Henri Cartier-Bresson – O século moderno

[22.ago.2010]

Capa do livro

Capa do livro

A editora Cosac Naify, num raro senso de oportunidade, publica o livro Henri Cartier-Bresson: o século moderno, simultaneamente à exposição que está em exibição no Museu de Arte Moderna de Nova York neste momento, dando nova visibilidade à importância da parceria estabelecida entre a editora e o MOMA.

O livro, organização de Peter Galassi, que também assina a curadoria da mostra, permite-nos ter acesso não apenas às imagens de Cartier-Bresson (1908 – 2004), um dos nomes mais emblemáticos da fotografia produzida no século passado, como possibilita ampliar significativamente sua esfera de atuação com informações inéditas de sua trajetória. Cartier-Bresson também foi cineasta, ator, editor, diretor de documentários e de filmes de publicidade, pintor e desenhista, entre muitas outras atividades desenvolvidas ao longo de seus 96 anos de idade.

O livro é ambicioso, pois quem imaginava conhecer Cartier-Bresson vai se deparar com uma quantidade enorme de novidades sobre sua vida, seus percursos e sua extensa obra. Com a abertura total dos arquivos, agora reunidos na Fundação Cartier-Bresson pela viúva Martine Franck, Peter Galassi soube articular uma enormidade de dados e valorizá-los com a finalidade de trazer à luz um conjunto expressivo de informações que seguramente abrirá novas possibilidades de investigação para outros críticos e pesquisadores.

Cartier-Bresson, Coffee Shop, Bosnia and Hercegovina, 1965

Cartier-Bresson, Coffee Shop, Bosnia and Hercegovina, 1965

Enfatiza sua ascendência familiar burguesa, sua relação com o ideário do Partido Comunista dos anos 20 e 30 que sonhava com uma sociedade mais igualitária, sua participação no movimento surrealista, seu engajamento em produzir informações sobre as colônias francesas e sobre a Ásia, sua conexão com os fotógrafos de seu tempo e, em particular, sua participação na Agência Magnum. Também valoriza seu relacionamento com os editores das revistas e jornais em que prestava serviços, e sua proximidade com Robert Capa – que foi decisivo para a carreira de Bresson e responsável por ele assumir-se como fotojornalista, já que não queria ser rotulado apenas como fotógrafo surrealista. Esse estímulo foi fundamental para seus inúmeros deslocamentos em busca de uma fotografia documental de qualidade e diferenciada.

Sua participação na Agência Magnum não significou abandonar a esfera artística coerente em favor de um trabalho estranho, pois para ele ser um fotojornalista significava ampliar sua atuação e ser também um diplomata, viajante, repórter e historiador. Para Peter Galassi, essa trajetória como fotojornalista é que se torna a essência do seu trabalho no pós-guerra – “a mais completa, variada, abrangente e convincente descrição do século moderno que um fotógrafo já nos deu”.

Cartier-Bresson, Simone de Beauvoir, Paris, 1946

Cartier-Bresson, Simone de Beauvoir, Paris, 1946

Além de defender a tese de que Cartier-Bresson, desde o início dos anos 1930, ajudou a definir o modernismo fotográfico, Galassi também mostra que ele soube como ninguém transitar com liberdade tanto pela fotografia artística quanto pelas publicações nas revistas ilustradas. O livro reflete na realidade o projeto curatorial e expositivo sobre a trajetória e a obra de Cartier-Bresson, dividido no texto crítico de apresentação em diferentes momentos – o fotógrafo, o prodígio, o artista, o idealista, o observador, o profissional e o historiador.

Daí sua temática ser a sociedade, a cultura e a civilização, pois para ele ser fotógrafo significava “envolver-se com a totalidade do mundo”. O livro também traz um quadro detalhado de como ele trabalhava – tanto sobre as especificações técnicas de câmeras e filmes, como a logística das viagens com seus colaboradores e os preciosos mapas desenhados por Adrian Kitzinger, que minuciosamente traçou todos os deslocamentos de Cartier-Bresson entre 1930 e 1960.

