O Sal da Terra: sincronizar a imagem e a voz de um drama

[06.abr.2015]

O Sal da Terra (2014) não é um filme sobre fotografia, é um filme sobre um fotógrafo. É a homenagem a Sebastião Salgado conduzida pelo filho, Juliano Salgado, em parceria com Wim Wenders. O documentário é pontuado por depoimentos de familiares e por comentários de Wenders, mas está essencialmente centrado na prosa bem articulada de Sebastião Salgado. Ele fala das viagens, dos cenários dramáticos que conheceu, da relação com alguns personagens e do contexto social e político dos conflitos a que assistiu.

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Wim Wenders e Sebastião Salgado, em O Sal da Terra

As fotos estão lá, com sua exuberância potencializada pela tela grande. Mas não há espaço para discutir o modo como Salgado pensa a fotografia, como constrói sua linguagem, como opera sua técnica. Wim Wenders se refere a ele como artista, Salgado prefere falar de seu trabalho como reportagens. Mas as imagens simplesmente surgem prontas. Não sabemos como seus projetos são planejados, não vemos de que modo as fotos são escolhidas, editadas, expostas, como elas se inserem no mercado e onde são publicadas, para além dos livros que encerram cada grande projeto. Quando Salgado aponta diretamente para alguma delas, é do lugar e dos personagens que quer falar, nunca propriamente da imagem. Um comentário de ordem estética aparece de forma incidental, durante a graciosa aparição de um urso que obriga o fotógrafo e sua equipe a se trancar numa cabana. Sussurrando, ele explica porque o animal, visto assim de perto pela janela, não renderá uma boa foto: “você tem um documento do urso mas não tem uma foto… não tem nada atrás para compor a foto, para ajudar no quadro”.

Uma introdução biográfica, acompanhada de imagens de arquivo, fala de sua juventude, seu casamento com Lélia, a ida para a França, sua aproximação à fotografia e o nascimento dos filhos. E, ao longo do filme, temos um pouco de sua performance com a câmera, em passagens breves, mas suficientes para mostrar o cuidado que tem nessa tarefa de se aproximar de comunidades esquecidas e fragilizadas. Com todas as distâncias implicadas, ele parece se fazer acolher por aqueles que fotografa. Empatia! É disso que o filme trata e é através disso que cativa seu público. Mas o documentário deixa um abismo entre a ideia por trás de cada projeto e o gesto de tomada de uma foto. A fotografia continua sendo apenas essa arte da boa composição, dos bons instantes e das intuições que não se explicam. Nessa arte sem processo, quando queremos enxergar o fazer de um autor, o que resta é uma curiosidade sobre sua performance: como se veste, quais as expressões de seu rosto, como ele observa a cena, como segura a câmera, como caminha, como se porta diante das coisas. O filme sacia essa curiosidade com uma movimentação extravagante: Salgado com a câmera em punho, rolando e serpenteando no chão com agilidade e discrição, para não assustar o grupo de morsas que quer registrar.

O documentário é feito para o grande público, um público muito maior do que o dos fotógrafos, maior também do que o dos cinéfilos que acompanharam a trajetória mais experimental de Wim Wenders. Nós – que fazemos ou pesquisamos a imagem – temos que conferir o que o nome mais celebrado da fotografia brasileira tem a dizer, mas podemos levar nossos amigos, filhos, tios. É para eles que o fotógrafo fala. Desde Buena Vista Social Club (1999), pelo menos, Wenders se dedica a projetos documentais voltados para um público amplo. Se nos encantamos com Pina (2011), é exatamente porque ele evitou falar para especialistas em dança. Ali, nós éramos apenas os amigos, filhos, tios de alguém que entendia da coisa. Aprendemos um pouco sobre dança contemporânea, e nos sentimos acolhidos num tema distante da nossa rotina. Assim é O Sal da Terra para o público.

Mesmo assim, em Pina, o modo como o filme emula na tela o espaço do palco da dança é mais rico do que a mimetização entre fotografia e cinema que vemos aqui: com alguma frequência, as cenas captadas para o filme reproduzem o preto e branco dramático de Salgado; em contrapartida, para transformar imagens estáticas em cinema, os diretores acrescentam a elas uma sonoplastia quase didática, com sons de fábricas, bichos, pessoas. O diálogo mais forte entre o cinema e a fotografia está no retrato de Salgado: uma face branca, com cabelos raspados e sobrancelhas espessas, que flutua contra um fundo preto enquanto fala, e que ajuda a dar ao fotógrafo uma aura monástica.

