Muita fotografia e vídeo na Bienal

[19.set.2010]

Fui procurar saber o que haveria de fotografia na 29a Bienal de São Paulo: Guy Veloso, Jonathas de Andrade, Rochelle Costi, Rosangela Rennó, Miguel Rio Branco, Alice Miceli, Alfredo Jaar, Nan Goldin são nomes que consigo identificar na lista oficial de participantes. Certamente, há outros fotógrafos que não conheço, e artistas menos óbvios que eventualmente podem se aproximar dessa linguagem.

Guy Veloso. Da séire "Penitentes", que será mostrada na Bienal.

Guy Veloso. Da séire "Penitentes", que será mostrada na Bienal.

Já se insinuou que a intensa presença da fotografia e do vídeo nas Bienais coincidia com a escassez de obras consagradas e com o fim dos “núcleos históricos”, sintomas de um empobrecimento do evento. Mas é fácil constatar que essas linguagens conquistaram seu lugar nos espaços e debates dedicados à arte contemporânea em todo o mundo.

Poderíamos investir no argumento de que foram superados os preconceitos históricos que emperravam o reconhecimento da fotografia como forma legítima de arte. Mas vale a pena refletir sobre o que pode haver de verdadeiro por trás desse suposto “empobrecimento”. De verdadeiro, e não necessariamente de negativo.

Acredito que essa presença da fotografia tenha sim algo a ver com o desejo dos artistas e principalmente dos curadores de dialogar com a cultura de massa, de aproximar a arte de expressões que são familiares ao público, de oferecer alternativas para a ideia arcaica de “gênio”, de deslocar o valor do objeto para o conceito. Essas são várias formas de falar da mesma coisa: o embate que arte contemporânea estabelece com tudo aquilo “auratiza” a obra. Como percebeu Benjamin, coube exatamente à fotografia e ao cinema a tarefa de confrontar pela primeira vez a arte com essa questão, que foi também colocada por outros fenômenos tipicos do século XX, os ready mades, as tendências pop, a arte desmaterializada. Natural que a fotografia esteja presente no momento em que os artistas e curadores decidem aprofundar esse debate.

Ferreira Gullar publicou há alguns meses em sua coluna, na Folha de S. Paulo (“A pouca realidade”, 07/03/2010), uma crítica que aponta outra forma de empobrecimento, não do objeto artístico em si, mas do sentido que ele é capaz de produzir. O vilão é um tipo de fotografia, de cinema e de vídeo que ele imagina invadir o espaço da Bienal. Diz ele:

“Leio que a próxima Bienal de São Paulo será tomada por filmes, fotografias e videoinstalações. E não serão filmes de ficção, mas filmes que tratam da realidade política, econômica e social. Essa notícia veio ajustar-se a uma leitura que tenho feito do rumo tomado pelas artes plásticas, segundo a qual tudo o que nelas era fantasia foi substituído pela realidade. (…) Ao substituir as significações simbólicas pela exposição pura e simples dos fenômenos reais, abre-se mão da capacidade humana de criar um universo imaginário que, durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se à experiência do mundo material.”

Ele parte provalvelmente a uma reportagem de Silas Marti, publicada no mesmo jornal (25/01). Gullar retomou a discussão (“A pouca realidade 2”, 21/03), respondendo a uma manifestação da curadoria da Bienal que, segundo ele, concordava com sua “tese de que a arte existe porque a realidade não nos basta”. Mas a limitação de algumas linguagens lhe parece incontornável: “Se é assim, tanto melhor. Mas por que fazê-lo por meio do cinema se a Bienal é de artes plásticas?”

Interessante como o artigo de Gullar tem afinidades com a famosa crítica de Baudelaire ao Salon de 1859. Alguns trechos mais violentos contra a fotografia já são bem conhecidos, vejamos apenas o parágrafo final do texto:

“Dia a dia, a arte perde o respeito por si mesma, se prosterna diante da realidade exterior, e o pintor se torna cada vez mais inclinado a pintar, não o que sonha, mas o que vê. Entretanto, é uma felicidade sonhar, é uma glória exprimir o que se sonha, mas o que direi? Você ainda conhece essa felicidade? Afirmará o observador de boa fé que a invasão da fotografia e a grande loucura industrial não estejam ligadas a esse resultado deplorável? Será possível supor que um povo, cujos olhos se habituaram a considerar os resultados de uma ciência material como produtos do belo, não terá, ao largo de certo tempo, particularmente diminuída sua faculdade de julgar e de sentir o que há de mais etéreo e de mais imaterial?”

