Imagens Posteriores: uma viajante atravessada pelo percurso

[25.mar.2013]

Imagens Posteriores, de Patricia Gouvêa, é um livro aparentemente simples: há nele uma temática e uma estratégia que se revelam rapidamente e que atravessam todas as suas páginas. Mesmo assim, permanece difícil nomear aquilo que a artista fotografa, e o modo como fotografa. São viagens, paisagens, borrões, elementos bem situados no repertório da fotografia. Ainda assim, o olhar não se acomoda tão facilmente ao conjunto que encontramos.

Convidado a discutir esse trabalho, pareceu-me necessário repensar os termos a que recorreria. No final das contas, o que deveria ser apenas um ajuste de vocabulário já se tornou um exercício de análise. Minha contribuição foi, então, pensar certas interpretações que essas imagens ultrapassam para localizar o lugar próprio desse trabalho.

Abaixo, reproduzo a apresentação feita lançamento do livro em São Paulo, no dia 27 de março, em debate com Patricia Gouvêa e Pio Figueiroa. A apresentação de Pio Figueiroa está disponível no blog da Cia de Foto. No site da artista é possível ver outras imagens, textos e alguns desdobramentos desse trabalho.

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Patricia Gouvêa, Imagens Posteriores, 2012

A viagem, não o turismo

No turismo, o que se busca – ou se compra – não é um percurso, mas um destino, ou quantos destinos couberem no período delimitado para as férias. Esse tempo deve ser útil, isto é, deve assumir a produtividade como critério para de gestão das tarefas. Possivelmente, uma maneira de minimizar a culpa pelo ócio.

Dentro desse princípio, o trajeto, o tempo entre o ponto de partida e o ponto de chegada deve ser recalcado, tornado inconsciente ou, se possível, também ocupado com atividades. Para garantir tal produtividade, deve-se evitar a surpresa: o roteiro turístico não apenas antecipa os pontos de interesse, como também o significado e a sensação que se obterá em cada parada.

Distante disso, Imagens Posteriores resgata uma noção de viagem que o turismo já não permite compreender. O sentido da viagem está no deslocamento, na construção de uma experiência que ganha espessura com o tempo e com a distância. O que importa na viagem não é a quantidade de fatos e anedotas que se acumula, mas o modo como as imagens exteriores e interiores – aquelas que são vistas e aquelas que são inventadas pela memória e pelo desejo – sobrepõem-se numa única narrativa. De um lado, essa narrativa é formada também de silêncios, de outro, abarca um tempo que se estende para aquém e além do percurso realizado.

A viagem permite e convida a escolhas gratuitas, desprovidas de razão utilitária e, assim, ela se define acima de tudo por uma espécie de poética: ela é um percurso que inventa sua razão de ser a partir de dentro (“um fazer que enquanto faz inventa o modo de fazer que está por feito”, é o modo como Luigi Pareyson define a arte, no livro Os problemas da estética, 2001).

Na viagem, não é apenas o sujeito que se move, ele é também atravessado pelo percurso. Por isso, há surpresa, aventura, porque na medida em que ele avança, as coisas igualmente lhe advém.

Portanto, fotografia de viagem, não fotografia de turismo

Vilém Flusser diz que “as fotografias são realizações de algumas potencialidades pré-inscritas no aparelho” e que “o número de potencialidades é grande, mas limitado” (Filosofia da Caixa Preta). Devemos entender o aparelho num sentido amplo: o universo de códigos definidos pela programação da máquina, mas também pelos rituais sociais (por exemplo, a fotografia turística) e pelas regras de um mercado que viabiliza tais práticas (por exemplo, a indústria do turismo).

Dizer que as imagens já estão pré-inscritas no aparelho equivale a afirmar, em nosso caso, que a fotografia turística já está de algum modo desenhada antes mesmo da viagem. Há algo de tautológico nesse resultado, de autorreferente, pois a foto representaria sobretudo uma categoria forjada por ela própria. A imagem responde menos ao lugar visitado do que a um modelo de representação do turismo que tem, em tal lugar, um de seus meios de afirmação e de expressão.

Em geral, as fotos de um destino turístico se constituem de imagens que já eram previamente conhecidas: aquelas que estavam no guia ou no folheto da agência. Ao confirmar esse discurso, todo turista se torna um preposto da indústria do turismo ou, como disse Flusser, um funcionário do aparelho.

