O tempo que passa ou a inquietação dos sentidos

[21.dez.2010]

Acompanhei de perto as publicações sobre os 30 anos da morte de John Lennon. Invariavelmente, lembrei-me de uma frase dele que diz mais ou menos assim: “enquanto você sonha com o futuro, sua vida acontece”. Para nós, o tempo passou rapidamente, mas para ele o tempo foi interrompido. Ou parou? Parece incrível! Conhecemos muitas fotografias do Beatle mais talentoso e rebelde, mas fico chocado com a imutável juventude fixada nas imagens. Claro, mito morre cedo e jamais envelhece. E minha geração não só perdeu John Lennon, como também Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morinson. Todos muito jovens.

Fico impressionado cada vez que me deparo com suas fotografias. Tempo congelado e memória afetiva. Inquietação dos sentidos. O tempo é cruel apenas com aqueles que ficam por aqui, insistindo na duração e na permanência. Vilém Flusser em suas reflexões deixa claro que nós, humanos, criamos a comunicação, um artifício que dribla o medo que temos da solidão e da morte. Por isso mesmo também criamos e desenvolvemos tecnologias que registram imagens e sons para que as futuras gerações possam nelas se reconhecer. Na verdade, as fotografias permitem expandir nossa existência na vida dos outros. As novas gerações com certeza conhecem o som revolucionário do final dos anos sessenta e as fotografias que permaneceram para todo o sempre. Este é o poder imagético que se revela, quase sempre nos interstícios entre presença e ausência, passado e presente.

No dia 8 de dezembro de 2010, exatamente no dia do assassinato de John Lennon, a Globo News Document exibiu uma bela matéria conduzida pelo repórter Sidney Rezende entrevistando o fotógrafo brasileiro Luiz Garrido, que conviveu com John Lennon e Yoko Ono no ano de 1969. É comum afirmarmos que a história da fotografia é, metaforicamente, um imenso iceberg, do qual apenas uma minúscula ponta é conhecida. Com exceção de algumas fotografias publicadas na saudosa revista IrisFoto, em 1974 (Garrido não se recorda precisamente do ano da publicação) era quase desconhecida a relação casual entre Luiz Garrido e o casal mais famoso dos anos setenta.

Embalado pelo movimento estudantil de 1968 em Paris, Garrido cursou e abandonou a Faculdade de Economia (os professores eram Celso Furtado, Josué de Castro, entre outros) e foi viver a experiência Blow Up, típica daqueles que entenderam que o momento era viver a intensidade e o glamour proporcionado pelo poder da imagem. Frequentou a Escola Nacional de Fotografia Francesa, cuja orientação era uma boa formação técnica sob a coordenação dos engenheiros da Kodak Pathé (associação empresarial de muitos anos na França). Como isso não bastava, foi trabalhar como free lancer para publicações brasileiras.

Silvio Silveira, então Diretor Comercial da antiga revista Manchete, lhe fez um provocatico desafio: “o John Lennon está em lua de mel aqui em Paris e vai encontrar o Salvador Dali no Hotel Plaza Athenée. Porque vocês não tentam fazer uma matéria?” Na ocasião, o jornalista que acompanhava Luiz Garrido era o Carlos Freire, hoje um dos mais importantes nomes da fotografia brasileira em atividade do exterior. Após dois dias de espera do lado de fora do hotel, ao lado de centenas de outros jornalistas, Garrido escreveu um bilhete para John Lennon e desenhou uma flor. Foi exatamente esta mensagem que cativou o ainda Beatle que o convidou a subir no apartamento e acompanhá-lo por algum tempo.

John e Yoko, por Luiz Garrido

John e Yoko, por Luiz Garrido

Depois disso, foi à Amsterdã a convite do casal que lançava o movimento Bed and Peace, e quando encerrou a entrevista coletiva John Lennon publicamente enfatizou: “você fica”. Uma nova oportunidade e passaram a tarde juntos trocando idéias. Depois disso, uma semana em Londres convivendo com eles – conversando, comendo juntos e fumando um. Garrido percebeu que a iniciação política de Lennon, vinha através das idéias de Yoko que o provocava para aproveitar sua imagem de ídolo globalizado para potencializar alguma revolução.

Foram ao Canadá, pois os EUA proibiram sua entrada no país, e o movimento pela paz cresceu. Quando voltaram para Londres, novamente Garrido estava ao lado de Lennon que, naquele período, fazia pequenas alterações na letra e mixava a música Give Peace a Chance e recebia a visita de Ringo Star, Mick Jagger e Keith Richard. Na época, Garrido era apenas um jovem que estava vivendo a raridade do instante. Hoje, as mais de 300 fotografias em preto e branco, realizadas entre março e setembro de 1969, são o registro de uma época e, simultaneamente, o documento de um momento histórico para o Rock and Roll.

Depois desses meses de convivência, Garrido e Freire venderam a matéria para a Manchete e foram finalmente contratados pela revista. Sem noção da importância do que documentara, Garrido conservou os negativos, e agora, assediado pela imprensa internacional, procura a melhor oportunidade para compartilhar suas fotografias. Hoje, neste mundinho em que qualquer celebridade vira-lata tem um exército de seguranças, o jovem fotógrafo dificilmente poderá ter alguma experiência parecida com a de Garrido. Vale a pena clicar no link e conhecer um pouco mais desta aventura incomum de um fotógrafo que se tornou uma referência da fotografia brasileira, particularmente no gênero retrato, um gênero que o consagrou ao longo de sua trajetória artística.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

9 Respostas

  1. Belo artigo Rubens, parabéns!
    Grande abraço

    vicente

  2. Muito bom o artigo, ainda mais escrito pelo Rubens F. J.

  3. Legal mesmo…. olha só o Garrido: “eu era um amador apaixonado pela fotografia”… hahaaaaaaaaaaa.

    É isso!!!!

    Salve!!!!

    Quem não luta tá morto! Lennon VIVE!!!

  4. Abosolutamente lindo, incrível como atitudes simples abrem horizontes fantásticos, hoje nos falta simplicidade para perceber os caminhos que a vida pode nos dar, mesmo as vezes parecendo tão evidentes.

  5. …estive com Luiz Garrido na Casa de Fotografia 2 no Bairro de Botafogo, no Rio…conversamos e me mostrou as fotos que fez de John e Yoko…genial…e ainda me ensinou como fazer um bom retrato…valeu Garrido…

  6. bela matéria, Rubens.

    a frase inesquecível é da música Beautiful Boy, que Lennon fez para seu filho: “Life is what happen with you when you’re busy making other things”

    abraço

  7. bela matéria, Rubens.

    a frase inesquecível é da música Beautiful Boy, que Lennon fez para seu filho: “Life is what happen with you when you’re busy making other things”

    abraço

  8. Qdo vc disse:…lembrei-me de uma frase dele que diz…a frase que ouvi semelhante a sua e’ assim:
    Perguntaram pro John o que era a vida?
    respondeu; ‘a vida e’ aquilo que passou enquanto vc fazia planos’…

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