MIS – centro irradiador de fotografia

[14.maio.2012]

O MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo retoma agora seu trabalho com a fotografia. A programação a partir deste mês de maio tenta recuperar o brilho e o prestígio do museu nessa área, um tanto esmaecido nos últimos anos. Essa retomada é muito importante num momento em que a fotografia ganha expressão e proximidade com a arte contemporânea e espaço nos museus, galerias e instituições culturais. Nunca a fotografia alcançou tanto destaque como agora.

Portanto, nada mais justo o MIS se reposicionar em relação à fotografia. Afinal, nos últimos quarenta anos, podemos atestar a relação intensa e profunda que o museu manteve com essa arte. Não querendo esgotar o assunto e nem hierarquizar gestões e eventos, é sempre bom lembrar que foi este museu um dos mais estimulantes centros da produção fotográfica paulista e brasileira, o que garantiu a circulação de imagens e deu visibilidade a inúmeros profissionais.

O MIS e a fotografia são parceiros desde a primeira hora e com certeza sua atividade foi muito além da difusão, cumprindo ainda o papel de trabalhar em prol da memória fotográfica paulista e nacional, histórica e contemporânea, atuando qualitativamente e se destacando na cena cultural. Todas as diferentes possibilidades do fazer fotográfico foram aqui contempladas: fotografia autoral, fotografia documental, fotojornalismo, fotografia publicitária e a história da fotografia.

Vamos lembrar algumas exposições para contextualizar a importância da fotografia na programação do museu. No plano internacional, tivemos a exposição Agfa-Historama, em 1981; de Alfred Eisenstaedt, Herbert Lizt, August Sander, Paolo Gasparini, coletiva de fotógrafos cubanos; do mestre mexicano Manuel Alvarez Bravo (1990); a celebração dos 100 anos da revista com National Geographic Society: um século de fotografia (1992); dos clássicos Henri-Cartier Bresson e Jacques-Henri Lartigue; do alemão Wim Wenders (1997); do suíço Luc Chessex (2000). O MIS também foi pioneiro na década de 1980 ao receber a mostra italiana Antropologia Visual: a fotografia, que trouxe a questão da etnofotografia, gênero até então de pouca relevância fora do meios acadêmicos.

Um destaque inesquecível foi a exposição TriLuz – Hologramas, a primeira exposição do gênero no país que reforçou o MIS como um centro irradiador de novas tecnologias. O projeto Fotografia de Autor foi outra interessante iniciativa do museu organizada por Eduardo Castanho, entre 1989 e a primeira metade da década de 1990. Este projeto, em particular, além de gerar dezenas de exposições individuais e algumas coletivas com fotógrafos hoje consagrados, centralizou no museu as principais discussões sobre a fotografia enquanto possibilidade de expressão pessoal e manifestação artística, e o tornou referência para a fotografia criativa brasileira.

Nesse período, o MIS também abrigou as exposições coletivas do Núcleo Permanente de Formação em Linguagem Fotográfica, outra iniciativa de enorme repercussão da Secretaria de Estado da Cultura em parceria com a União dos Fotógrafos de São Paulo. Quase que simultaneamente, realizou as mostras do Prêmio Estímulo de Fotografia, que buscava fomentar a fotografia autoral desenvolvida no estado, através de vários projetos selecionados por uma comissão de especialistas, instituída especialmente para esta finalidade.

Também foi destacado o papel do museu nos eventos (exposições, seminários, palestras, discussões e leituras de portfólio) realizados pelo NAFOTO – Núcleo dos Amigos da Fotografia – que criou e insituiu o Mês Internacional da Fotografia na cidade de São Paulo, em maio de 1993, e promoveu até agora nove edições. Esse breve panorama mostra a importância do museu como fomentador da fotografia e de eventos associados a ela. Sem dúvida, impossível pensar a fotografia contemporânea brasileira sem a intensa participação do Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

André Kertész, Circo, Budapest, 1920

Com as exposições de Andre Kertész, Andy Warhol, Ozualdo Candeias e Claudio Edinger, associadas às iniciativas da Nova Fotografia 2012 – Timeless; Acervo Vivo – Câmeras fotográficas de dois séculos; e do I Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia – Porque pensamos a fotografia?, o museu busca recuperar sua presença na cena fotográfica contemporânea. Essas múltiplas atividades denotam a riqueza cultural da fotografia – seja do ponto de vista técnico, seja do ponto de vista da reflexão, seja do ponto de vista da exibição de artistas consagrados.

Mas o que será que temos em comum nestes trabalhos tão diversos? Muita coisa. Em primeiro lugar, podemos perceber que as fotografias destes artistas buscam a simplicidade em vez do extraordinário; elas trazem o cotidiano, o retrato quase sempre planejado, certa informalidade que renuncia à fotografia instantânea que caracterizou toda uma tradição.

