Os papéis efêmeros da fotografia

[03.set.2012]

Não somente a fotografia atiça meu interesse e minha curiosidade. Gosto também de recolher, estudar e refletir sobre o processo de descarte das imagens, sejam elas antigas ou não. Já registrei em alguns textos anteriores publicados aqui no Icônica meu trabalho de tentar resignificar essas fotografias ao colocá-las novamente no circuito da visibilidade. Chamei-as de fotografias rasgadas, descartadas, deserdadas, entre outras denominações para essas imagens que foram encontradas aleatoriamente em minhas andanças por várias cidades brasileiras.

Tenho um profundo respeito por essas fotografias desconhecidas que sobreviveram à violência daqueles que preferem jogá-las no lixo ao invés de guardá-las como fragmentos de sua historia familiar. Minha intenção é quase sempre recolher essas imagens e estabelecer uma forma de resistência contra o esquecimento. Para mim, essas fotografias tornam-se uma espécie de relíquia que fornecem minúsculas evidências de ritos sócio-culturais que incendeiam a imaginação.

Portanto, não é surpresa revelar minha admiração por tudo que cerca o fazer fotográfico. Quero aproveitar esse espaço para compartilhar outras possibilidades de refletir sobre essa fotografia. Pode parecer exagero, mas junto com meu interesse em adquirir essas imagens que estavam na fronteira do esquecimento, comecei também recolher aquilo que denomino de “papéis efêmeros”, que entendo como significativos documentos e vestígios indicadores que envolvem a produção, circulação, consumo e posse da imagem fotográfica.

Conhecemos bem a natureza humana que centra sua vivência na eterna dialética “criação e destruição”. Basta olhar retrospectivamente para entender o quanto de beleza natural e construída, o quanto de informação produzida, entre outras coisas, já não se perdeu em decorrência dessa vontade imperativa de intensificar o presente e esquecer o passado. Em contrapartida, é comum falarmos que vivemos hoje a plenitude da civilização das imagens. Sem dúvida, uma afirmação inquestionável, mas gostaria de propor uma reflexão de outra ordem, ou seja, evidenciar que há uma quantidade enorme de fotografias que silenciosamente são destruídas e descartadas. E o que seria de nós sem as fotografias?

Como já afirmei acima, meu interesse pela fotografia envolve não apenas a pesquisa e análise da produção consagrada pelo mainstream mas também, e principalmente, a produção fotográfica que perpassa pela historia como um caudaloso rio amazônico, com muitos afluentes criando as imagens mais significativas para a memória da grande família humana. Por isso, quero evidenciar minha preocupação com o desaparecimento sistemático dessas imagens materializadas nos álbuns e em outros suportes, provocando uma espécie de apagamento angustiante do passado em nome de um presente imagético padronizado, asséptico, e sem perspectivas futuras.

Há tempos venho colecionando esses “papéis efêmeros”,  particularmente aqueles que envolvem o fazer fotográfico e que por algum motivo não foi devidamente valorizado na cadeia produtiva. Desde os envelopes das casas fotográficas que recebiam os filmes para revelação e ampliação, notas fiscais e até mesmo os álbuns e os suportes que foram para o lixo sem as fotografias que ali permaneceram confinadas durante décadas, com alguma visibilidade. Para mim, esses papéis são importantes artefatos que carregam experiências de vidas singulares e que também devem ser entendidos como parte do inventário da humanidade. Por isso interesso-me pela possibilidade de refletir sobre esse ato de descartar o passado e perder algumas camadas da própria identidade.

Especular sobre o quanto de historia tem esses papéis descartados talvez seja uma das chaves para compreendermos a importância da fotografia na vida das pessoas. A origem de tudo o que vemos nessas imagens que separei para esta abordagem inicial sobre este assunto é absolutamente desconhecida. Foram adquiridas nos sebos e nas feirinhas que frequento há anos. Em contrapartida, elas me permite avaliações em diferentes níveis, como por exemplo, o movimento das casas fotográficas, seus parceiros comerciais, o design da papelaria, as principais solicitações, e até mesmo me emocionar com os vazios desenhados pelas tradicionais cantoneiras que prendiam as imagens aos álbuns.

De modo geral, os álbuns fotográficos tinham uma narrativa bastante íntima, às vezes disfarçadamente autobiográfica, que a família utilizava para evocar e celebrar a memória de momentos vividos intensamente pelos personagens fotografados. Serve também para reconstituir a atmosfera de uma época e para documentar as experiências daquele grupo de pessoas que se deslocou para diferentes lugares, e modelou através das imagens uma sensível historia familiar. Geralmente encontramos nos álbuns uma fluência imagética de aparente simplicidade, mas que denota o universo particular de fantasia, de memória e de invenção daquele grupo, que pode ser naturalmente universalizado.

Fico comovido quando me deparo com álbuns ou suportes em que as fotografias foram retiradas e destruídas. Um envelope sem fotografias, um suporte violentado, um álbum vazio. O que vemos nesses papéis que venho colecionando são metáforas de um esquecimento determinado pela sociedade contemporânea globalizada, representadas tanto pelo gesto inconsciente da violência, visível pelos traços deixados nos papéis, quanto pela dificuldade de aceitar a estranheza e o incômodo da sua própria ancestralidade. Afinal, seriam esses alguns dos verdadeiros motivos que levam as pessoas destruírem suas fotografias?

Pensar a fotografia a partir do seu desaparecimento ou de sua ausência é tentar entender o que efetivamente será preservado e conservado. Ao me deparar com os envelopes fotográficos vazios, com os álbuns e os suportes sem as fotografias que “habitavam” aquele espaço, imagino o que foram esses campos de significação e o que se tornaram à medida que o tempo passou.

Esses “papéis efêmeros” me atraem pois, ao perderem as referências afetivas e circularem na desordem do acaso, ganham novas possibilidades analíticas. São fragmentos arbitrários e irregulares que juntos evitam o esquecimento e potencializam novas emoções e percepções.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. Rubens, é sempre encantador quando vc escreve sobre sua coleção. Já lhe disse o quanto gosto dessa fotografia de que vc fala por meio dos objetos que guarda.
    Fiquei a olhar para estas páginas dos álbuns e imaginei cantoneiras-borboletas levando histórias para longe.
    Daí lembrei-me de uma passagem, das Passagens de Benjamin:
    “O colecionador consegue lançar um olhar incomparável sobre o objeto, um olhar que vê mais e enxerga diferentes coisas do que o olhar do proprietário profano, e o qual deveria ser melhor comparado ao olhar de um grande fisiognomista. Entretanto, o modo como este olhar se depara com o objeto deve ser presentificado de maneira ainda mais aguda através de uma outra consideração. Pois é preciso saber: para o colecionador, o mundo está presente em cada um de seus objetos e, ademais, de modo organizado. Organizado, porém, segundo um arranjo surpreendente, incompreensível para uma mente profana. (…) Basta que nos lembremos quão importante é para o colecionador não só o seu objeto, mas também todo o passado deste, tanto aquele que faz parte de sua gênese e qualificação objetiva, quanto os detalhes de sua história aparentemente exterior. (…) Basta que acompanhemos um colecionador que manuseia os objetos de sua vitrine. Mal segura-os nas mãos, parece estar inspirado por eles, parece olhar através deles para o longe, como um mago.”
    Abraços

  2. muito lindo!

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