João Castilho é mestre

[25.jan.2011]

Em dezembro de 2010, eu postei no Twitter: “João Castilho é mestre”. Várias pessoas concordaram e algumas acrescentaram outros adjetivos. Os elogios eram merecidos, Castilho já demonstrou seu talento como artista, mas minha afirmação era um pouco mais literal. Eu tinha acabado de participar de sua banca de mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais, onde ele apresentou a dissertação “A fotografia entrópica de Robert Smithson”.

Não é tão óbvio encontrar um artista com vocação e disposição para a pesquisa acadêmica. Ainda vemos bons programas de pós-graduação acolhendo artistas que não vêem nenhuma distinção entre a universidade e o ateliê, e que acabam por eleger a si mesmos como tema, justificativa e método de toda a pesquisa.

Castilho bem que poderia, mas em seu mestrado não quis se deter em sua produção. Não precisaria, mas optou por debater um tema delicado e ainda mal assentado na história: a produção fotográfica pouco conhecida de Smithson, artista norte-americano consagrado por suas intervenções em espaços naturais e urbanos, e que morreu aos 35 naos de idade, no auge de sua carreira. Para nós, é um tema pouco confortável porque em seus trabalhos mais conhecidos – como o Spiral Jetty – a fotografia parece ser um mero registro de suas ações.

Spiral Jetty (1970), intervenção de R. Smithson em Salt Lake, no est

R. Smithson, Spiral Jetty (1970).

Pode nos parecer pouco, mas esse representa um momento importante de afirmação do diálogo entre a fotografia e as outras linguagens que, nessas últimas décadas, passaram a conviver indistintamente dentro dentro dos espaços dedicados à arte. Como diz João Castilho:

“Smithson se opôs, sistematicamente, à ordem estabelecida da arte modernista e a todas as ortodoxias. Tinha como objetivo claro expandir o campo de sua atuação e implodir as fronteiras das diversas categorias de arte e dos limites de suas instituições. Nada mais natural que começasse a usar a máquina fotográfica.

Esse projeto de renovação artística implicava, em um primeiro momento, um rompimento com a prática dos cânones da fotografia da época, e, depois, a convivência da fotografia com todos os outros meios disponíveis aos artistas daquele período. A fotografia deveria conviver com as outras formas artísticas, sem hierarquização”.

De um lado, a pesquisa não se limita às obras mais conhecidas de Smithson. De outro, tenta demonstrar que a fotografia não era para ele assim tão assessória quanto pensamos. Para isso, Castilho mergulha em relatos biográficos e depoimentos deixados pelo artista, recorrendo a uma bibliográfia quase desconhecida no Brasil. Foi uma surpresa descobrir como Smithson falava com profundidade sobre seu tempo e sua arte. E, mesmo que tenha optado por usar sempre uma câmera amadora (uma Instamatic 400), não deixou de pensar com propriedade sobre o sentido histórico e cultural do meio a que recorria.

R. Smithson, Photo-Markers, 1968.

R. Smithson, Photo-Markers, 1968.

A estrutura da dissertação de Castilho é simples: começa com uma contextualização ampla da produção do artista e termina com uma análise em profundidade de algumas obras escolhidas. No meio disso, foi preciso abordar um conceito tão difícil quanto importante, entropia, que Smithson toma emprestado da física moderna para criar uma chave crítica que permite pensar muitas das transformações vividas pelo século XX. É difícil e distante do nosso vocabulário, mas vale deixar um parágrafo sobre o tema.

A primeira lei da termodinâmica diz que a energia não se perde, se transforma. No entanto, a segunda lei diz que o aproveitamento dessa energia depende de uma ordem que tende a se desfazer contínua e irreversivelmente, conduzindo à sua “morte térmica” do sistema em questão.  Esse acréscimo de desordem equivale ao aumento de entropia. Por exemplo, quando se coloca em contato porções de água quente e de água fria, a distinção de temperatura cria um fluxo ordenado de moléculas que permite explorar a energia desse sistema. Ele se tornará “morto”, atingirá seu grau máximo de entropia quando esse contato resultar irreversivelmente em uma única porção de agua morna. A desordem medida pela entropia tem a ver com um estado de indistinção de formas e de fluxos, de nivelamento, de esgotamento, de degradação, de incapacidade de produção de estímulos, tendência espontânea da natureza contra a qual o ser humano, com sua força construtiva, acreditou poder lutar.

