Jogo dos sete erros

[12.dez.2011]

Alexander Kluge (esq.) e Arlindo Machado (dir.)

Eu procurava na internet informações sobre alguns textos, quando encontrei um blog – sem atualizações e provavelmente não oficial – de divulgação do livro de Arlindo Machado, “O sujeito na tela” (2007). Estranhei o retrato publicado ao lado de sua biografia. Mas a idade faz essas coisas: de um lado, enfraquece nossas lembranças e, de outro, muda a aparência das pessoas. Quase assimilei sua nova fisionomia. Depois, descobri que se tratava do crítico e cineasta alemão Alexander Kluge, que Machado conhece bem e sobre quem já escreveu. Além de alguma semelhança, há entre eles outras afinidades que quase autorizam o intercâmbio de retratos.

É uma grande ironia: Arlindo Machado, justo ele que dedicou sua vida à compreensão da imagem, se vê agora traído por ela? Mas, como teórico, Machado tem exatamente convidado a duvidar das certezas trazidas pela fotografia. Então, talvez não seja uma traição. Ao contrário, tendo se tornado íntima de seu crítico, parece apenas que a imagem se dispôs a corroborar com sua tese, mas não sem antes pregar-lhe uma peça.

A questão aqui não é tanto o erro, cisa que deve acontecer todos os dias, mas a incapacidade de distinguir diferenças quando as informações se tornam disponíveis em abundância. A intensa circulação de imagens traz a promessa de que a memória pode ser integralmente preservada, de que as histórias podem ser bem contadas, de que as ideias podem ser bem demonstradas. Mas uma tarefa dessa magnitude já não cabe ao olhar, é preciso confiar nos sistemas que cercam, indexam e organizam essas imagens. Quando esse sistema deixa lacunas, não é simples para o olhar ter de reassumir a tarefa de verificá-las. Portanto, não é o erro que preocupa – uma imagem ou uma legenda trocada –, mas o olhar modo como o olhar se torna inerte, por exemplo, diante de uma extensa página de resultados de um banco de imagens.

Bruno, da seleção de Handebol (esq.), e Bruno, ex-goleiro do Flamengo (dir.)

Há uma infinidade de casos semelhantes, alguns curiosos, outros trágicos. Em 2010, o site 48 Hours Mystery, da emissora norte-americana CBS, divulgou uma foto do jogador Bruno Souza, da seleção brasileira de handebol, numa reportagem sobre o ex-goleiro do Flamengo, também Bruno Souza, acusado de participar do assassinato de sua amante. Se a semelhança não é tão grande, deve-se dar os devidos descontos à CBS: além de serem homônimos, devia parecer óbvio que, no país do futebol, quem joga bola com a mão só pode ser goleiro.

Imagem divulgada no banner (esq.) e Mario de Andrade (dir.)

Em 2007, o governo estadual de São Paulo celebrou o dia da consciência negra com banners que mostravam grandes personalidades brasileiras cuja ascendência negra era pouco conhecida. Muita gente estranhou o retrato identificado como sendo do jovem Mario de Andrade. Segundo a coluna de Mônica Bérgamo, da Folha de S. Paulo, antes da campanha ficar pronta, Augusto Calil, secretário municipal da cultura, consultou intelectuais que conviveram com o poeta, e que foram categóricos em afirmar o equívoco. Calil alertou o secretário estadual da Cultura, João Sayad, mas, mesmo assim, a imagem foi para as ruas.

Jean Charles (esq.) e Hussain Osman (dir.)

Quando a incerteza das imagens é atravessada pela paranóia e pela intolerância, o resultado pode ser trágico. É o que aconteceu em 2005 com Jean Charles, brasileiro que vivia em Londres e que foi confundido  com Hussain Osman, suspeito de participar de ataques terroristas que ocorreram no metrô nos dias anteriores. Jean Charles morreu com oito tiros disparados pela Scottland Yard  dentro do metrô de Londres.

Em seu clássico “A Ilusão Especular”, Arlindo Machado diz: “as imagens fotográficas que se proliferam na grande imprensa, mesmo quando focalizam distúrbios e hecatombes, trazem sempre consigo essa marca de segurança e conforto, sem a qual a comunidade dos leitores médios entraria em pane: afinal, se um fotógrafo da UPI pode furar o cerco inimigo e capturar o referente, por que um fuzileiro americano não poderia fazê-lo? Até o limite em que a segurança das instituições não está em jogo, a classe dominante tira fotos: ultrapassando o limite, ela atira fogos”. Valeria acrescentar: cientes da imprecisão das fotografias, constatamos também a imprecisão dos aparelhos que definem um alvo, o que significa que podemos ser confundidos com o inimigo.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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