O olhar trágico através da lente

[19.jan.2011]

Os pensadores chamados trágicos – como Nietzsche – sugerem que não há no mundo nenhuma força que conspire espontaneamente a nosso favor. O nitzscheano Clément Rosset  (A lógica do pior, 1971) vai um pouco mais longe. Ele diz que, vez ou outra, quando menos esperamos, esse mesmo mundo nos brinda com certa ironia, fazendo com que o trágico beire o cômico. É o que ele chama de “riso exterminador”.

No começo deste ano, acompanhamos a notícia sobre um vereador filipino, Reynaldo Dagsa, que, ao fazer uma foto de sua família na comemoração do ano novo, registrou também um homem que lhe apontava uma arma. Ele foi baleado ali mesmo e morreu logo em seguida.

Familia de Dagsa. À esquerda, apontando a arma, o homem que foi identificado como Michael Gonzales.

Familia de Reynaldo Dagsa. À esquerda, apontando a arma, o homem que foi identificado como Michael Gonzales.

Dagsa era um amador, queria apenas celebrar um ano bom com sua família. Para ele, o acaso surgiu como uma espécie de fantasma que a câmera foi capaz de tornar visível, num gesto tão fora de lugar quanto definitivo. Esse é o tipo de ironia de que fala Clement Rosset (em seu exemplo, ele remete aos que embracaram na primeira classe do Titanic para celebrar o progresso, que havia permitido construir um navio “inafundável”, conforme dizia o folheto publicitário).

Amadores ou profissionais, a câmera sempre mantém alguma independêcia de nossa consciência. Não raramente, o acaso nos envia esse recado e descobrimos em nossas fotos coisas que nos surpreendem. Mesmo que essas presenças tenham sempre algo de assombroso, esse é um dos prazeres da fotografia.

Contra tal ironia, muitos que trabalham com imagens assumem essa perspectiva trágica e aceitamos seus riscos. Se for o caso, olham a morte de frente quando a encontram. É o que acontece com Emilio, fotógrafo e cinegrafista do belo filme La puta y la ballena (Luis Puenzo, 2004),  que filma sua própria morte na Guerra Civil Espanhola.

Por mais que pareça inverossímil, a realidade também sabe jogar com as improbabilidades. Talvez a inspiração do personagem de Puenzo seja o cinegrafista argentino Leonardo Henrichsen, que buscou com sua zoom aqueles que ele certamente intuiu que seriam seus assassinos. Ele cobria no Chile o levante militar de junho de 1973 que ficou conhecido como Tanquetazo, e que já dava o tom daquela que viria a ser uma das mais violentas ditaduras da América Latina, iniciada alguns meses depois.

Para o olhar verdadeiramente trágico, esses acasos permanecem imprevisíveis, mas já se anunciam como expectativa.  Todo fotógrafo que aceita se confrontar com a realidade cultiva em alguma medida esse olhar e tende a fazer da exceção a regra que move sua arte, sejam os pequenos acidentes que se revelam lúdicos, sejam as injustiças que se tornam catastróficas.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

3 Respostas

  1. Muito este texto. A percepção da vida do mundo e de tudo como “tragico” é a realidade que me coloca além de toda a negatividade e a força que evita o niilismo e re-força a positividade. Os filosofos citados eu conheço os fotografos conheci agora… valeu!

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  3. Cinegrafista da Band morto durante cobertura de tiroteio: http://www.youtube.com/watch?v=IsDYti8lNcA

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