"Pixo" na Bienal

[15.abr.2010]

(… entre um post e outro, um pensamento em voz alta, mesmo deslocado dos nossos temas…)

Mônica Bergamo noticiou na Folha Ilustrada de segunda-feira que o grupo de “pixadores” que fez um protesto na 28a Bienal de São Paulo foi convidado a integrar a 29a edição do evento. Naquela ocasião, o curador Ivo Mesquita criticou duramente a ação.

Deixo aqui algumas dúvidas.

O gesto de Moacir dos Anjos, atual curador, pode ser lido de modo ambíguo: pode representar a abertura do evento a manifestações não institucionalizadas, ou pode ser uma demonstração do poder das instituições sobre as manifestações que lhes são críticas.

Só pelas discussões que suscita, a iniciativa já é válida, como uma espécie de performance que visa refletir sobre os limites da arte contemporânea. Mas, caso o grupo aceite, como será a intervenção? Ou melhor, ainda será uma intervenção? Eles poderão decidir qual parede vão utilizar ou em quais obras vão interferir? É improvável, mas quem sabe…?

Em entrevista à Folha, o curador disse:

“O que realmente queremos incluir na presente edição da Bienal é a pixação, ou simplesmente o pixo, com ‘x’ mesmo, grafia usada por seus praticantes para diferenciar o que fazem hoje em São Paulo das pichações político-partidárias, religiosas, musicais, ou mesmo ligadas à propaganda que há vários anos enchem os muros e paredes da cidade, a despeito do quão ‘limpa’ ela queira apresentar-se.”

Existe aqui algo curioso. Para organizar um processo de abertura que começou lá pelos anos 60, construiu-se a distinção entre o grafite e a pichação, em palavras da época, entre a arte de rua e o vandalismo. Neste momento, abrir a Bienal para as ruas exige, novamente, dividir suas experiências: existe então a boa e a má pichação. Soa um pouco maniqueísta.

Por enquanto, o curador pode estar dando um passo bastante razoável: se essa intervenção chegou até ali, ali é um bom lugar para discuti-la. Mas ainda é preciso entender o que significaria a presença dos pichadores na Bienal, para ambos os lados.

Para que o debate não se dilua precocemente, tendo a pensar que a coisa mais interessante neste momento seria a Bienal fazer o convite e o grupo não aceitá-lo. Os pichadores continuariam sendo um fantasma que assombra a curadoria, a curadoria seguiria tentando lidar com as forças desse além-da-arte. E agente seguiria discutindo.

jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

6 Respostas

  1. Pois, essa questão é bem interessante.
    ou vi dizer que o convite já fi aceito, mas não haverá pixação lá dentro, só projeção de fotos e videos dos pixadores em ação nas ruas da cidade.
    Dai me caiu um pensamento: a ação na bienal passada foi, segundo os pixadores, uma crítica a arte de rua exposta em galerias e dentro do design publicitario.
    Se esse movimento passa agora a pensar em como participar da bienal, não está ele próprio embuído da própria crítica feita?
    Pixar com aprovação do lugar, para muito pixadores, deixa de ser pixo… não há transgressão.
    Pensar em como expor pixos dentro da Bienal é exercitar edição, curadoria, conceituação, novamente deixa de ser pixação.
    Que encruzilhada da boa!
    Independentemente do que resulte, o antagonismo já ficou latente.
    Abraços!

  2. Ai Leo, vc está equivocado falando que a ação na Bienal foi “uma crítica a arte de rua exposta em galerias e dentro do design publicitario.”

    Eu registrei a ação, conheço os caras e o ataque da Bienal é o seguinte: A Arte contemporânea está degradada e vazia em sua essência. Os pixadores preencheram este vazio conceitual e do pavilhão com sua obra.

    Da 28a Bienal, nada se fala além da ação dos pixadores.

    O vazio foi preenchido.

  3. Concordo que, talvez, o mais interessante aos convidados fosse a saida “a la” Sartre: não vou ir lá receber a porra desse prêmio, tão pensando que sou fácil assim? Pelo menos a polêmica estaria assegurada, que é o mais importante — ô tempo de consensos o nosso, hein?

    Ronaldo, sabes aquilo que diz o Bourdieu em “As Regras da Arte” sobre aumento da concorrência no campo e como isso deforma a estruturação mesma do campo? Esse caso da Bienal e do pixo é particularmente ilustrativo do argumento do Bourdieu, e me deixa com a dúvida: estão a aumentar as possibilidades de “ser artista” hoje? Quantos se encontravam legitimados, 50 anos atrás, para reivindicarem o estatuto de artista e quantos estão hoje?…

    (Nossa, que comentários mais cheio de interrogações…)

  4. Adriano, perdoe-me o equívoco, entendi a ação na bienal como uma continuação da pixação na Choque Cultural. Mas fiquei com uma dúvida, tu poderia me explicar melhor esse conceito: A Arte contemporânea está degradada e vazia em sua essência. Queria entender a essência da arte contemporânea e o que nela é degradação. Abs!

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