"La cámara oscura", em busca de um olhar que transcende as aparências

[21.fev.2011]

Zapear a TV a cabo é como a rotina de andar no meio da multidão. Depois de um longo percurso, nenhuma marca, nenhuma história pra contar. Até que um dia, quando a gente menos espera,  a gente dobra uma esquina e vê um rosto, uma expressão, um gesto, algo que nos surpreende e que é capaz de produzir uma experiência.  A TV e, claro, também a internet são as metrópoles dos flaneurs preguiçosos.

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Num desses dias de sorte, pulando de canal em canal, dei de cara com um filme chamado A câmera escura. Opa! Bom motivo pra largar o controle remoto. Filme argentino recente (La camara oscura, 2008), escrito e dirigido pela desconhecida Maria Victoria Menis, traz uma produção simples, uma história delicada e, como o título promete, uma presença forte da fotografia.

Uma família judia aporta na Argentina fugindo da perseguição dos pogroms na Rússia, no final do século XIX. A mulher, que chegou grávida ao país, dá a luz ainda na rampa do navio a Gertrudis, uma menina que dizem ser muito feia. A fotografia aparece em alguns momentos de sua vida mas, sabendo-se feia, ela trata de sempre esconder o rosto.

Mesmo crescendo solitária e introspectiva, ela se casa e tem filhos com um colono, que a escolhe como esposa por uma razão inusitada (que não vou contar). Sua família ocupa bem o seu tempo, mas não consegue livrá-la da solidão. Certo dia, um retratista francês aparece no vilarejo e é contratado para passar alguns dias na fazenda, fotografando a família e o local. O fotógrafo, como ele mesmo explica, viveu experiências trágicas mas aprendeu com o surrealismo a buscar uma dimensão mais profunda e sutil da realidade. E é assim que ele é capaz de ver beleza em Gertrudis que, aos poucos, aprende a encarar a câmera e também a si mesma. Até encontrá-la, o fotógrafo amarga o fato de que, em seu exílio de retratista ambulante, ninguém está preparado para entender suas fotografias experimentais.

Não é um filme difícil, intelectualizado, mas é silencioso, contemplativo e alguns fatos são mais intuídos do que vistos. Exige-se do nosso olhar a mesma capacidade imaginativa que o fotógrafo reivindica.

Em dois momentos, sem maiores explicações, a diretora pede licença para passear por imagens completamente descoladas da narrativa. Primeiro, uma animação que traduz o universo introspectivo da pequena Gertrudis. Depois, num devaneio do fotógrafo, uma série de imagens experimentais que associam elementos do filme com o cinema e a fotografia das vanguardas.

De quebra, o filme dá forma a situações que hoje só conseguimos imaginar a partir dos relatos históricos. Os fotógrafos europeus que tentavam a vida na América e perambulavam pelas pequenas cidades e fazendas, famílias de origem humilde que buscam no retrato uma confirmação de sua recente prosperidade, os “caixotes” que começam a conviver com as primeiras câmeras de pequeno formato, laboratórios improvisados em celeiros. Também vemos ali, didaticamente, como se pode construir um mundo com a fotomontágem, e como funciona uma camara obscura, que no filme se forma acidentalmente, de um modo mais poético do que convincente.

Infelizmente, não é fácil encontrar o filme. Passou muito rápido pela programação de um canal pouco interessante da TV a cabo, não me lembro de ter entrado em cartaz, e não está disponível em DVD nem mesmo na Argentina.

Quem sabe, com um pouco de paciência, conseguimos garimpar e rencontrar em meio à multidão aquele rosto que gostaríamos de olhar mais detidamente.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

4 Respostas

  1. …que beleza!!!

    …vou garimpar…

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  3. Parabensss realmente o filme e lindo eu gravei …E ddei de presente pra um amigo fotografo abracos

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