Kurt Klagsbrunn, fotógrafo

[26.fev.2013]

Há uma zona de sombra na história da fotografia brasileira. Ela se estende desde a segunda década do século XX até os anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Uma lacuna que só recentemente começa a ser preenchida com algumas pesquisas acadêmicas, uns poucos livros e a recuperação e organização de escassos acervos. Um esquecimento que corresponde a toda uma geração de fotógrafos, oriundos da Europa Central, que vêm dar ao Brasil na condição de refugiados ou imigrantes que procuram escapar da crise econômica e da perseguição política ou racial.

Os fotógrafos que protagonizaram este capítulo esquecido nunca formaram um movimento. Espalharam-se pelo país, trabalhando como autônomos, abrindo seus próprios estúdios ou prestando serviços a órgãos públicos. Ao contrário de franceses como Jean Manzon, Marcel Gautherot e Pierre Verger, cuja integração e o reconhecimento veio mais cedo, a grande maioria destes alemães, austríacos, húngaros e lituanos permanece praticamente ignorada. E sua obra, mais ainda. Nos últimos dez meses estive trabalhando com minha amiga e parceira Márcia Mello no arquivo de um dos membros mais brilhantes desta geração, o fotógrafo austríaco Kurt Klagsbrunn (1918-2005). Autor de uma obra monumental em todos os campos da atividade fotográfica (seu acervo tem mais 120 mil documentos, entre imagens – negativos e positivos –, manuscritos e impressos), jamais teve seu trabalho apresentado em livro.

Kurt Klagsbrunn. Lambe-Lambes em ação na Praça D. Vital, em Recife, 1949.

Kurt Klagsbrunn. Lambe-Lambes em ação na Praça D. Vital, em Recife, 1949.

 

Kurt Klagsbrunn. Chapelaria dos convidados para a festa de casamento de Filomena Matarazzo, na mansão da família, na Avenida Paulista.

Kurt Klagsbrunn. Chapelaria dos convidados para a festa de casamento de Filomena Matarazzo, na mansão da família, na Avenida Paulista.

Kurt nasceu em Viena, em uma família judia de classe média. Seu pai, Leopold, era químico, dono de um negócio de processamento e comércio de carvão. Poucos meses depois de iniciar seus estudos na faculdade de medicina, a Áustria é anexada pela Alemanha nazista. A família Kalgsbrunn está entre aquelas que conseguem escapar. Em março de 1939 desembarcam no Brasil – país que lhes deu abrigo – mas o jovem não pode mais retomar os estudos.  Vai então dedicar-se à fotografia, sua paixão de adolescente. As câmeras fotográficas da família haviam sido confiscadas, mas Kurt, então com 20 anos, trouxe na bagagem um manual de fotografia, editado naquele mesmo ano em Harzburg, na Alemanha, Die Neue Foto-Schule (a “nova escola fotográfica”), duas câmeras (uma Super-Baldina e uma Leica, provavelmente adquirida no mercado negro), e o olhar educado na “nova visão” do modernismo europeu.

A primeira visão da Baía de Guanabara, com o Pão de Açúcar projetando-se sobre o mar, nunca será esquecida. Neste mesmo dia, escreve em alemão, na agenda: “primeiro banho de mar”. A Praia Vermelha se tornará uma de suas locações favoritas – é lá que fotografa, por exemplo, a Miss Brasil de 1949.

Nos primeiros anos, o laboratório e o estúdio improvisados funcionam na casa da família, em Laranjeiras. Mas dois anos depois, sua carreira começa a decolar. Faz publicidade, lançando produtos como Gillete e Coca-cola e, no final do ano começa a trabalhar como correspondente do grupo Time-Life no Brasil. Esse vínculo dá ao fotógrafo oportunidade de cobrir os bastidores da política e permite que viaje para todos os cantos do Brasil, pautado pelas revistas norte-americanas. E como trabalhou também para a Revista Sombra, considerada a mais chique da imprensa brasileira, seus retratos da vida íntima das celebridades e das festas de gala das elites cariocas e paulistas são primorosos.

Porém, de todo o material produzido por Kurt Klagsbrunn, nos primeiros anos de sua carreira, o mais raro diz respeito às atividades do movimento estudantil. Engajado na luta anti-fascista, Kurt trabalha seguidamente para a União Nacional dos Estudantes. Percorrendo seu arquivo, podemos observar as manifestações organizadas pelos estudantes em prol da entrada do Brasil na guerra e em apoio aos pracinhas brasileiros. Permaneceu ao lado dos estudantes nos movimentos pela redemocratização do Brasil (as manifestações pela Anistia e pela Constituinte em 1945), produzindo em virtude disso um registro histórico valioso.

O livro que organizamos cobre apenas as atividades de Kurt na década de 1940 e culmina com uma reportagem sobre a Copa de 1950, que ele cobriu para a Life, de dentro do gramado do Maracanã.  Além do valor documental e artístico destas imagens – quase 300, selecionadas entre as dez mil que produziu no período –, elas guardam o frescor da descoberta do Brasil por um jovem fotógrafo europeu. Testemunham ainda o processo pelo qual imigrantes que foram obrigados a abandonar tudo o que tinham em seus países de origem, encontram os meios para reconstruir seus laços afetivos e profissionais na terra que lhes serviu de refúgio.

