Inhotim: espaço e experiência

[21.mar.2011]

Neste carnaval, fui conhecer Inhotim. Eu sabia que encontraria obras importantes de grandes artistas, algumas delas já vistas em outras montagens. A surpresa não é a qualidade das obras, mas a experiência.

Ali circulam artistas, críticos, estudantes, turistas, gente perdida, de tudo um pouco. Vez ou outra, uns estranham os comportamentos dos outros, mas o espaço é capaz de satisfazer igualmente a todos.

Inhotim: GoogleMaps

Assimilamos a ideia de que a arte é uma atividade dotada de autonomia, que se justifica por si mesma. Mas a defesa dessa especificidade tem como efeito colateral um distanciamento entre arte e vida cotidiana. Os estudiosos vêem na arte um objeto que exige uma forma própria de conhecimento, os amadores, uma atividade que exige um tanto de solenidade. Uns como outros sempre chegam armados diante das obras, os primeiros com seus métodos, os segundos, com certa mistificação. São igualmente duas formas de preconceito.

Para quem tem boa-vontade, Inhotim oferece a oportunidade rara de se desarmar. Antes e além das obras, encontramos a paisagem, os jardins, as edificações. Claro, jardins e edificações que também são obras de arte assinadas por nomes importantes, mas que estão integradas ao espaço, que são o próprio espaço, e não estão separadas dele por uma moldura, por um pedestal. São obras de arte que podem ser vistas enquanto se perambula, que não tem o peso dessa “especificidade” e, portanto, que não ativam de imediato o olhar analítico ou o olhar deslumbrado que se carrega quando se abandona a rotina para entrar num museu.

Inhotim tem o mérito de permitir um pouco de vida em torno das obras, algo que talvez não tenha sido planejado desde o início. Parece ser o desdobramento natural de sua origem: um investidor que gosta de arte, bem assessorado e bem acompanhado por gente que entende do assunto, decide colocar obras consagradas no jardim de casa para deleite próprio e de seus convidados. Não chega a ser uma estratégia curatorial, mas talvez combine os ingredientes necessários para tocar o grande público.

A experiência que produz é o contrário da imersão, que pressupõe abandonar um meio para acomodar-se a outro. As bienais exigem imersão: passa-se dias vendo, pensando, respirando arte. Lá, não. Os mais sistemáticos, que têm em Inhotim muito material para pesquisa, também se perdem um pouco em coisas banais como um recorte da paisagem, a vegetação, os animais, um bom café e, mais cedo ou mais tarde, deixam escapar adjetivos nada especializados. Em contrapartida, os mais perdidos, que tinham Inhotim incluído no pacote, certamente aprendem muita coisa quase sem perceber.

O ambiente que oferece é o oposto do “cubo branco”, ideal de espaço que pretende se neutro em torno da obra. Mesmo quando não se exige, tudo parece ser tratado como “site specific”. O espaço sempre aparece, ou porque foi desenhado para a obra, ou porque a obra foi concebida para aquele lugar, ou porque espaço e obra são indistintos.

A disponibilidade de espaço é tamanha, as galerias são tão generosas que quase despertam certo moralismo: “tanto museu improvisando seus puxadinhos, tanta obra sem um pedaço de parede pra ser pendurada…!”. Mas é interessante perceber como essa amplitude muda nossa relação como a obra: a possibilidade de chegar perto, de se afatar, circular, atravessar a obra; se for o caso, também de olhar para onde a obra não está, vivenciar o ambiente, a arquitetura, para logo depois ser fisgado novamente pela obra. Um exemplo próximo de nós: mesmo que pareça que já vimos o bastante, é incrível entrar literalmente em alguns trabalhos de Miguel Rio Branco.

Galeria Miguel Rio Branco

Pavilhão Miguel Rio Branco

Não devemos tratar essa amplitude luxuosa como um ideal de espaço que deveria substituir o “cubo branco”. Se temos ali um bom laboratório de como a arte pode ser vivenciada por um olhar menos tenso, Inhotim continua sendo um espaço distante, excepcional, nada cotidiano. Fica a experiência, mas resta saber como ela poderia ser construída também em outros centros culturais, nos espaços públicos, nas ruas das cidades.

