O silêncio e a passividade de um novo começo

[23.out.2012]

Os tios mais velhos reclamam porque nunca poderão ver aquelas centenas de fotografias produzidas em uma festa familiar. Em contrapartida, as crianças se deliciam com o imediatismo das múltiplas telas luminosas que mostram essas mesmas fotografias reclamadas passando de mão em mão. Enfim, o clássico conflito de gerações entre os mais velhos e os mais jovens, só que desta vez muito mais acentuado, uma vez que exige algum domínio técnico e demais complexidades. Na verdade, existe entre eles uma enorme diferença perceptual que envolve justamente o ato de fotografar (ritual que se consolidou ao longo da história), e o ato cada vez mais imediato de ver a imagem constituída numa tela. Uma conversão técnica tão inimaginável anos atrás que chega a surpreender e causar perplexidade até mesmo nos mais crédulos.

Se, por um lado, há um encantamento e uma euforia pela imediata visão daquilo que acaba de acontecer – e isso satisfaz nossa insaciável curiosidade –, por outro, decepciona parte daqueles que, apesar de distanciados das telas, aprenderam a entender o ato fotográfico como o registro de momentos vividos pela humanidade e que seriam visualizados posteriormente, em outras circunstâncias. Estes últimos, ao longo de mais de 170 anos de história, aprenderam a olhar não somente para esta realidade fotografada, mas também para a realidade das imagens e, naturalmente, para as próprias imagens.

A relação que temos hoje com a fotografia com certeza é de outra ordem. Gostaria de refletir sobre esta questão e percorrer alguns dos caminhos que possibilitam uma nova compreensão do processo de fotografar, disponibilizar, arquivar e ver imagens digitais que circulam livremente através das telas. Nesse estado de incerteza que nos encontramos, penso que seja necessário avaliar tanto esse momento de total euforia em relação à atual tecnologia de produção e circulação de imagens, quanto o desencanto daqueles que estão impossibilitados de ver a fotografia materializada na sua plenitude enquanto objeto. E, por favor, não se trata de saudosismo, muito menos de conservadorismo.

É inegável que hoje quando vemos fotografias, a tela é o suporte e quase sempre nos encontramos sozinhos diante dela. Esse ato solitário, muitas vezes solidário, ou seja, em conexão, é resultado de um forte apelo comercial que impõe necessidades de termos várias tecnologias de acesso que permitem o isolado ato de ver. E, eventualmente, de compartilhar. Há uma mudança sintomática que aparentemente pode parecer revolucionária para o nosso tempo, mas na verdade, um olhar retrospectivo é suficiente para entender que, desde o início da produção da imagem técnica, o ato de ver se converteu num exercício de imersão introspectiva.

O filósofo francês Paul Ricoeur (1913 – 2005) nos lembra que “é preciso reencontrar a incerteza na história”. Olhar um daguerreótipo, por exemplo, é buscar o melhor ângulo de incidência de luz a fim de dar visibilidade à imagem que nos traz uma estranha sensação de choque perceptivo. Objeto único, o daguerreótipo anunciava uma longa trajetória a ser percorrida pela imagem técnica e possibilitou a primeira compreensão de que fotografias pertencem a um regime de particularidades.  Podemos saltar para o cinetoscópio idealizado pelo inventor norte-americano Thomas Edison (1847-1931) que, em 1891, patenteou o equipamento – uma caixa com imagens gravadas numa película com cerca de 15m, enroladas numa bobina que, quando acionada, permitia a visualização do movimento. Pagava-se para ter essa mágica sensação intermediada por um visor individual.

Cinetoscópio de Thomas Edison

Cinetoscópio de Thomas Edison

Qual é a diferença entre colocar uma moeda para poder assistir um exercício fílmico de Edson e conectar-se ao You Tube para assistir um vídeo? O avanço tecnológico foi dotando a humanidade de artefatos que ampliaram significativamente a possibilidade receptiva, mas ao mesmo tempo, notamos o aparecimento de mediações cada vez mais complexas entre os homens, e entre estes e a realidade. Mas a recepção continua sendo um ato solitário. Hoje, as imagens se propagam com tal velocidade que, em questão de minutos entre o fazer e disponibilizar, curtir e compartilhar, tornam-se irrelevantes, ou seja, invisíveis, descartáveis.

No geral, todos ficam fascinados com sua própria imagem. Um espírito narcisista domina a sociedade contemporânea que publica sem piedade seu próprio cotidiano. Esse uso exacerbado da primeira pessoa pelo sujeito não tem nada de insubordinação ou produção de conteúdo transformador; tem sim a forma de um discurso antipolítico, desprovido de qualquer natureza crítica.

Os mais indignados podem resistir a esta etapa de produção e circulação de imagens; os encantados com as tecnologias devem surfar intensamente o novo momento; mas os observadores atentos podem traduzir essa etapa como o vazio silencioso de uma civilização mobilizada pela imagem técnica que, por sua vez, hegemônica e padronizada, desencanta e não provoca emoção alguma neste novo começo. Esse é o desenho social imposto pela facilitação tecnológica trazida pela globalização: um enorme espelho que propaga uma profusão de imagens inúteis, que se propõem duradouras, mas são apenas efêmeras fotografias.

Tags: , , ,

Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. Existe uma forma didática de falar sobre as coisas que reside em uma ideia saudosa.

    E é o que me toca em seu texto que aliás é extremamente contemporâneo. A frase que desperta essa questão é justamente “apesar de distanciados das telas, aprenderam a entender o ato fotográfico como o registro de momentos vividos pela humanidade e que seriam visualizados posteriormente, em outras circunstâncias.”

    Ela me ajuda a entender um tempo na fotografia valorizado pela perspectiva da recepção. Faz sentido pensarmos em um ato fotográfico imediato porém refém de significados que só se darão no futuro, ilustrado pelas possibilidades técnicas de outrora, como a verdadeira e, talvez, imutável essência da fotografia.

    Esse post me sugere uma certa precariedade do papel do fotógrafo, já que a sua produção só tomará forma quando este passar a ser receptor, por mais breve que seja esse futuro que sucede o ato fotográfico. No papel de produtor, no fotógrafo, o sentido se apresenta ainda em forma de potência.

    Daqui, Professor, fica a curiosidade de ver surgir o desenvolvimento dessa ideia do “solitário” ao mesmo tempo “solidário”. A figura desse receptor que você sugere é instigante pois esses aparentes opostos, o “solitário solidário”, são, ao que me parece, vetores de uma mesma força.

    Me faço solidário de qualquer expectativa por uma série decorrente deste post, ok?

  2. Excelente texto e abordagem do professor Rubens! Preciosa também a reflexão do meu conterrâneo Pio, que acredito ser tão pertinente que até poderia de “agregada” ao post.

    Obrigado aos dois pela extremo cuidado, dedicação e talento dediicados ao tema Fotografia.

    Um abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reload Image