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Sebastião Salgado em fotograma do filme O Sal da Terra

Se o filme não é pensado para especialistas, é menos ainda para uma geração de fotógrafos que precisaram se libertar dos mestres para se colocar em diálogo com a arte contemporânea. Salgado se encontra hoje numa posição ingrata: é clássico demais para inspirar os jovens artistas, é atuante demais para ser visto como história. Na dificuldade de afirmar de modo assertivo o que é a fotografia contemporânea, com frequência, apelamos para esses mestres para tentar defini-la por oposição: a fotografia contemporânea recusa o culto ao instante de Cartier-Bresson, recusa o humanismo dramático de Sebastião Salgado. E houve tempos em que, para afirmar uma ideia de fotografia construída, recusou radicalmente qualquer tipo de apelo documental. Essa denegação mostra o quanto nosso discurso ainda paga seu tributo aos clássicos.

Pessoalmente, gosto do projeto Êxodo, não exatamente pelas imagens, mas pela tese que o livro traz sobre a globalização: os deslocamentos das populações têm mais a ver com exílio do que com a construção de um mundo sem fronteiras. Acompanhei seus outros trabalhos, e foi com algum esforço que percorri Gênesis, sua última exposição. Mas, para além de minhas predileções, é preciso reconhecer a importância desse autor. As dúvidas que colocamos sobre sua fotografia pertence ao debate mais ou menos hermético que estabelecemos com a arte contemporânea. Mas a fotografia não nos pertence. Ela está nas paredes das casas, nos jornais e revistas, nos álbuns de família, nas redes sociais e, agora, nas salas de cinema. O público amador – que se comove com o filme e que já coloca sobre a mesa da sala seus primeiros “fotolivros” – é parte legítima de uma cultura fotográfica ampla da qual os artistas contemporâneos também se alimentam.

Como título, O Sal da Terra não é apenas um trocadilho com um sobrenome. Refere-se a uma passagem do Novo Testamento (Mateus, 5:13) que, somada ao vocabulário bíblico que nomeia os projetos (Êxodo, Gênesis), empresta ao fotógrafo certo caráter messiânico. Nessa passagem o evangelho, Jesus se refere ao homem perseguido e injustiçado como aquele a quem pertence o reino do céus e como o sal que dá sabor à terra. Mas Jesus aponta também o risco desse sal tornar-se insípido e ser descartado. A fala de Sebastião Salgado percorre parábola semelhante. Seu trabalho como fotógrafo começa como uma “homenagem ao homem” e culmina com o desencanto pela espécie: “o homem é um animal terrível”, conclui ele. Há de se buscar uma redenção.

Sebastião Salgado, Gênesis,  2004

Sebastião Salgado, Gênesis, 2004

Essa é a hora de Salgado voltar para sua casa, de recompor e reflorestar a paisagem da fazenda em que nasceu (por meio do “Instituto Terra”, criado por sua esposa). É também o momento de buscar a origem da vida (Gênesis); cantos imaculados do planeta que permitam enxergar os traços de um paraíso que foi perdido na história do homem. Nesses cenários, o fotógrafo percebe que descendemos das mesmas formas primitivas de vida que deram origem a todos esses animais que permanecem puros. Como sugere, somos “primos” daquela tartaruga de Galápagos. Se eles vivem em harmonia, também podemos. A mesma linguagem – a fotografia – que mostra a crueza da espécie, é capaz de reencontrar a beleza de que somos originalmente feitos. Nas tartarugas, nos leões marinhos, nas baleias, Salgado reencontra a mesma cordialidade dos habitantes da Guiné-Papua, dos Andes e da Etiópia. Em nenhum desses lugares, a presença da câmera impõe algum tipo de conflito. Enquanto nos mostra os imaculados índios Zo’e compondo sua pose, ou o gorila curioso com seu próprio reflexo na lente, o filme parece construir a tese de que os seres vivos têm uma disposição inata para oferecer sua imagem àqueles que vêm em paz.

Quem vai ao cinema ver O Sal da Terra provavelmente já se comoveu um dia com algumas dessas imagens. A competência do documentário está em encontrar em Salgado um rosto e uma voz perfeitamente modulados a esse sentimento. O filme não irá afetar a afinidade que já construímos ou a paciência que já perdemos com esse tipo discurso dramático. E se não encontrarmos ali o trabalho mais marcante de Wim Wenders, se Salgado não for nosso fotógrafo preferido, ainda assim, haverá algumas boas histórias para escutar.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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