tempo e no espaço nos deparamos com a vastidão de um território ainda inexplorado. Vale a pena sonhar, pois é possível ampliar nossa iconografia e suas conexões a partir dessas imagens jogadas ao acaso por pessoas que não entendem o valor do documento fotográfico. Essas imagens, entre muitas outras, poderão trazer novas luzes à fotografia brasileira.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. Professor, ainda conversando sobre o “solitário solidário”, fico entusiasmado pela possível publicação sugerida neste post. Confesso que até torço por uma certa subversão às precisões das histórias em torno de seu acervo. Seu, em sentido solitário de procurar vozes nestas imagens; solidário em fazê-las reviverem. Mas como tudo que é vivo é criado, “vale a pena criar as conexões com as imagens jogadas ao acaso”!

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