Nova York em dois tempos: Chantal Akerman e Jem Cohen

[16.out.2012]

Acabo de voltar de Nova York, haverá o que contar aqui em breve. Mas a viagem começou um tanto antes, sobretudo com dois documentários que vi recentemente, News From Home (1977), de Chantal Akerman e Lost Book Found (1986), de Jem Cohen. De algum modo, foi a partir deles que surgiu o desejo de fazer essa viagem.

São olhares muito distintos. Akerman, recém chegada da Bélgica, mostra em toda sua extensão as dinâmicas que descobre nessa cidade. Parada ou em movimento, permanece sempre receptiva aos acontecimentos, mesmo quando eles demoram a ganhar forma. Cohen é praticamente um cidadão local (nasceu no Afeganistão onde seu pai estava a serviço do governo dos Estados Unidos) mas, também para ele, há o que se descobrir em Nova York. O percurso que ele faz é improvável, fragmentário, espécie de jogo repleto de saltos e conexões aleatórias.

News from home é um filme bastante silencioso. Os longos planos são perturbados de vez em quando pela leitura de cartas enviadas pela mãe de Akerman, uma figura carente e controladora: “escreva mais vezes”, “quando você volta?”, “fiquei surpresa de não receber nenhuma carta sua esta semana”, “por que você se mudou?”, “escreva para a tia Tonia”, “dizem que Nova York é terrível e desumana”, “pela enésima vez, você recebeu os $ 20 que mandei?”, “onde e com quem está vivendo?”, “vá ver seu tio de vez em quando”, “sua carta foi muito breve”, “mande algumas fotos”.

Assistindo ao filme com os vícios da fotografia, foi inevitável reconhecer nessas tomadas composições que pareciam pedir para serem fixadas, fotografias potenciais que não chegaram a ser feitas. Fato é que, diante de tantas exigências de sua mãe, Akerman parece recusar a urgência de qualquer decisão, quer apenas que olhar se perca no destino incerto que as coisas assumem.

Lost Book Found, somos conduzidos por um narrador aparentemente fictício, mas que Cohen assume portar elementos de sua biografia. Trata-se de um vendedor de amendoim que, todos os dias, conduz seu carrinho até a mesma calcada de Nova York. Ali, ele começa a perceber alguns personagens, dentre eles, um homem que vive de recuperar coisas caídas nas grades do metrô. Um desses objetos é um livro de anotações com listas que organizam todo tipo de coisa com critérios pouco apreensíveis. O narrador o lê por algumas horas e, depois, propõe comprá-lo, mas não há acordo sobre o valor. Ele nunca mais encontra esse “pescador de objetos” perdidos, mas o livro marcará para sempre sua experiência com a cidade.

Inspirado pela leitura das Passagens de Walter Benjamin, essa colagem de cenas, sonoridades e frases, sem haver necessariamente sincronia entre uma coisa e outra, define a estratégia do documentário. Tudo um tanto banal, mas muito revelador dos percursos inesgotáveis que o olhar pode fazer nessa cidade (no fragmento abaixo, vemos também a referência tomada por Sam Mendes para a famosa cena da dança do saco plástico em seu filme Beleza Americana, de 1999).

É evidente a identificação de Cohen com o “pescador”. E há também algo de fotográfico tanto no modo como esses objetos são arrancados do fluxo da cidade pelas frestas das grades, quanto no modo como são revelados pelo colecionador. O filme, que se descola frequentemente da narrativa para aderir à estratégia fragmentária das listas, também se assemelha à atuação de um fotógrafo que exibe em sequência as cenas captadas em seu percurso sem ter que justificar a passagem de uma imagem à outra. O cineasta teve formação em fotografia, e não esconde a influência que recebeu de alguns fotógrafos de rua, sobretudo aqueles ligados ao movimento norte-americano conhecido como Photo League.

Esses não são trabalhos recentes, mas as duas cidades ainda estão lá. Nova York é um lugar onde se vê muitas caras e se ouve muitas línguas. É também um espaço em que velocidades distintas convivem: é possível vagar e seguir o rastro das coisas, ou deixar que se combinem espontaneamente perdendo-se no meio delas.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

1 Resposta

  1. é mesmo bonito News from home. E é inevitável que se acrescente ainda uma outra camada de interpretação que vem do tempo que se passou entre os anos 70 e hoje. Há ali uma espécie de sedução involuntária; penso nas roupas, nos carros, nas placas, nas cores da época. Me pergunto até que ponto Akerman tinha consciência disso. Me pergunto também se o tempo de hoje vai exercer essa sedução amanhã.

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