Muito já se sabia sobre Cartier-Bresson, mas poucos perceberam que de todos os grandes fotógrafos da primeira metade do século passado ele foi um dos poucos que floresceu e consolidou uma obra fotográfica após a Segunda Guerra. Peter Galassi nos mostra as estratégias que Bresson elaborou para continuar viajando, produzindo e publicando seu material nas revistas e jornais mais importantes do mundo, e iniciando seu circuito de exposições.  Por exemplo, sua primeira individual foi realizada em Nova York, em 1947, depois em Londres, em 1952. Já em Paris, isso só aconteceu em 1955.

Cartier-Bresson, Houston, Texas, 1957

Cartier-Bresson, Houston, Texas, 1957

Outra novidade do livro é tornar público algumas cópias contato, procedimento de produzir um copião para selecionar as melhores tomadas. No caso de Bresson avaliado pelo autor, ao se deparar com as cópias contato, desvenda-se parcialmente o processo de criação e edição das imagens. Pode-se verificar o quanto ele era econômico em sua produção. Para cada assunto em particular, com raras exceções, ele realizava de cinco a dez fotogramas para em seguida de concentrar em outro tema. Cartier-Bresson tinha um espírito independente e empreendedor e isso foi determinante para desenvolver sua fotografia centrada numa inteligência rápida e intuitiva, associada à sua vasta e sofisticada cultura.

Essa perspicácia e determinação provam que Bresson estudava atentamente seu objeto antes de fotografar, e ver agora sua cópia contato também possibilita perceber seus movimentos em torno daquilo que lhe chamava a atenção. Enquanto não conseguia enquadrar o assunto à sua maneira, “dançava” em torno dele. É incrível nesses casos ter a dimensão exata de seu trabalho, tanto que Galassi salienta que ele disparava o obturador da câmera somente após haver “traduzido o assunto em imagem”.

Cartier-Bresson desenvolveu dois ensaios – Gandhi e Pequim – que se tornaram seus pilares de reputação profissional. Ele apreendeu e registrou apenas o que era importante, descartando do seu enquadramento o que era insignificante. Essa atitude é que permitiu seu reconhecimento junto às revistas ilustradas que buscavam fotografias que fossem síntese e tivessem clareza e transparência, indispensáveis para dar respeitabilidade ao material publicado.

Cartier-Bresson, Preparations for the Baris Dance, Ubud, Bali, Indonesia, 1949

Cartier-Bresson, Preparations for the Baris Dance, Ubud, Bali, Indonesia, 1949

Suas atividades extra fotografia, explicitadas neste livro, só se viabilizaram graças à meticulosa sistematização de guarda e registro estabelecida pelo fotógrafo ao longo de sua vida, que soube organizar seu material para agora tornar-se público. Peter Galassi  valorizou e ordenou cada informação encontrada de modo que chega a surpreender o leitor pela farta documentação acumulada por Cartier-Bresson. Claro que não esgotou o assunto, mas com certeza abriu caminhos que ainda poderão revelar muitas outras surpresas.

Os números são impressionantes: em 1976, ele ultrapassou o rolo de número 14 mil, somando mais de meio milhão de fotografias em três décadas de trabalho. Como atesta Peter Galassi, “o trabalho de Cartier-Bresson é extraordinário não necessariamente por sua amplitude geográfica e cultural, mas também por seu alcance histórico ao largo das vastas transformações do século moderno”. O livro Henry Cartier-Bresson: o século moderno, da Cosac Naify, traz ainda uma listagem cronológica dos jornais e revistas que publicaram as fotografias de Bresson em todo o mundo; uma expressiva listagem das principais exposições fotográficas e livros publicados; e uma selecionada bibliografia e filmografia do autor.

[As imagens de Cartier-Bresson foram retiradas da apresentação da exposição no site do MoMA]

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

1 Resposta

  1. Rubens, que belo post sobre o livro do Bresson. Para quem não viu a exposição no MoMA fica o grande material de pesquisa de um curador que pode ao mesmo tempo nos ajudar a compreender um mito e também desmitificá-lo. Abs.

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