Invisibilidades, recalques e revelações

[29.ago.2010]

Na semana passada, tivemos no Senac Consolação o evento Estética do (In)visível, com a presença de Evgen Bavcar. Ele realizou uma palestra e integrou a exposição do projeto Alfabetização Visual, coordenado por João Kulcsár, que envolve deficientes visuais num trabalho de arte-educação com fotografia. Participei também da programação num debate com Fernando Fogliano. A provocação era falar do “invisível na fotografia”,  aí vai (mais ou menos) o que foi a minha fala.

João Maia, Passado e Presente

João Maia, Passado e Presente


O acaso como espaço de descoberta de um olhar descentralizado

A fotografia está marcada por um potencial com o qual sua própria história lida um tanto mal: aperta-se um botão e uma imagem simplesmente “acontece”. Isso parece fazer da fotografia uma arte menor. Se eventualmente uma “a imagem acontece” é exatamente por sua complexidade: além das intenções de um indivíduo, um universo de outras determinações participam dessa experiência. Mas é difícil enxergá-las, porque foram recalcadas pelo desejo de afirmar na fotografia uma noção um tanto egocêntrica de autoria. Como isso ocorreu?

A primeira propaganda da fotografia, de fato, abusou ao prometer uma imagem feita exclusivamente pela natureza. Aqui, o próprio ser humano se tornou um aspecto invisível da técnica. Para compensar o estrago feito por esse discurso, partimos para um caminho radicalmente oposto: tentamos afirmar a total submissão da imagem à autoridade do olhar. Quando reivindicamos essa autoridade para o indivíduo, tornamos invisíveis os movimentos da natureza e o pensamento da coletividade que participam da técnica.

Não comecei a pensar sobre isso por causa de fotografias feitas por cegos, mas por causa de algumas imagens minhas. Muitas vezes me perguntavam sobre a razão que guiava algumas decisões no momento da tomada, e eu simplesmente não tinha o que dizer. Meu problema não era então a cegueira, mas a mudez que eu assumia diante dessas perguntas. Isso virou o meu mestrado, “A fotografia e o acaso”. E o que chamo de acaso é o próprio universo de determinações que cruzam as decisões de qualquer artista, situação particularmente desconfortável no caso da fotografia, por conta de seus traumas históricos.

Vale pontuar alguns desses aspectos recalcados na fotografia:

A natureza: por arrogância, definimos a técnica como submissão da natureza, cujas forças seriam colocadas a serviço do homem. Apesar dos riscos assumidos pelos primeiros discursos sobre a fotografia, a natureza ainda têm seu papel na construção da imagem. A fotografia não é feita apesar das propriedades dos materiais (da luz, da lente, da prata ou das células sensíveis…). A fotografia é feita com eles. Nenhuma matéria é neutra ou amorfa. Em qualquer arte, a pesquisa de materiais envolve uma espécie de jogo de perguntas e respostas feito com a natureza, para descobrir o que é possível inventar por meio das qualidades que ela nos empresta.

O mundo diante da câmera: mesmo para a mais construída das fotografias, o mundo que se coloca diante da câmera também não uma massa disforme que aguarda a manipulação do artista para ganhar algum sentido. Em particular, a fotografia lida com coisas que, antes da tomada, tem seu próprios movimentos e suas histórias, além daquelas que a fotografia lhes acrescenta. Nesse sentido, o fotografo é uma espécie de bricoleur que faz convergir sua intenção com intenções preexistentes, que se apropria em seu discurso de sentidos já construídos no mundo.

A cultura: a forma e o modo de funcionamento de um objeto técnico (seja a câmera, o pincel, o arco e flecha) são moldados por expectativas e gestos dados ao longo de toda uma história. Se, quando apertamos o botão, uma imagem acontece é exatamente porque as possibilidades do aparelho foram orientadas para a produção dessa ordem. Nesse sentido, por mais que a decisão final pertença a um indivíduo, a coletividade sempre fala através de seu gesto. Curioso o tom de denúncia que assumimos quando se trata de lembrar que a fotografia é culturalmente codificada, como se fosse possível uma arte livre de parâmetros.

