Morreu John Berger

[07.jan.2017]

John Berger por Jean Mohr

Foi no primeiro dia útil do ano, 2 de janeiro, em Paris, aos 91 anos de idade. Dia útil por que? Dia útil para quê? Para se contar uma história ‒ essa provavelmente seria sua resposta ‒, pois toda história começa pelo fim (ou porque há um fim). E o fim é sempre alguém que morre, pois “precisamos dos mortos para reconhecer a nós mesmos”.  Em um diálogo memorável com, Susan Sontag , ambos concordam que “a morte de alguém”, de fato, “é sempre pretexto para se contar uma história.” A conversa com Susan Sontag aconteceu em 1983. É sobre literatura, mais precisamente sobre narração.

Eles discordam sobre praticamente tudo, exceto sobre a necessidade de ouvir e compreender um ao outro.  Os livros de John Berger (Modos de Ver), Susan Sontag (Sobre a Fotografia) e Roland Barthes (A Câmara Clara) foram traduzidos para o português na mesma época. De uma hora para outra descobríamos que a fotografia podia ser pensada.

John Berger era único remanescente dessa geração de pensadores da imagem que provinha da literatura, sem postos nas universidades, sem títulos e carreiras disciplinares. Ele estudou pintura, mas trocou os pincéis pela escrita porque sentia uma urgência de dizer certas coisas. Escreveu ensaios, principalmente sobre arte, ficção e poesia. Criou programas para TV e roteiros para cinema. Sua obra-prima (isto é, aquilo que o tornou mundialmente conhecido) foi a série de 4 episódios para BBC Ways of Seeing. Foi em 1972, no tempo em que não havia internet ou canais a cabo. Tudo o que viemos a saber de Berger era de ler ou ouvir dizer. Hoje, é só fazer uma busca no Youtube e estão todos lá, desde o episódio 1.

Nunca tinha havido um programa de TV sobre arte como esse. E todos que foram feitos depois tinham de medir-se com ele. Há frases nesse programa que jamais esqueci e é curioso vê-las agora reproduzidas em alguns dos obituários que foram publicados. Uma dessas frases “Os Homens agem; as mulheres aparecem” (no episódio 2) alimentou os debates em torno do tema do olhar masculino na arte a partir dos anos 1970 e 1980 (“How we see women?”).  Havia sempre uma intuição brilhante nos textos de Berger. Acontecia de repente, sem preparação anterior, sem a lenta construção dos argumentos. Em “Why look at animals?”, a pergunta sobre as mudanças nos modos como olhamos  os animais ajudou a definir os contornos daquilo que, desde fins dos anos 1990, ganhou o nome de “estudos animais” ou a “questão animal” na arte, na literatura e na filosofia. Mas ser um visionário não lhe custava esforço. Não era o resultado de um cálculo, mas do exercício do olhar. Era uma “clarividência” cujo frescor buscava o olhar do outro (da criança, do camponês) para elaborar a partir daí uma crítica que nada tinha de ingênua.

Berger saiu da Inglaterra que considerava intolerável e foi viver em uma pequena vila no interior da França. Lá escreveu e criou histórias impressionantes ‒ algumas com amigos fotógrafos, como o suíço Jean Mohr ‒, tão distantes da reportagem quanto próximas da verdade, como A Seventh Man, de 1976, sobre imigração. Mas se algum de vocês quiser dedicar a Berger apenas uma hora, há esse documentário de Cherie Dvorák, feito no ano passado, logo após o escritor ter sido operado de catarata: The Art of Looking.

Aqui ele conta um sonho sobre a visão. Nesse sonho podia entrar dentro das coisas que via, mas depois que acordava, não sabia mais como entrar dentro das coisas. O que resta, então, desse despertar, desse despertar em que habitam tanto ele como a coisa vista e seu leitor?  Uma cumplicidade, talvez. Acredito que poucos artistas e pouquíssimos críticos (e John Berger era ambos) tenham confiado tanto na cumplicidade, tenham operado tantas formas de cooperação na TV, no Cinema, na Literatura, na fotografia e no desenho (que ele nunca abandonou). Escrever para ele (e tudo, em última instância, era para Berger uma escrita) era participar de uma “conspiração” ‒ “uma conspiração entre órfãos que trocam piscadelas”.

Na conversa com Susan Sontag que mencionei acima, Berger começa dizendo que contar uma história é “abrir um espaço” (a famosa roda de conversa) e “dar abrigo”. Uma de suas últimas aparições públicas foi uma conferência na Biblioteca Britânica, em fins de 2015. O tema era seu livro, de 1975, A Seventh Man. Alguém da plateia perguntou sua opinião sobre esse “grande movimento de pessoas pelo mundo”. Ele levou as mãos à cabeça, refletiu um pouco, e disse: “Tenho pensado na responsabilidade do narrador ser hospitaleiro.”  Esse escritor que já havia sido ridicularizado por supostamente ser o último intelectual marxista do Reino Unido, havia escolhido muito bem suas palavras. Ele concluíra há muito tempo que não podia haver nada mais revolucionário, nem mais corajoso em nossos dias do que ser hospitaleiro. Uma hospitalidade que não diria respeito apenas aos personagens e aos objetos da narrativa, mas deveria necessariamente incluir o leitor.

Que tremendo desafio para a fotografia e para os fotógrafos que passaram tanto tempo aprendendo a ser incisivos, argutos, agudos, imediatos, provocativos. Pode nossa fotografia, uma fotografia, ser “hospitaleira”? Na medida em que pensamos, por um minuto que seja, na responsabilidade que essa pergunta encerra, reverenciamos John Berger.

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Historiador, roteirista, pesquisador, doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da ECO-UFRJ.

1 Resposta

  1. Caríssimo Maurício, que bela homenagem ao John Berger. Fico aqui burilando sobre a possibilidade de sermos “hospitaleiros”, num mundo em que o heroísmo e o hedonismo eclipsam gestos afetivos. Obrigado por mais essa sensível aula. Grande abraço.

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