Estes artistas tratam a fotografia com a mesma riqueza conceitual mas, se olharmos para os trabalhos, é possível perceber nitidamente o que realmente os diferencia: o tempo distinto em que foram realizados e os procedimentos técnicos utilizados. É muito interessante percebê-los naquilo que parece essencial, ou seja, os diferentes formatos de suas matrizes e os processos de criação. Nos ensaios apresentados não se nota nada de espetacular ou dramático, mas sim uma desconcertante imagem que provoca e instiga nossa imaginação.

Kertész mostra-se um exímio fotógrafo, que utilizou diferentes formatos em sua produção, mas foi um inovador sofisticado no uso da Leica. Warhol utilizou sua Polaroid como uma extensão de suas vivências, para posteriormente ampliar seus retratos em diferentes formatos e imprimi-los em serigrafias seriadas. Edinger, com sua câmera de grande formato, sabe como articular a báscula e o foco seletivo a fim de registrar uma realidade que produz algum estranhamento na imagem.

A revelação destes procedimentos técnicos ajuda na compreensão dos princípios que balizam os diferentes processos de criação. Diante dessas fotografias, nem sempre é possível desvendar esses segredos, mas aprofundar os conhecimentos na trajetória do artista e contextualizá-los torna-se necessário para fundamentar a análise das imagens. Sem conhecer a história da fotografia, por exemplo, é quase impossível enfrentar este conjunto, pois cada artista se apropria dessa tecnologia de forma singular.

André Kertész, Martinica, 1972

Nas fotografias de Kertész emerge uma geometria precisa e harmoniosa, uma forte espiritualidade, um tratamento de luz delicado. Aliás, essa última variável foi bastante apropriada para multiplicar sua fotografia nas revistas ilustradas das primeiras décadas do século XX, particularmente a revista VU, que ampliou significativamente seu trabalho. Já os retratos de Andy Warhol – conhecido pelo seu papel na introdução de imagens da cultura de consumo e um compulsivo frequentador de acontecimentos sociais e de festas – foram todos produzidos por uma Polaroid, que gera uma imagem única, matriz que desencadeia seu processo criativo que culmina numa pintura ou numa gravura de tiragem múltipla. Seja através do autorretrato, seja através de retratos de celebridades, Warhol sabe como revelar o poderoso efeito que causam as características fisionômicas do retratado no observador.

Andy Warhol, Polaroids

Ozualdo Candeias tornou-se fotógrafo por necessidade, já que o cinema o obrigava a produzir suas fotografias de still. Com isso, tornou-se o fotógrafo que documentou sem grandes pretensões todo o movimento de artistas, diretores e técnicos que frequentavam a Boca do Lixo. Suas fotografias, agora disponibilizadas no espaço de uma grande instalação, são os registros inspiradores daquele momento que se converteram num documento inserido num contexto de elevada importância histórica para o cinema brasileiro.

Claudio Edinger, por sua vez, mostra um ensaio realizado no sertão baiano, De Bom Jesus a Milagres, entre 2005 e 2012. Um belo conjunto de retratos dos personagens que habitam a região, e algumas paisagens e interiores que contextualizam o imaginário do artista. A possibilidade do uso da báscula e a escolha daquilo que se transforma no centro irradiador da imagem nos esclarece quanto ao processo criativo. A complexidade técnica jamais se impõe à imagem, já que Edinger, ao enquadrar sua fotografia, organiza sua sintaxe e se deixa seduzir pelo imprevisto do acaso. Ele mantém o controle de todo o processo, aparentemente ruidoso, a fim de despertar nessa imprecisão a beleza das coisas simples nascida nos breves segundos em que compartilhou com o Outro a emoção do registro.

Claudio Edinger, Andaraí, 2010

As exposições reunidas nessa retomada do MIS, associadas ao núcleo de reflexão que acontece nesta semana, determinarão as próximas etapas que deverão ser assumidas. Sem dúvida, essas atividades são inspiradoras e se incorporam à história do museu. Elas representam uma nova perspectiva de atuação para a instituição e estão em sintonia com outras formas culturais assumidas pela fotografia, que se torna mais relevante como experiência estética quanto mais abdica do seu papel de tradição documental.

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17 a 19/05/12:
– Iº Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia [ver programação]

04/05 a 17/06/12:
– Timeless

04/05 a 24/06/12:
– André Kertész – Uma Vida em Dobro
– Claudio Edinger – De Bom Jesus a Milagres
– Andy Warhol Superfície Polaroides (1969-1986)
– Ozualdo Candeias – Rua do Triumpho

04/05 a 28/10/12:
– Acervo Vivo – Câmeras Fotográficas de Dois Séculos

MIS-SP
Avenida Europa, 158 – Jardim Europa – São Paulo
Fone: (11) 2117-4777

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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