Particularmente, a obra de Bavcar ainda faz pensar em outras determinações que participam da fotografia:

O corpo: em grego, aesthesis diz é conhecimento permitido pelos sentidos do corpo, qualquer um deles, ou todos eles. A primazia do olhar, sentido que melhor responde à nosso desejo de racionalização, parece almejar uma anestesia (anulação da aesthesis) dos outros sentidos. Mesmo a pintura pode ser pensada como uma arte mais que visual (W. Mitchell: No existen médios visuales). A action painting sublinhou o caráter tátil e performático que toda pintura talvez tenha; Duchamp rompeu com uma tradição da arte que chamou de olfativa (pelo cheiro da terebentina que os pintores usam). Parte desse dialogo que um autor tem com os materiais, com a cultura, com o mundo é mediado por sentidos que um pouco arbitrariamente são resumidos sob o nome de olhar (o que Bavcar chamou de oculocentrismo).

A vida própria das imagens: assim como o mundo diante da câmera tem uma história, a imagem que ela produz terá a sua. Se um artista dominasse totalmente sua imagem, uma vez pronta, ele não precisaria retornar a ela. Incomoda pensar como um fotografo cego vê suas imagens? Podemos inverter o problema:  será que algum artista viu um dia a totalidade de suas imagens? Uma obra sempre estará em dialogo com outros tantos discursos que a envolvem. É só por isso que uma imagem ainda pode provocar surpresa, mesmo quando já foi vista tantas vezes, mesmo para aquele que a produziu.

Quando se trata de pensar a fotografia feita por um cego, algumas questões são recorrentes: como ele pode ter o controle sobre a imagem que produz? Mais ainda, como ele pode checar se a imagem produzida coincide com suas intuições? Em sua fala, Bavcar deixou claro que seu trabalho é mais o exercício de uma descoberta do que de uma certeza. E quando perguntado se a imagem que lhe descreviam coincidia com a que ele havia imaginado, a resposta foi curta:  jamais! É uma questão menor saber como um cego pode alcançar em seu trabalho o mesmo nível de controle que tem um fotografo vidente. A grande questão é como qualquer fotografo tem aí uma oportunidade de reaprender algo sobre as tantas determinações que são recalcadas pelo pretenso controle sobre suas imagens.

Evgen Bavcar, Imagem Quebrada.

Evgen Bavcar, Imagem Quebrada.

***

Para quem ainda não passou por lá, sugiro uma visita ao Dobras Visuais, onde Lívia Aquino traz também uma reflexão sobre o trabalho de Bavcar.

No blog do Fórum Latinoamericano de Fotografia, comentamos TCC da mexicana Carolina Sepúlveda, que discute a fotografia feita por deficientes visuais.

A exposição “Estética do (in)visível” segue até o dia 17/09/10, no Senac Lapa-Scipião (R. Scipião, 67 – Lapa).

Tags: , , ,

jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

1 Resposta

  1. Trabalho há cinco anos com jovens surdos, buscando aproximar os mundos de surdos e ouvintes através da fotografia. A comunicação e expressão é a principal barreira entre esses dois mundos e a fotografia pode desempenhar um papel “neutro”: surdos e ouvintes podem usufruir de imagens de maneiras parecidas (ou onde as barreiras linguísticas sejam equilibradas).

    Mas tive algumas experiências com cegos envolvendo fotografia. Numa delas, um cego com quem conversava, me pediu a câmera, fez minha foto e perguntou como ficou. No momento fiquei um tanto desterritorializado ao tentar descrever o resultado, uma vez que os caminhos eram todos visuais. Falar de enquadramento? De luz? De foco? (ao mesmo tempo, a audiodescrição – técnica de tradução de imagens em palavras – prega a não interpretação de sentimentos)

    Durante muito tempo, por mais que curtisse a possibilidade de cegos fotografarem (ou surdos tocarem instrumentos), sempre me perguntava o quanto seria ruim a pessoa não ter acesso ao resultado de seu trabalho. Não entendia bem isso, achava um tanto cruel, não sei.

    Hoje penso que o ciclo fecha entre a imaginação e a imaginação. Uma que vem antes da foto e outra depois.

Deixe uma resposta para Eduardo Queiroga Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reload Image

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.