O olhar como performance

[26.set.2011]

A atividade do olhar é normalmente entendida como captação discreta e passiva dos movimentos do mundo. Mas o próprio olhar é movimento, como diz Alfredo Bosi, “com propriedades dinâmicas de energia e calor graças a seu enraizamento nos afetos e na vontade” (“Fenomenologia do Olhar”, 1988. p. 77). Alguns artistas buscam reconhecer os momentos em que o olhar revela sua espessura, em que se torna por si mesmo uma performance, gesto que afeta também aquilo que é visto. Quando o olhar se torna visível, seus vetores compõem um enredo: o espaço à sua volta se torna uma espécie de palco e seus agentes se tornam personagens.

Doisneau é um exemplo clássico. Ele construiu narrativas à maneira das gags do cinema mudo, graciosas, românticas, e que encontra no gesto do olhar seu recurso mais eloquente, capazes de constituir verdadeiros diálogos.

Robert Doisneau, Square du Vert-Galant, 1950

Robert Doisneau, Le Peintre du Pont des Arts, 1953 / Un Regard Oblique,1948

Num dado momento, pareceu-nos que Doisneau havia descoberto em Paris o lugar em que essas performances ocorriam de forma espontânea. Hoje, sabemos que ele dirigiu seus atores e que essa Paris é, de certo modo, uma cenografia que ele ajudou a construir. Isso sugere que Doisneau não está fora da cena, seu olhar é um dos vetores que demarcam esse palco.

 

Fabio Seixo é um fotógrafo que percebeu igualmente que olhar constitui uma performance. Mas sua série Photoland revela um tempo e um lugar bastante distinto daquele de Doisneau: o agenciamento técnico do olhar se tornou evidente, primeiro porque, quase onipresentes, as câmeras assumiram o papel de protagonistas na cena e, segundo, suas porque as performances que registra se tornaram barrocas, algo rococó (repleta de “rocailles” que tornam o gesto de fotografar um ornamento da paisagem).

Fa‡bio Seixo, Photoland - Westmister Bridge, London

Fa‡bio Seixo, Photoland - Cristo Redentor, Rio de Janeiro

Não se trata simplesmente de denunciar a falsidade daquilo que o olhar constrói, como recentemente se fez à respeito das fotografias de Doisneau. É mais sutil que isso. Quando as câmeras se incorporam a certos rituais sociais, o repertório desse teatro se diluiu em nossa realidade cotidiana.

Foi Cláudia Linhares – nossa colega aqui do Icônica – quem percebeu essa característica nesse trabalho:

“Fabio Seixo transforma a fotografia em paisagem – é o próprio fotografar que cruza natureza e artifício, alcançando a materialidade de um terreno e, simultaneamente, de uma vista. Nesse caso, é a fotografia que ocupa o lugar da natureza: ela instaura-se como realidade física, como nosso meio geográfico, mundo que rodeia” (texto publicado no site do FotoRio 2011).

Seixo trata especialmente do olhar do viajante, esse sujeito que costumava percorrer o mundo com olhos especialmente ativados, que sempre foi responsável por inventar aquilo que chamamos de paisagem, mas que agora não se presta mais a nenhuma surpresa, apenas à sua própria inserção nos postais já consolidados. Cláudia Linhares prossegue:

“Colocadas lado a lado, as fotografias das fotografias arquitetam um modo de existir da atualidade em que o estrangeiro não chega propriamente a se deparar com o estranho, mas reconhecer ele próprio em todos os cantos do planeta, promover o conhecido, demarcar o alisamento das diferenças. Nesse mapa-mundi da fotografia contemporânea o horizonte sem fim e infinitamente descortinável (que antes moveu viajantes e fez da fotografia um instrumento de revelação – e manutenção – do mistério) cede lugar a paisagem “foto-biográfica”. Viajar não é mais tanto desterritorializar-se, mas territorializar o mundo em eixos e orientações fotográficas”.

 

Isis Gasparini é uma jovem artista formada pela Faap que se interessa particularmente pela performance do olhar diante da obra de arte. Deparou-se com a questão ao se aproximar daquela que é a mais visada de todas as pinturas da história (essa obra já havia aparecido numa das paisagens turísticas de Fabio Seixo). Mas aqui, Isis não apenas deslocou seu ponto de vista para tornar visível a atuação do olhar, ela completou a volta para se defrontar diretamente com ele, colocando-se quase no lugar daquilo que é visto. Essa inversão é semelhante àquela operada por Velázquez, em Las Meninas. Mas, se foi surpreendente ver o backstage em que se situava o pintor, o lugar e a performance dos olhares que vemos agora são tão recorrentes e previsíveis que sequer precisaríamos dizer qual é a obra que está sendo registradas pelas câmeras dos turistas.

Isis Gasparini, da série "Le Gioconde", 2010

Pode-se constatar que um modo de olhar se torna mais facilmente visível em si mesmo quando o meio por onde deveria transitar se torna opaco e impenetrável, quando a imagem que produz não mais permite uma experiência daquilo que é visto. Nesse sentido, a pesquisa de Isis Gasparini começou por um lugar-limite: aquele em que o olhar parece ter se esgotado.

Mas, percorrendo outros espaços expositivos, ela recolocou sua questão em outras bases: já sabia como o olhar se anulava quando seu gesto se tornava mecânico, passou então a se interrogar o que ocorre com ele em seus lapsos, em seus desvios, em seus momentos de entrega, ou quando falha em responder ao papel de espectador (ou de turista). Ao lado de seu trabalho como fotógrafa, e desde muito antes, Isis se dedica à dança. É nesse palco que tenta agora situar o olhar, como algo que pode se diluir em todo o corpo, em gestos menos estereotipados. Em “Olhar outro”, segunda etapa da mesma pesquisa, buscou esse “olhar expandido” numa presença corporal ainda mobilizada pelas obras, mesmo quando o olho propriamente dito se tornava coadjuvante.

Todas as imagens foram feitas dentro de museus ou galerias, diante de obras que não vemos, mas que são provavelmente menos consagradas, e que permitem uma resposta menos doutrinária que a Mona Lisa. O olhar segue sendo o principal objeto de suas fotografias, mas seus vetores já não são tão claros: eles se cruzam de modo aleatório e a sobreposição de imagens no vídeo dilui o sujeito desse olhar, que passa a existir apenas nas frestas que o movimento do vídeo permite, e que só ganha contorno preciso durante breves instantes. A passagem de um trabalho ao outro revela uma ponta de otimismo: quando a performance do olhar se esgota em movimentos tornados automáticos pela cultura, talvez reste buscar alguma vitalidade nos instantes em que seu comportamento se torna indefinido, ocioso, disposto à aventura.

 

Buscar a expressividade dessas performances do olhar é reconhecer os artifícios de que ele dispõem para reinventar o mundo. Combinadas, as obras de Doisneau, de Fabio Seixo e de Isis Gasparini sublinham aspectos distintos e igualmente necessários dessa consciência: a possibilidade de abrir o olhar à fantasia, a necessidade de apontar seus focos de esgotamento, e a esperança de reencontrar um lugar em que seus movimentos permaneçam livres.

 

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

4 Respostas

  1. Ronaldo Entler, o sr. erra o conceito no qual se baseia esse texto. Toda percepção passa por uma processameto mental que é ativo. Não há captação passiva.

  2. Caro Artur, estamos falando exatamente a mesma coisa. Começo o texto dizendo que “a atividade do olhar é normalmente entendida como captação discreta e passiva”, para logo em seguida acrescentar um “mas…” e defender o contrário disso.

  3. Excelente Texto. Parabéns.

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