Pina 3D: as profundidades do cinema

[09.abr.2012]

Fiquei apreensivo quando soube que Wim Wenders embarcaria na onda do cinema 3D em seu documentário sobre Pina Bausch. Com Paris Texas (1984) e Asas do Desejo (1987), ele já parecia ter demonstrado a profundidade que se pode arrancar dessa tela. Acompanhei mais ou menos o que veio em seguida, mas fiquei preso a algumas poucas coisas mais que descobri tardiamente, seu trabalho fotográfico e alguns filmes anteriores, como Alice nas cidades (1974) Movimento em falso (1975) e No decurso do tempo (1976).

Wim Wenders, Fotografia, Esquina, Montana, 2003

Essas eram as imagens que eu queria guardar de Wim Wenders. Fato é que esse diretor não é só uma lenda, ele continua vivo. Natural que queira dialogar com novos públicos – como fez de modo correto em Buena Vista Social Club (1999) ou nas parcerias com o U2 – e também com novas tecnologias.

Ainda não consigo imaginar o 3D como futuro do cinema. Avatar não ajudou muito. Hugo Cabret sim, fez bastante sentido. Tem como personagem Méliès, o primeiro ilusionista do cinema, mas o filme já seria bom sem esse recurso. É provável que minha resistência seja semelhante a que o cinema sonoro ou a fotografia colorida enfrentaram, coisas que um dia também soaram extravagantes e desnecessárias às narrativas. Talvez eu mude de ideia ou simplesmente me acostume. Quase todo mundo concorda que o impacto do 3D se dissolve nos quinze primeiros minutos e, para nos lembrar que ele continua lá, de tempos em tempos, algum objeto salta da tela em nossa direção. Pode ser que nesse tal futuro o olhar se acomode definitivamente ao efeito e o público mal se lembre que os filmes foram diferentes.

Toda essa desconfiança não impediu que eu visse Avatar, que me divertisse com Tintin, e que gostasse de Hugo Cabret. Eu não perderia a nova experiência Wim Wenders.

Foi uma ótima surpresa. Para começar, foi para mim uma oportunidade de descobrir Pina Bausch, até então, um nome solto na história de uma arte que eu ignoro por completo. Não há no documentário informações biográficas, é apenas por suas criações e breves testemunhos de bailarinos que o filme nos aproxima dela. Leio agora que ela reinventou a dança e que morreu de câncer em 2009, aos 68 anos de idade, repentinamente, alguns dias antes de Wenders dar início a esse projeto.

Não tenho repertório para dizer nada sobre a dança. Mas sejam os mais delicados ou violentos, os movimentos que vemos na tela reverberam em nossas cadeiras e são sentidos pelo corpo (mais ou menos como promete um tal cinema 4D de que fala uma reportagem publicada esta semana na Ilustrada Folha de S. Paulo, pg. E3, 06/04/12).

Cena de Pina, Wim Wenders, 2011

A intervenção de Wim Wenders é evidente, mas sem maneirismos. Ele não pretendeu criar uma obra multimídia em que as fronteiras das linguagens se diluem. Está bastante claro qual é a voz do cinema e qual é a voz da dança. Ele usa recursos elementares como a montagem para acrescentar surpresas às narrativas das coreografias, mudando repentinamente as locações ou mesmo os personagens. Ele também explora paisagens exuberantes, mas com uma câmera discreta que lembra muito aquela de suas fotografias. Os depoimentos dos bailarinos da Companhia de Pina Bausch são comoventes, mesmo sem qualquer dramatização. São também como retratos pensantes de longa exposição, apenas rostos diante da câmera e vozes em off, ou simplesmente o silêncio.

Cena de Pina, Wim Wenders, 2011

No mais, Wim Wenders tem a delicadeza de deixar que as coreografias entrem em cena, e o espaço em que o 3D melhor atua é simplesmente o palco. É esse ambiente original das coreografias que guia também boa parte dos movimentos da câmera. Imagino que, no cinema, o público tenha a oportunidade de perceber sutilezas que seriam difíceis de apreender no teatro: primeiro, o modo como elementos cenográficos minimalistas impactam as dinâmicas permitidas pelo palco. Segundo, os movimentos mais sutis dos bailarinos, os olhares e os pequenos gestos que às vezes compõem coreografias inteiras.

Quanto ao 3D, descobri que ele próprio pode conter dimensões muito distintas. Os filmes que temos visto usam esse recurso para fazer a cena saltar da tela em direção ao público. Em Pina, o 3D faz o movimento contrário, projeta a tela para dentro, reconstruindo aquilo que seria a profundidade do palco, ao mesmo tempo que o revela como dispositivo. Se o filme convida a entrar nesse espaço, com frequência ele também devolve o olhar à sua perspectiva convencional, desde a platéia, com fileiras de poltronas à sua frente.

A mesma consciência é cobrada quanto ao cinema. Nas poucas cenas em que vemos Pina Bausch, ela aparece ao fundo de um espaço nostálgico construído dentro da tela: uma sala de projeção de cinema, com todos os personagens e aparatos que a definem. Ao contrário dessa que parece ser a vocação do 3D, a imersão que temos em Pina não visa apenas à ilusão. O tempo todo o filme evidencia o fato de que a imagem, seja a da dança ou do cinema, é constituída de enquadramentos, forjados pela topografia do teatro, ou pela tela que se coloca entre o público do cinema e a realidade que se deseja documentar.

Se o futuro do cinema aponta para esse caminho, é reconfortante saber que ainda haverá condições para a experimentação, e que o cinema pode continuar pensando a si mesmo também por meio desse recurso. Se a profundidade do 3D não se confunde  em nada com a profundidade que essa linguagem pode oferecer, pelo menos, elas não são incompatíveis.

Cena de Pina, Wim Wenders, 2011

Cena de Pina, Wim Wenders, 2011

Tags: ,

jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

6 Respostas

  1. ANIMAL. Adorei e já indiquei esse post. Estou louco para assistir esse filme.

    Não conhecia o Iconica e agora que conheço, o seguirei.

  2. Realmente é uma experência única. Para quem não viu a companhia de Pina dançar ao vivo, o filme emociona, não só pelos depoimentos, mas pela maneira que o mestre conduz a câmera. Imperdível.

  3. Grande Ronaldo!
    Reflexão atenta, honesta e sensível. Ao assistir Pina, ficava me perguntando sobre a diferença que este filme fez na minha compreensão do 3D. E é isso, ele nos convida a adentrar mais e mais…

  4. Preciso, parabéns!!!!

  5. Acabo de assistir ao filme. E dividi com três pessoas pessoas queridas minha emoção. Com o bailarino Fredyson Cunha, com Sayonara Pereira (que dançou com Pina, coreógrafa e hoje professora na ECA-USP) e aqui com você, Ronaldo, porque havia lido o post e me deu vontade de compartilhar.Quis só contar que meu coração ficou cheio de alegria e quieto. “Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. Para isso existe a dança”, disse Pina. Para isso deve existir também a fotografia, completaria eu.

  6. Lindo texto Ronaldo. Parabéns.
    Abraço.

Deixe uma resposta para Carlos Gueller Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reload Image

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.