História da fotografia à maneira de Dan Brown

[27.set.2010]

Três posts abaixo, eu falava da sobrevivência de um “valor de culto” na fotografia, emprestando de Barthes e Didi-Huberman a comparação com o Sudário de Turim, como forma de expressar um aspecto misterioso e sagrado que existe em algumas fotos.

Zapeando a TV dias depois, parei num programa do Discovery Channel que falava extamente sobre o Sudário (na última experiência que tive com esse canal, aprendi muito sobre os possíveis resultados do duelo entre um urso polar e uma morsa). Nesses pseudo-documentários as coisas sempre adquirem um aspecto espetacular, com direito a encenações, simulações, infográficos, demonstrações em laboratório, um narrador com voz dramática, músicas de suspense, e cientistas dando depoimentos do tipo: “eu não podia acreditar no que estava vendo…!” O Sudário, que na mão daqueles pensadores era uma bela metáfora para pensar a fotografia, se torna aqui pretexto para especulações mirabolantes, com ares de teoria conspiratória. Em resumo, a tese deles é a seguinte:

Mesmo sendo evidente que Cristo passou longe daquele tecido, a imagem é feita com um realismo surpreendente e com uma técnica até hoje não desvendada. Aí vem a pergunta: qual gênio teria sido capaz de tal proeza? Quem, senão ele, Leonardo da Vinci! O documentário explica que a falsificação do sudário teria sido uma espécie de jogada de marketing dos Savoy, poderosa família italiana, com a colaboração secreta de Leonardo, pintor com certa vocação para a heresia. Desvendada a autoria, resta saber qual é a técnica misteriosa empregada. E adivinhem só… Daguerre, Talbot, Florence, Nièpce, não tem pra ninguém. Leonardo foi o verdadeiro inventor da fotografia. Conforme um tal Nicholas Allen é a de que ele teria aplicado uma solução de sulfato de prata sobre um tecido, devidamente exposto dentro de uma câmera escura. À frente da câmera, um cadáver provavelmente servia de modelo. A coisa não pára por aí. Existe certa desproporção do rosto em relação ao corpo representado no Sudário. A conclusão é a de que o rosto teria sido gravado numa exposição separada. Comparações com algumas pinturas sugerem, na leitura dos cientistas consultados, que quele rosto de Cristo era, na verdade, um autorretrato de Leonardo. Parece um roteiro saído de um livro de Dan Brown (de “O código Da Vinci”), que certamente inspira o documentário.

Fragmento de “O manto de Da Vinci”, Discovery Channel, 2006.

Um breve olhar para a história da fotografia já evidenciaria algumas contradições, que o documentário ignora sem qualquer cerimônia. Eles falam como se fosse um consenso que a sensibilidade da prata já era conhecida no renascimento. Nunca soube disso, mas vamos supor que sim. Não explicam, no entanto, como a imagem teria sido fixada, questão crucial que emperrou as pesquisas no século XIX. Outra coisa: como o programa sugere, a exposição do corpo à luz pode ter levado três dias, até gerar a imagem tênue que está no Sudário. Fica difícil entender como Leonardo teria conseguido gravar seu rosto. Conhecemos bem as dificuldades para o retrato no século XIX, mesmo quando a exposição já tinha baixado para alguns poucos segundos.

Sei que Boris Kossoy enfrentou resistências quando divulgou para o mundo suas pesquisas sobre a descoberta da fotografia no Brasil, por Hércules Florence. Será que um dia teremos que dar o braço a torcer e nos desculpar com os cientistas injustiçados do Discovery? Não tem comparação. O problema não está nas especulações que eles fazem, mas na linguagem sensacionalista a que se rendem. Qualquer verdade manifestada desse modo merece nossa desconfiança. Contra essas teses rebuscadas e emocionantes, vale o conselho do filósofo medieval Guilherme de Ockham: dentre as várias teorias que explicam um fenômeno, a mais simples é sempre a melhor.

Ouvi algumas vezes de Luis Felipe Pondé, colega da Faap, a seguinte frase: o problema quando deixamos de acreditar em Deus é aquilo que colocamos no lugar dele. Tanto faz no que acreditamos mas, pelo menos, as estratégias de comoção das religiões tradicionais são mais sofisticadas e poéticas do que as adotadas por essas pseudo-ciências. Se é pra tirar alguma lição dos mitos, é preferível recorrer àqueles que sobreviveram ao tempo, não aqueles que estão em cartaz na programação da Discovery.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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