Esses são dois críticos e poetas respeitáveis, não podemos simplesmente desqualificar suas opiniões. O temor que manifestam tem fundamento: realidade e arte são coisas distintas. O que cabe é perguntar a que exatamente se dirigem suas críticas.

Que fotografia é essa que pode ser entendida como “exposição pura e simples dos fenômenos reais”? Esse sim foi um “sonho” que a ciência positivista produziu, e que a primeira propaganda da fotografia ingenuamente replicou.

O problema é muito mais um discurso equivocado sobre a fotografia do que uma escolha feita pelos artistas. A diferença é que, na época de Baudelaire, esse discurso era hegemônico, na de Gullar, se ainda sobrevive (ele dá exemplos no segundo texto), já não deveria ser levado tão a sério.

Se de fato a fotografia, o cinema e o video se fazem cada vez mais presentes nos espaços de arte é exatamente porque já se constatou o fracasso dessas linguagens como “reprodução do real”. Já não precisamos da retórica didática da “fotografia construída” para perceber que a mais documental das imagens não escapa da condição de “representação”.

Não encontramos em textos posteriores de Baudelaire manifestações contra a fotografia como essa de 1859. Ao contrário, sabemos da admiração e respeito que cultivou pelo trabalho de fotógrafos como Etienne Carjat e Nadar, que se tornaram seus amigos. Isso leva a crer que Baudelaire teve a oportunidade de vencer seus temores e de compreender melhor os potenciais da fotografia. É surpreendente ter que voltar ao assunto um século e meio depois.

Ninguém tem a obrigação de gostar da fotografia. Mas se é para questioná-la, que seja por aquilo que ela pode efetivamente ser. Não pela sua suposta coincidência com a realidade, coisa que, por mais que se tenha tentado, ela jamais alcançará.

***

Textos na íntegra:

A pouca realidade 1 e 2, de Ferreira Gullar

O público moderno e a fotografia, de Charles Baudelaire

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

6 Respostas

  1. Em tempo: também hoje, um texto de Simonetta Persichetti no Estado de S. Paulo aponta a presença da fotografia nesta Bienal, e identifica outros nomes: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100920/not_imp612317,0.php

  2. Ótimo post… to aqui digerindo tudo, professor. Um mundo de imagens na cabeça depois desse texto

  3. ronaldo, estive na bienal de berlin esse ano e fiquei impressionada em como toda a montagem era focada na “realidade”, com vários documentários e fotojornalismo. o tema era “o que te espera lá fora” e na época fiquei superconfusa com a montagem. além disso, c/o berlin, galeria de fotografia, estava com uma retrospectiva da magnum. depois, estive no museu berardo em lisboa, e havia outra exposição chamada “tudo o que é sólido se dissolve no ar: o social na colecção berardo”, que era um recorte do acervo do museu, voltado para “o social”. ler esse texto me ajudou um pouco a entender, mas ainda não posso deixar de me perguntar o que tem determinado essa movimentação…

  4. Ronaldo, é meio triste pensar que muitos leitores devem ir a Bienal pautados por este foco de Gullar…
    Já ouço rumores destas bobagens por ai.
    Bj

  5. O desapego do real para a nossa sociedade contemporânea é muito custoso. Vivemos a incerteza dos dias, das castátrofes, dos vírus imorríveis, dos fatos e fraturas expostas na sala de jantar. Estamos contaminados com a agrura do real e parece que se desvincular desse mal é impensável, já que há uma cobrança sem freios para sermos reais, dizer a verdade, sermos nós mesmos, focar nas objetividades da vida cotidiana, deixar de sonhar. Refletir isso na arte seria era inevitável. Essa é a arte do futuro, ou é o futuro da arte? Como a Fotografia poderia suberveter essa lógica escatológiaca? Estou tentando entender.

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