Percebemos neste livro que a fotografia de viagem é, ao contrário, uma descoberta. Não porque mostra necessariamente algo que nunca foi visto. Mas porque o que foi visto foi encontrado independentemente de ser buscado. A singularização da imagem se dá pelo modo como ela absorve os desejos lapidados pelo próprio caminho, e como ela forma a promessa do caminho que está adiante. Isso quer dizer que a imagem representa não uma cena, um fato, um objeto, mas uma experiência que se dá no tempo.

Nesse sentido, enquanto o turista vive o que está entre um ponto turístico e outro apenas como um traçado em seu mapa, o viajante retém a cada momento tudo que puder do caminho percorrido e do caminho sonhado, e faz disso os estratos que compõe sua imagem.

Relato, mais do que paisagem

A paisagem não é a natureza disponível em si, mas os elementos dessa natureza que, já selecionados e combinados pelo olhar, permitem supor a identidade própria de um lugar. A paisagem é, portanto, uma construção, uma composição, é a relação que se impõe aos elementos da natureza por meio da escolha de um ponto de vista, e por meio de um enquadramento (ou uma janela).

Como diz Anne Cauquelin (A invenção da paisagem): na paisagem, a natureza existe para a fruição, ela é um “repouso”. Ou seja, na paisagem, natureza e olhar estão imobilizados pelo tempo necessário à construção.

O procedimento das imagens deste livro guarda mais afinidades com aquele das notas de um diário de viagem do que com a elaboração tradicional de uma paisagem. O diário de viagem é fluidez sobre fluidez, é o decurso da linguagem tentando dar conta do decurso da viagem. É também montagem, fragmento seguido de fragmento: o discurso não pode ser contínuo e totalizante, não se pode olhar o tempo todo para o caderno de notas porque é preciso experimentar a viagem. A viagem não pode ser apreendida continuamente para que não se percam as oportunidades do registro. Porque a narrativa é também parte da experiência e, a imagem, uma das razões que nos lançam numa viagem.

A identidade do lugar de trânsito, mais do que “não-lugares”

O antropólogo Marc Augé construiu a tese de que, dentro do contexto que chama de supermodernidade, a aceleração do tempo e a abundância de fatos com que somos confrontados não permitem a apreensão nem da história nem da identidade dos locais por onde se transita: sem isso, constituem-se o que chamou de não-lugares (Augé, Não-Lugares, 1992).

Os registros trazidos em Imagens Posteriores não se definem por um destino conhecido, não podem ser nomeados, nem situados no mapa. No entanto, não é por isso que suas imagens se reduzem a uma visualidade genérica ou entrópica, sem uma intensidade própria.

Aqui, as imagens reivindicam a possibilidade de produzir um olhar efetivo dentro de um movimento que dissolve o contorno dos objetos, não contra, mas em benefício da construção de formas peculiares. Sem precisar identificá-los, esses lugares de trânsito têm sua singularidade restituída pelas massas e pelas cores que resultam da dissolução de seus elementos. A imagem, quando inviabiliza a identificação pelo nome ou por uma tipologia, encontra um modo de resgatar, mesmo que provisoriamente, a identidade de cada lugar de trânsito.

Marcas afetivas, não marcos de conquista

Não havendo o apontamento de um destino, os percursos que vemos neste livro não resultam na instauração de marcos, isto é, na celebração de uma conquista, de uma apropriação do lugar, como faziam os desbravadores, como querem fazer simbolicamente os turistas.

O livro tampouco pretende mostrar na paisagem os rastros deixados como prova de uma presença. Numa espécie de inversão, quer dar a ver a paisagem que ainda se deixa apreender dentro do rastro. Aqui, a fotografia é ela própria o rastro, e só depois, uma forma apreensível como composição, no sentido que deseja a paisagem.

Quando vemos que as séries são organizadas a partir dos nomes próprios das pessoas que acompanharam a autora nessas viagens, entendemos que as referências que organizam os trajetos – os mapas, os pontos cardeais – não são geográficos, mas afetivos. Nesse sentido, as marcas que se deseja preservar não são aquelas que foram deixadas no chão, mas as que foram deixadas no viajante enquanto ele era atravessado pelo percurso.

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Imagens Posteriores, de Patricia Gouvêa (Rio de Janeiro: Réptil, 2012)

No dia 16/04, às 19h30, o livro será lançado em Brasília, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, com debate de Claudia Linhares Sanz e Susana Dobal. Patricia Gouvêa realizará também intervenções em espaços públicos da cidade a partir das imagens do livro.

Intervenções feitas na cidade do Rio de Janeiro com fotografias de Imagens Posteriores

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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