Smithson constata, no entanto, o fracasso desse esforço. Isso podia ser visto em Passaic, sua cidade natal no estado de Nova Jersey, que era naquele momento uma espécie de grande ruína gerada pelo próprio esforço organizador do progresso. Ele reencontrou ali uma paisagem em que tudo remetia à noção de entropia, e realizou um importante trabalho que envolveu mapas, fotos e textos, resultados que ele chamou de “monumentos”, como explica Castilho:

“Os monumentos de Passaic parecem, inicialmente, não ser monumentos. Onde já se viu tubos, canos, pontes, parquinhos serem monumentos? O que teriam essas construções a ver com com as gloriosas edificações em homenagem a tempos gloriosos? Os monumentos de Passaic estão todos vazios, esvaziados de toda memória. Nenhuma presença humana, nenhuma referência histórica. Em Passaic, a ordem e a irracionalidade da sociedade industrial fracassaram no caos e na catástrofe. As estruturas sucumbiram na desintegração. Estes seriam, então, monumentos erigidos à entropia”.

R. Smithson, Monumentos de Passaic, 1967.

R. Smithson, Monumentos de Passaic, 1967.

Em sua conclusão, de modo muito discreto, Castilho introduz seu próprio trabalho para mostrar algumas afinidades que descobriu e cultivou com Smithson. Antes mesmo de definir o tema de sua pesquisa, Castilho havia começado a série denominada Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína, de 2007, título que também aponta para a idéia de um esgotamento precoce das paisagens.

João Castilho, Aqui tudo parece que ainda é cosntrução mas já é ruína, 2007

João Castilho, Aqui tudo parece que ainda é cosntrução mas já é ruína, 2007

Smithson parece ter oferecido a Castilho uma linha de pensamento crítico que deu ainda mais consistência ao seu trabalho. O debate em torno do conceito de entropia se tornou nítido em suas obras posteriores, como no vídeo Abalo, de 2010, e nas imagens que compõe seu mais recente livro, Peso Morto, também de 2010, realizado em parceria com escritores convidados.

João Castilho, Abalo, 2010

A identificação entre Castilho e Smithson não se resume ao tema “entropia”. Temos nessa pesquisa o feliz encontro de dois jovens artistas de gerações e lugares distintos, que se destacam não só por suas produções plásticas mas também pela densidade de suas reflexões.

Além de oferecer uma escrita clara, sem maneirismos, Castilho fez ainda uma apresentação muito tranquila e segura para a banca, composta pela orientadora da pesquisa, Maria Angélica Melendi (UFMG), Eduardo de Jesus (PUC-MG) e eu. Todos destacaram o ineditismo da pesquisa e recomendaram que o trabalho fosse publicado. Vamos torcer para que isso aconteça logo.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

6 Respostas

  1. Bárbaro, vou procurar a dissertação e ler. Valeu pelo post. Também acho o Smithson maravilhoso, quero conhecer Castilho, me perdoe se ainda não o conheço…

  2. Que notícia boa, parabéns ao mestre (em todos os sentidos)!
    Admiro muito o trabalho de Castilho e estou ansiosa por ler sua dissertação e o livro, inclusive, como fazer para ter acesso a ambos?

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  4. Delicia de noticia. Mesmo sendo leitora do blog, só hj li este texto através de um levantamento do referencias sobre o Smithson. Adorei saber que um artista como o Castilho resolveu pensar a fotografia num período ‘chave’ da arte contemporânea. Vou procurar ler a dissertação. Bacana teu relato, Ronaldo!

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