O olhar e as paixões: sobre o novo filme de J. J. Campanella

[01.mar.2010]

Soledad Villamil, Ricardo Darin e Juan José Campanella, durante filmagens de O segredo de seus olhos

Soledad Villamil, Ricardo Darin e Campanella, durante filmagem de O segredo de seus olhos

Neste final de semana, fui ao cinema ver O segredo de seus olhos, dirigido por Juan Jose Campanella e um dos mais bem cotados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Para quem gosta do cinema argentino, a nova produção pode soar um pouco grandiloqüente, afetada pelos anos em que o diretor esteve a frente de seriados norte-americanos como Law & Order. Mas o filme é ótimo e, mesmo com uma complicada trama policialesca, não perde sua capacidade de introspecção.

Muito de passagem, a fotografia está presente na história. Durante a investigação de um assassinato, o escrivão Benjamín Espósito, personagem interpretado por Ricardo Darin, chega ao nome de um suspeito depois de observar atentamente um álbum de família. Ali, um amigo de infância da vítima aparece em diferentes momentos, sempre com um olhar encantado sobre ela.

Lembrei de Blow Up. No clássico de Antonioni, o fotógrafo Thomas chega também à hipótese de um assassinato quando segue a direção do olhar da suposta criminosa. Num exercício de associações livres, fui um pouco mais longe: tanto o fotógrafo Thomas quanto o escrivão Espósito são figuras entediadas com a rotina de seus trabalhos. Ambos se descobrem enredados pela imprecisão dos registros técnicos com que lidam, sejam os do aparelho fotográfico, sejam os do aparelho judiciário (aparelhos sempre pregam peças, vejam também a máquina de escrever de Espósito, que fala uma língua própria). Nos dois filmes, uma fixação pelos supostos crimes é construída pelos personagens como uma forma de preencher suas vidas “cheias de nada”, como é dito por Espósito.

O filme é sobre as “paixões” humanas, num sentido amplo: aquilo que se manifesta mesmo quando se tenta esconder. E o olhar de Espósito é uma espécie de narrador silencioso da trama, que ora tenta desvendar essas paixões, ora finge inutilmente que não as percebe. Por vezes, tenta dissimular as suas próprias. O olhar está em destaque no título, mas também num tipo de câmera subjetiva que Campanella inventa: subjetiva em termos técnicos, porque mostra o mundo pelos olhos do personagem, mas também em termos simbólicos, porque os sentidos das imagens podem ser contundentes ou tateantes, nítidos ou obscuros, conforme as paixões que movem esse olhar.

Há aqui o exercício daquilo que o professor Alfredo Bosi chamou de “olhar expressivo”, composto pelo fluxo imagens que o mundo dirige ao corpo, mas também pelo fluxo de sentidos que o corpo dirige ao mundo: “esse novo olhar é o que, desde sempre, exprime e reconhece forças e estados internos, tanto no próprio sujeito, que deste modo se revela, quanto no outro, com o qual o sujeito entretém uma relação compreensiva. A percepção do outro depende da leitura dos seus fenômenos expressivos dos quais o olhar é o mais prenhe de significações” (Bosi, “Fenomenologia do Olhar”, 1988).

Voltando à fotografia, olhar para os olhares é um exercício que deveríamos fazer com mais freqüência. É algo que o antropólogo belga Albert Piette chega a propor como método, convidando o etnógrafo a observar a realidade através de seus “modos menores” que se manifestam nas fotografias. Dentre, esses modos menores, destaca os gestos, movimentos, relações, posturas corporais e, explicitamente, os “tipos de olhar” (Piette, Le Mode Mineur De La Realité: paradoxes et photographies en anthropologie, 1992).

Para terminar, uma foto de Doisneau. Sempre achei que essa é uma imagem sobre os olhares (incluindo alguns que não aparecem). Quando você estiver vendo a foto, haverá pelo menos 6 olhares implicados por essa imagem. Quais são eles?

Robert Doisneau, Le Peintre du Pont des Arts, 1953.

Robert Doisneau, Le Peintre du Pont des Arts, 1953.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. ronaldo, lindo encerrar esse texto com essa imagem de doisneau! essa foto é fantástica pela curiosidade e interação dos olhares presentes e ausentes no quadro. mencionar os seis olhares é um exercício de interpretação mesmo. arrisco dizer que a imagem dá até espaço para mais que isso. o primeiro olhar, talvez o mais “charmoso” é o do cachorro – curioso e quase voltando (devolvendo) a objetiva para o fotógrafo. esse seria um outro olhar (2o), os olhos de doisneau. mais dois olhares viram as costas para a fotografia: o olhar observador do dono do cachorro (3o), o olhar observador, interpretativo, descritivo, analítico do pintor (4o). o 5o olhar pode ser o da modelo – presença que a gente identifica pelo pé próximo ao banco – que posa para (e observa) o pintor. o 6o pode ser o nosso próprio olhar, conjugado com o de doisneau, mas vendo uma fotografia diferente, 57 anos mais tarde. mas, não sei, talvez pudéssemos destacar também o olhar da personagem da pintura, com o rosto sob uma mancha preta – tenho a impressão que elas, as pinturas, nos olham e nos observam sempre. enfim, pensar para onde esses olhares nos levam é sempre um exercício prazeroso e ajuda mesmo a ir além. bom ter quem chame nossa atenção para isso!
    umabraço

  2. Os sete olhares, não é?!
    E mais alguns do próprio Doisneau, que andou por essa cena e fez mais fotos, mais quadros, ao redor do pintor.

    E ainda dá vontade de hierarquizar esses olhares todos, daí começaria com o nosso, de 57 anos de atualização e atrazo em relação a cena e destacaria bem o da pintura -“tenho a impressão que elas, as pinturas, nos olham e nos observam sempre”- e, o do cão, que prefere contemplar o ato fotográfico, o movimento de Doisneau.

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