Miséria editorial

[29.out.2009]

Dizem que Giovanni Pico della Mirandola, um erudito do século XV, orgulhava-se de ter lido aos 30 anos de idade todas as obras escritas e disponíveis em sua época. Isso só era possível, claro, porque a recente descoberta de Gutenberg ainda não tinha produzido seus efeitos. Com o mercado editorial produzindo mais do que nunca, quem poderia dizer algo parecido hoje?

Talvez um jovem pesquisador da fotografia possa fazer uma visita à melhor livraria de sua cidade e, depois de algumas semanas, dizer que leu todos os ensaios disponíveis sobre o tema. Mas não é motivo para orgulho.

No post anterior, o Rubens apontou muito bem a importância de A Ilusão Especular em nossas pesquisas, e a necessidade de reeditá-lo. Dei uma repassada em minha biblioteca – nas coisas que tenho, nas que me faltam – e decidi fazer um pequeno balanço.

Temos visto um espaço crescente para a publicação de catálogos e livros com obras de fotógrafos. É uma conquista, e os livros estão cada vez mais bem diagramados e impressos.  Mas a dívida das editoras com a pesquisa sobre fotografia é enorme. Muitas vezes, nem com edições feias podemos contar.

A exemplo do livro de Arlindo Machado, outros títulos escritos em português estão esgotados ou são difíceis de encontrar. Alguns textos importantes nunca foram traduzidos.

Filosofia da Caixa Preta, de Flusser, disponível em turco (acima), russo, chinês, japonês e outras tantas línguas

Filosofia da Caixa Preta, de Flusser, disponível em turco (acima), russo, chinês, japonês e outras tantas línguas

Até que não podemos reclamar de alguns clássicos: Sobre fotografia, de Sontag, e Filosofia da Caixa Preta, de Flusser, ficaram uns bons 15 anos longe das livrarias mas reapareceram e só então pude substituir minhas cópias alternativas. Fotografia e História, do Boris Kossoy, não tenho certeza se chegou a esgotar, mas felizmente também ganhou uma edição revisada. A Câmara Clara, de Barthes, está por aí, resistindo bravamente. Mesmo assim, na semana passada, só vi disponíveis na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista) exemplares dos livros do Boris e de Sontag. O de Barthes precisava ser encomendado. Flusser, inacreditável, nem encomendando. Alguém sabe se esgotou de novo?

Publicações recentes, como A Máquina de Esperar, de Maurício Lissovsky ou Fotografia e Viagem, de Antonio Fatorelli, já se tornaram livros importantes, mas não é óbvio que os encontremos em livrarias de São Paulo. Será que é bairrismo? Nessas horas, só a internet nos salva, mas também demora.

Mais… O livro de Philippe Dubois demorou muito a chegar: quando ele veio ao Brasil lançar O ato fotográfico, aproveitou para dizer  em várias palestras que já não acreditava tanto no que havia escrito. O Fotográfico, de Rosalnd Krauss, só chegou com uma edição em português lançado por uma editora espanhola (G&G).

Recentemente, houve rumores de que teríamos uma tradução de Photographie Plasticienne, de Dominique Baqué, que já estava disponível em espanhol.  Acho que desistiram, afinal, a própria autora lançou uma continuação desse livro (um outro trabalho, não apenas uma reedição), tentando dar conta da rápida transformação vivida pela fotografia na última década.

Fotografia e Sociedade, de Gisele Freund, foi lançado em Portugal, mas provavelmente está esgotado. Os usados são difíceis de encontrar e custam caro. Hoje, no site Estante Virutal, há um exemplar em espanhol (La Fotografia Como Documento Social)por R$ 319,00.

Autores como Raul Beceyro (Ensayos Sobre Fotografia), Henri Van-Lier (Philosophie de la Photographie), Joan Fontcunberta (El Beso de Judas), André Ruille (La photographie), Geoffrey Batchen (Burning with desire: The Conception of Photography), que foram ou têm sido sistematicamente lidos por aqui, nunca foram sequer traduzidos. E The History of Photography, de Beaumont Newhall? Só em espanhol. Ou qualquer outro de história mundial…? Temos é claro obras como A fotografia moderna no Brasil (Helouise Costa e Renato Rodrigues) e a coletânea Fotografia: usos e funções no século XIX (organizado por Annateressa Frabris), ambos com recortes bem específicos. Mas alguém me ajuda a lembrar de um bom livro de história da fotografia mundial, escrito ou editado em português, que possamos encontrar hoje nas livrarias (não vale nos sebos ou leilões de obras raras)…?

Imaginem quanta gente deve ter passado batido. Maurício Lissovsky recomendou um autor português, Pedro Miguel Frade (Figuras do Espanto: a fotografia antes de sua cultura). Eu desconhecia, não lembro de tê-lo visto algum dia em livrarias por aqui. Tentei achar, mas já não está disponível sequer em Portugal.

Também deve haver autores brasileiros publicando seus trabalhos em pequenas editoras ou editoras universitárias, coisas cujo acesso será sempre difícil. Ou pesquisadores cujas teses de mestrado ou doutorado, com um pouco de sorte, só vão circular em PDF. Tudo isso num momento em que já temos dois (que eu conheça) cursos de graduação em Fotografia, muitos programas de pós-graduação distribuídos pelo Brasil com linhas de pesquisa que apontam para a fotografia.

Ainda bem que temos os blogs, que não esgotam… Mas podem sair do ar.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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