O livro Refúgio do Olhar; a fotografia de Kurt Klagsbrunn no Brasil dos anos 1940, editado pela Casa da Palavra, vai ser lançado no Rio de Janeiro no dia 11/03, na Livraria Travessa do Shopping Leblon. Em São Paulo, o lançamento será em abril (divulgaremos o local). O acervo de Kurt Klagsbrunn está sob a guarda de Victor e Marta Klagsbrunn, sobrinho do fotógrafo e sua esposa, que coordenam um projeto de proteção e difusão de sua obra. Sem o empenho e a confiança deles, este livro não teria sido possível.

Kurt Klagsbrunn. Evita Perón toma café com o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Kurt Klagsbrunn. Juan Bramuglia durante a Conferência Interamericana de 1947, no Hotel Quitandinha (Petrópolis-RJ), em 1947.

Kurt Klagsbrunn. Evita Perón toma café com o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Kurt Klagsbrunn. Juan Bramuglia durante a Conferência Interamericana de 1947, no Hotel Quitandinha (Petrópolis-RJ), em 1947.

Kurt Klagsbrunn. A goiana Jussara marques, Miss Brasil 1949.

Kurt Klagsbrunn. A goiana Jussara marques, Miss Brasil 1949.

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Historiador, roteirista, pesquisador, doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da ECO-UFRJ.

8 Respostas

  1. Maravilhosa matéria, aguardarei ansiosamente pelo lançamento do livro em SP. Estudo história da fotografia há cerca de um ano, estou atrás de objeto de pesquisa, parece que em todas as direções que vou esbarro em trabalhos já realizados, coelações já vistas exaustivamente… seria uma oportunidade tomar contato com acervos desse tipo, há caminhos possíveis para um TCC de uma estudante de História?

  2. oi,
    Jéssica. O lançamento em SP deve ser no dia 04/04, mas ainda não está confirmado. Na minha opinião, existem muitos caminhos, e muita coisa não vista – e para ser (re)vista. Aí, em SP., não saberia dizer, mas a fotogafia da primeira metade do século XX, no Brasil, é muito menos estudada que a do XIX. E, às vezes, não é o arquivo, mas o olhar do pesquisador que renova as imagens. Quanto ao Kurt, a distância dificultaria sua pesquisa porque o arquivo está fora da Rio (capital). Era essa sua pergunta?

  3. Alô Maurício,tudo bem? Conhecemo-nos no curso que você deu no Ateliê do Eder Chiodetto, em São Paulo, em 2012. Em São Paulo,sobre o período apontado, há pesquisas sobre Hans Gunther Flieg,artigos e TCCs sobre Theodor Preising e Habercorn. Meu Pós-doc, é sobre Alice Brill e Hildegard Rosenthal, com um olhar da antropologia visual,na ECA/USP. Abraços,Yara

  4. oi, Yara,
    Que bom ouvir de voce. Um dia vamos ter que juntar estas pesquisas todas para fazer uma revisão desta geração, não é? E, aproveitando a ocasião, anunciei que o lançamento em SP ia ser 4/4, mas não vai ser mais. Está adiado. Talvez para maio. O do Rio também. Agora, só anuncio quando tiver certeza absoluta.
    abraço,

    mauricio

  5. Oi Mauricio,
    Vendo a matéria sobre o livro do Kurt Klagsbrunn na veja de hoje 24/03/2013, minha sogra, Germana Lage Marinho Nunes, se achou em uma das fotos que ilustram a reportagem. A foto é a de três meninas num veleiro na baia de guanabara. Gostaríamos de ser avisados do lançamento aqui no Rio.
    Obrigado
    Sergio Weinman

  6. Sérgio,

    Legal! Olha, os lançamentos atrasaram um pouco. Creio que só devem acontecer em maio.E aviso aqui, mas vc podia me mandar um e-mail diretamente para conversarmos sobre esta foto. Sua sogra certamente sabe quem são as outras pessoas também. Manda um e-mail diretamente pra mim com o seu contato.

  7. Oi Maurício, não tinha visto que você respondeu. Vou ficar de olho agora nesse post para saber o dia do lançamento. Se puder me enviar um email avisando, agradeço: jessicacarvalhoacp@yahoo.com.br

    Isso que você disse sobre pensar essa geração, concordo muito, estou em busca de entender esses olhares dos trabalhos sabe…

    Enfim, este blog contribuí muitíssimo para minhas reflexões, só tenho a agradecer!

  8. Olá Maurício, gostei muito deste artigo e de conhecer a história algumas imagens deste fotógrafo.Quem me indicou este artigo foi a Jessica Carvalho, aqui acima!Por que estou editando um material sobre comportamento desta fase temporal no Brasil,para ilustrar um livro que trata deste assunto e gostaria de ter acesso ao arquivo. Eu consigo um contato da Marta e do Victor para checar a possibilidade de cessão de uso de imagem? Grata,
    Goya Cruz

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