Fotógrafos, humanos, às vezes, covardes

[17.dez.2012]

The New Yorker Post, com foto de Umar Abbas. Diz a manchete: Condenado. Empurrado nos trilhos do metrô, este homem está prestes a morrer

Há duas semanas, um homem foi empurrado nos trilhos do metrô de Nova York. Ele tentava subir de volta à plataforma enquanto Umar Abbas, um fotógrafo freelancer, registrava a cena. Uma das imagens, feita pouco antes do homem ser atropelado pelo trem, foi publicada na primeira página do tabloide The New York Post.  O episódio trouxe à tona um debate que retorna de tempos em tempos sobre a ética do jornalismo.

Kevin Carter, Sudão, 1993.

Muitos lembraram da foto feita pelo sul-africano Kevin Carter, que mostra um urubu à espreita de uma criança subnutrida e quase morta. É muito diferente porque, havendo no extraquadro um continente inteiro na mesma situação, aquilo que se revela urgente assume outra escala. Ou seja, aquela criança iria morrer de qualquer jeito, não ali, diante da câmera, mas muito em breve. E a ideia de que ela seria devorada pelo urubu é muito mais um efeito retórico produzido pela imagem. Portanto, se o fotógrafo tivesse largado a câmera para espantar o animal, ficaríamos comovidos, mas não poderíamos dizer que seu gesto teria sido mais útil do que sua imagem.

Umar Abbas fez seu trabalho. Alguns se perguntaram sobre os limites éticos da profissão e outros cobravam dele uma atitude mais humana que profissional.

O filósofo francês André Comte-Sponville demonstra que códigos profissionais de ética tem pouco a ver com valores morais, no sentido estrito do termo (O capitalismo é moral?, 2005). Um comportamento regido por um valor moral é sempre desinteressado, não precisa de justificativas e não tem finalidade. Alguém que age segundo esse tipo de valor, faz o que faz porque desconhece outra possibilidade. Enquanto isso, alguém que segue um código de conduta pode agir “conforme o dever”, mas não necessariamente “por dever”, com diz Comte-Sponville. Em termos morais, a questão não é se um jornalista deve ou não interferir no objeto de uma notícia, mas se um homem deve ajudar ao outro que está em risco. O problema moral está fora do âmbito profissional.

Quanto ao jornalismo, suas preocupações éticas ainda visam a afirmação dessa atividade dentro do limite do que se consideram boas práticas, e visa o bom trânsito de seus agentes e de suas produções na sociedade. É uma questão de interesse tanto social quanto corporativista. E que fique claro: assim deve ser, para que não se perca de vista a vocação técnica da profissão.

Diante de casos extremos, o debate sobre a ética profissional sempre patina, porque não cabe ao jornalismo priorizar de modo generalista questões de ordem moral, em detrimento daquilo que é de sua efetiva competência. Não lhe cabe impor ao jornalista deixe de cumprir seus deveres profissionais quando não puder cumprir seus deveres morais. Não se pode esperar que o código de ética exija dos fotógrafos que larguem suas câmeras quando estiverem em condições imediatas de ajudar aqueles que fotografam. Caso contrário, o jornalismo se confundiria com uma religião, e a credencial do jornalista equivaleria a uma espécie de canonização.

Isso significa que “jornalista” e “ser moral” são dois papéis que um sujeito pode viver autenticamente, simultaneamente, mas nem sempre sem conflitos. O mesmo deve acontecer com médicos, advogados, políticos… Os debates abstratos pressupõe uma síntese ideal desses papéis que, nesses momentos cruciais, revela seu limite.

Em contrapartida, dizer que, ali, o fotógrafo deveria ter se preocupado mais com questões “humanas” do que “profissionais” também não garante muita coisa. Dizer que o homem é um ser moral significa que ele tem uma tendência muito espontânea a se colocar questões sobre as boas e más condutas, não significa que ele não esteja resolvido quanto à isso. Ou seja, humanos são falíveis, são muitas vezes covardes, tremem diante do perigo. A voga dos “códigos de conduta” (no trabalho, na escola, no esporte, na política, nos diferentes espaços públicos…) é, segundo Comte-Sponville, sintoma de uma especial dificuldade que temos, hoje, de buscar parâmetros morais mais consolidados. De todo modo, se a atitude do fotógrafo representa um lapso moral, podemos julgá-lo, tanto quanto deveríamos julgar as outras pessoas que presenciaram o fato e tampouco ajudaram a vítima (testemunhos falam em 18 pessoas).

