Palavra sobre fotografia: um minuto para uma imagem

[18.jul.2011]

É certo que o sentido de uma fotografia não cabe na fração de segundo de que foi tomada. Por isso, ficamos sempre tentados a devolver-lhe certa fluidez por meio da palavra. Associar a imagem a uma narrativa é, segundo Mauricio Lissovsky, uma prática antiga que a retórica clássica chamava de  “ekphrasis” (Lissovsky, Máquina de Esperar). Como ele sugere, na dificuldade de reconhecer uma temporalidade própria a essa imagem, tendemos a associá-la com algo que pareça se desenvolver mais claramenteno tempo, como é o caso da linguagem verbal.

Descrever uma imagem é algo reconfortante, mas obviamente arriscado quando confunde o tempo latente e complexo da fotografia com o percurso bem encadeado de uma descrição, que vez ou outra deseja lhe impor uma legibilidade mais segura. É tanto mais interessante quando esse confronto entre imagem e palavra se assume como montagem, com desencaixes, lacunas, como uma espécie de jogo. Nesses casos, a palavra não tenta reconstituir a temporalidade do fato, mas conectar a imagem a uma experiência anacrônica daquele que fala.

Agnès Varda com uma das fotos comentadas, de Marc Garanger.

Em 1993, a cineasta belga Agnès Varda dirigiu para um canal de televisão francês uma série de vinhetas diárias chamada “Um minuto para uma imagem”, com o apoio de Robert Delpire, então diretor do Centre National de la Photographie (CNP). Em cada uma delas, alguém (um convidado ou a própria diretora) comenta uma fotografia escolhida. A imagem e o texto eram também publicados no jornal francês Libération, no dia seguinte à sua exibição na TV.

Num DVD dedicado aos curtas de Varda, ainda inédito no Brasil, encontrei um pequeno depoimento em que ela própria apresenta o projeto.

Dos episódios que consegui ver, seja em vídeo ou na forma de texto, alguns são realmente problemáticos, porque são inseguros ou porque são autoritários, ou melhor, porque são inseguros no desejo de impor uma autoridade sobre o que se vê na imagem.

Rosalind Krauss vê na diversidade de leituras estimuladas pela “vitrine fotográfica de Varda” um desejo de situar a fotografia como arte democrática (Krauss, “Nota sobre a fotografia e o simulacro”). Segundo ela, isso reafirma a tese de Pierre Bourdieu, que vê na fotografia uma “arte média”, nos vários sentidos que o termo pode adquirir: acessível à média estatística da população, situada entre o popular e o erudito, ligada à classe média, em última instância, apesar dos cuidados do autor, algo medíocre (Bourdieu, Uma arte média). Rosalind Krauss sugere que esse modo de abordar a imagem, sempre baseado na afirmação “é tal coisa”, representa um modo simplista de querer tocar o objeto fotográfico, tornando a imagem transparente. Vale dizer que essa “democracia” é composta também de personagens eruditos, e Krauss não poupa de sua crítica os comentários feitos por figuras intelectualizadas que participaram da série de Varda, como Martine Frank ou Marguerite Duras.

A posição de Krauss é bastante dura, mesmo que pertinente quando consideramos a “média” dos episódios, e a intenção manifestada pela diretora de dar expressão à diversidade de leituras que a imagem fotográfica suscita. Mas há entre os vídeos algumas boas experiências.

Particularmente, gosto das vinhetas conduzidas pela voz da própria diretora (que são, na verdade, a maior parte daquelas que permanecem acessíveis). Gosto sobretudo porque Varda assume seus comentários como uma projeção desconexa de fantasias sobre a foto. Também porque, talvez pela vivência que tem no cinema, sua fala chega sempre carregada de visualidade. Trata-se mais de sobrepor imagens do que de visar o objeto. Um exemplo, a partir da foto de um velho conhecido nosso, que ela revelará ao final.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. Que massa esse post! Dá uma vontade de começar semana..

    Lembrei de uma passagem que Didi- Huberman recoloca um problema de Benjamin:
    “Encontrar palavras para o que se tem diante dos olhos, como isso pode ser difícil. Mas, quando vêm, elas batem o real com pequenas marteladas até que nele tenham gravado a imagem como numa chapa de cobre”.

    brigado, boa semana!

  2. Uma pequena correção : “Une minute pour une image” foi realisado em 1983 e não 1993. A gente assistia “ao vivo” todos os episódios pois na época não havia maneira de “salvar” programa de televisão. Foi um acontecimento extremamente importante para todos nós que estudávamos imagem naqueles idos da década de 80, não tanto pela “inteligência” do que é dito (a Rosalind Krauss que me desculpe!) mas pelas novas possibilidades criativas que se abriam a nós. O Pio tem razão, “Une minute pour une image” provocou um verdadeiro entusiasmo criativo, uma grande vontade de começar a semana!

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