Dentro e fora das galerias, há uma legião de monitores que integram um belo projeto de formação que inclui muitos moradores da modesta cidade de Brumadinho. Não se pode esperar deles que saibam discutir as obras e os artistas, é natural que precisem de mais tempo. Mesmo assim, é muito bom ouvi-los falar sobre o que aprenderam ali. São algumas falas mais institucionais que incomodam. Quando perguntados sobre a história do lugar, eles têm na ponta da língua um discurso sobre “a doação daquele patrimônio à socieade”. Não que seja fundamental, mas algumas informações sobre as personalidades envolvidas no projeto são tratadas como tabus para eles. Quando provocados, a resposta vem num estilo atendimento ao consumidor: “não tenho essa informação, senhor”. Isso apenas ajuda a alimentar algumas fantasias junto ao público.

Ao lado das obras, sempre encontramos um pequeno texto. Algo necessário, mas é preciso ter cuidado com o que se pode fazer com dois parágrafos. Depois de uma apresentação do artista, um pouco propagandística às vezes, sempre vem uma explicação suscinta sobre a obra. Tentando dar conta do aspecto conceitual da arte contemporânea, esse texto sempre corre o risco de antecipar “o que a obra quer dizer”, impondo um jogo poético de palavras, mas sem necessariamente alcançar uma conexão com o que se vê.

Cildo Meireles, Desvio para o vermelho I, 1967-84 (foto: Pedro Motta)

Cildo Meireles, Desvio para o vermelho, 1967-84 (foto: Pedro Motta)

Em Inhotim, essa coleção formada entre o prazer privado e o conhecimento técnico tem o mérito de resultar num conjunto denso e amigável ao mesmo tempo. Encontramos alguns clássicos da arte contemporânea, obras que podem render um bom papo-cabeça, mas que também enchem os olhos: são plásticas, monumentais, interativas, lúdicas, revelam histórias curiosas em seus materiais, em sua montagem, em seu modo de funcionamento. Não vemos ali uma fração da arte contemporânea que se pretende desmaterialziada, anti-estética, avessa a qualquer forma de contemplação, e que exige mais esforço para fazer sentido. Inhotim não tem nenhuma obrigração de mapear todas possibilidades da arte contemporânea mas, como um próximo desafio, seria interessante testar esse espaço amplo e bem cuidado diante de produções artísticas menos espetaculares e mais arriscadas. Isso significaria dedicar esse investimento não apenas à consagração, mas também à construção de uma arte contemporânea.

Feitas essas ponderações, o que fica é uma experiência incrível. Há boas lições pra se tirar dali. Tem que ir. E como ainda se trata de um espaço em construção, tem que voltar de vez em quando.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

4 Respostas

  1. Excelente texto! Visitei Inhotim e não pensei nas possibilidades que vc aponta aí. O Brasil comporta algumas centenas de espaços como este. “Com suas boas lições para se tirar dali”.
    abs

  2. Ronaldo,
    Excelente texto, me deu vontade de conhecer o local.
    Abraços

  3. Eu divido este mundo em que vivemos em dois: (1) das pessoas que fazem, tendo ou não recursos financeiros para tal; (2) e das pessoas que criticam, que delas não se pode esperar nada, pois não criam, não produzem nada, mas se consideram ou são consideradas intectualizadas, e se forem confrontadas com o ato “vamos fazer”, ai não sai nada, por absoluta falta de competência para fazer.

  4. Sou totalmente contrário à ideia de que “criticar é não saber fazer; é arrogância; pose”. Quem critica, e sabe do que fala, tem conhecimento, só pode contribuir para ampliar e provocar questionamentos. Não me sinto à vontade com o silêncio dos ‘bons’ críticos.

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