As cobranças recaem sobre o fotógrafo com um peso singular. Imaginem que o vendedor de bilhetes ou o engraxate seguissem trabalhando, mesmo tendo visto o desespero do homem caído nos trilhos. Parece haver uma diferença: o trabalho desses profissionais teria simplesmente prosseguido, por inércia ou covardia, não vem ao caso. Já o trabalho do fotógrafo começa com o incidente, ele lhe é lucrativo. E, para piorar, enquanto esses outros trabalhos não geram evidência da suposta omissão, o testemunho que o fotógrafo opera se volta contra ele. A fotografia nos convence de que o fato ocorreu, tanto quanto não nos deixa esquecer da presença do fotógrafo, da distância que tinha do fato, da ação que realizou e daquela que não realizou. A imagem é sua benção e também sua desgraça.

Se decidirmos perdoar o fotógrafo porque “errar é humano”, ainda cabe cobrar o jornal por estampar em sua primeira página uma imagem tão cruel. A instituição, sim, está em condições de contornar com o debate a passionalidade do instante e as fissuras morais do sujeito. De fato, aquela imagem parece dispensável, assim como talvez o próprio jornal tenha, em si, pouco a contribuir com o mundo. Mas não é isso efetivamente que alimenta a polêmica: essa seria apenas mais uma capa sensacionalista, pronta para ser esquecida, se a mesma imagem tivesse sido captada por uma câmera de segurança, e não por um profissional. Portanto, no cerne da discussão não está a postura do tabloide, e sim a decisão do fotógrafo.

Na impossibilidade de um veredito mais claro, resta a oportunidade para pensar uma distorção que recai sobre a profissão do jornalista, principalmente, a do fotojornalista. O que nos leva a essa atividade é muitas vezes algo um tanto romântico, a vontade de operar um bem coletivo, e certa disposição para a aventura e para o risco. Mas, no dia a dia da profissão, a coisa mais heroica que o jornalista enfrenta é a própria sobrevivência dentro de um ambiente de trabalho estressante e pouco motivador.

No final das contas, o que se abala com esse episódio não é a ética profissional ou a fé no ser humano, mas a imagem idealizada com a qual o meio se afirma, o romantismo que ainda sustenta as expectativas e os sonhos em torno da profissão.

Voltando a Kevin Carter: ele fotografou uma criança que parecia prestes a ser devorada por um urubu, ganhou um Pulitzer e se suicidou. Mesmo que a relação entre a foto e sua morte não seja assim tão direta, a sequência de episódios produz inevitavelmente um forte impacto retórico que restitui ao fotógrafo sua aura heroica. Narrada desse modo, a história reconcilia, por um suposto sentimento de culpa, o profissional e o homem moral. Ele teria cumprido sua obrigação de denunciar e oferecido a vida para redimir o drama de não poder salvar a criança.

Outro exemplo que vem do cinema: sem muitas explicações, Aleksander, o fotógrafo de guerra do filme Antes da Chuva (Before the rain, Milčo Mančevski, 1994), decide abandonar a profissão e a mulher que ama, sua editora. Questionado por ela, ele explica laconicamente a razão de sua crise: “eu matei!” Mais adiante, veremos que sua afirmação é mais literal do que se poderia supor.

Com frequência a arma é tomada como metáfora para pensar a fotografia, e esse filme apenas situa, por meio de uma situação limite, o outro lado da moeda de nossas expectativas: se esperamos que a fotografia seja poderosa a ponto de salvar vidas, ela não pode também tirá-las? O personagem do filme encontrará em seu isolamento a ocasião de se redimir e resgatar sua dignidade moral (a profissional já não lhe importa).

É um filme genial, mas a história de Umar Abbas e de tantos outros profissionais tem pouco a ver com isso. Eles não têm lugar em nossas narrativas, não fundam escolas, não balizam comportamentos. É apenas pelo erro que são eventualmente notados. Em geral, fotógrafos não são nem heróis nem assassinos, e não tem em torno de si um estado de exceção – como a guerra – para justificar seus dilemas morais. Eles são humanos, sentem medo, padecem da covardia, e se entregam a uma rotina mais medíocre do que gostaríamos. Felizmente, não nos faltam boas referências: grandes artistas, grandes pessoas, trabalhos heroicos realizados com ou sem a câmera. Voltemos a elas.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. concordo com as afirmativas sabiamente apontadas por Ronaldo Entler, mas arrisco a talvez abrir uma lacuna para mais uma discussão. Não sei o quão relevante é, mas em “O clube do bangue bangue”, fica claro que a foto de Kevin Carter retratava uma criança faminta, mas que não estaria tão a mercê do abutre: “a criança também não corria risco de morrer de fome, pois o centro de distribuição de alimentos, capaz de ministrar nutrição de emergência, estava a meros cem metros de distância” (pag 197).
    abs

  2. Infelizmente a moralidade passa longe de algumas pessoas. Poder, dinheiro, tempo está em primeiro lugar nos dias de hoje. Precisamos sentir mais compaixão e amor do que apenas sobreviver e ganhar dinheiro. Poucos pensam assim….

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