Fischli & Weiss: a comédia dos objetos

[07.maio.2012]

Morreu na semana passada, aos 66 anos de idade, o artista suíço David Weiss que, desde o final dos anos de 70, trabalhava em parceria com Peter Fischli.  A dupla Fischli & Weiss se consagrou com várias séries fotográficas que foram, no entanto, pouco reconhecidas pelos críticos de fotografia.

Da série "Tarde silenciosa, Equilíbrio", 1984-5

Entendidas como registros de esculturas e instalações, suas fotos pareciam manter certa subserviência diante de técnicas mais consagradas. Não demonstravam portanto a autoridade conquistada a duras penas pelos fotógrafos. Não raramente, a história da fotografia se pauta por essa mágoa e, mesmo quando defende o trânsito entre linguagens, reivindica uma “cota de participação” que compense a discriminação sofrida durante mais de um século.

Se os registros de Fischli & Weiss parecem insuficientes para caracterizar uma arte fotográfica, é preciso notar que, também como escultura, as obras em questão são igualmente banais, num diálogo evidente com a tradição dos ready-mades. A dignidade da arte não é portanto a chave para pensar qualquer aspecto dessa produção.

Em Wurstserie (algo como “Série Salsicha”), um de seus primeiros trabalhos em parceria, Fischli & Weiss utilizam embutidos de carne e outros objetos para encenar cenas corriqueiras, como um acidente de carro, um desfile de moda ou o ambiente de uma loja de tapetes.

"Loja de Tapetes" e "O Acidente", da "Série Salsicha", 1979

Essas cenografias caricaturais dão lugar à ironia mais sutil da série Tarde silenciosa, Equilibrio, realizada a partir de 1984. O que vemos aqui, é uma espécie de anti-escultura cuja harmonia e estabilidade são pouco convincentes. Esse é o papel da fotografia: dar o estranho efeito de permanência a uma estrutura que parece insustentável.

Série "Tarde silenciosa, Equilíbrio", 1984-5

Essa série transporta para o universo dos objetos os princípios da comédia clássica. Nessas narrativas, as coisas tendem a se acertar apesar da falta de virtude dos personagens. O resultado parece feliz, mas a comédia é apenas o outro lado da moeda trágica: assim como a tragédia nos apavora mostrando a impotência do herói diante de seu destino, a comédia nos faz rir ao destacar os acidentes – os arranjos jocosos desse mesmo destino – que permitem ao anti-herói um êxito circunstancial.

Esse princípio é levado ao limite no filme O modo como as coisas acontecem, de 1987, série de eventos e reações químicas em cadeia que produzem resultados eficientes, apesar dos movimentos trôpegos e improváveis.

Esse filme pode ser entendido como uma alegorização bem calculada das teorias que pensam a criação como acidente produzido dentro de uma natureza caótica. Como a tese do darwinista russo Alexander Oparin, para quem a formação da vida se dá a partir de uma “sopa de proteínas” submetida a uma sequência nada coordenada de eventos geológicos e climáticos. Ou, mais radicalmente, como a filosofia trágica de Clément Rosset. Segundo ele, a própria natureza não passa de um arranjo circunstancial dentro de um acaso primordial, algo que apenas parece ter alguma constância dentro de uma escala de tempo moldada por nossa própria efemeridade. Por sua vez, a criação artística seria a capacidade de evidenciar os instantes bem sucedidos desses encontros circunstanciais: “uma arte de discernir, no acaso dos encontros, aqueles que dentre eles são agradáveis: arte não de ‘criação’, mas de antecipação (prever, por experiência e delicadeza, os bons encontros) e de retenção (saber ‘reter’ sua obra num desses bons encontros…)” [Rosset, Lógica do pior].

Podemos reler a partir desse princípio aquilo que, em trabalhos anteriores de Fischli & Weiss, foi entendido como puro non sense. No primeiro filme que fizeram juntos, A menor resistência, de 1981, eles narram o encontro inusitado de um Rato e um Urso, interpretados por eles próprios. Como é típico da comédia, chegamos a uma profunda empatia com os personagens graças à sua malícia ingênua e a seus comportamentos patéticos (no duplo sentido do termo: comportamentos afetados e afetivos). Nessa fábula, o Urso e o Rato percorrem a cidade de Los Angeles com a intenção de conquistar uma fortuna com a arte: “Ação! Cultura! Dinheiro!” (Rato: “Vamos começar com um estrondo, logo de cara, como o lançamento de um foguete”. Urso: “A verdade é que não entendemos nada do assunto”. Rato: “Ainda não, mas isso vai mudar. Estamos começando uma viagem de estudos”).

Em O caminho certo, de 1983, esses mesmos personagens se reencontram e percorrem os Alpes suíços, alternando entre situações de pequenos conflitos e solidariedade, dialogando com a paisagem e mimetizando seus elementos, numa saga com propósitos ainda menos claros, mas tão bela quanto desajeitada. No encontro com uma tartaruga, eles se admiram: “pequeno esforço, grande resultado!”. Visão idealista de um animal que foi encontrado de pernas para o ar, que parece andar com desconforto, mas que tem vida longa e nunca desiste. Porque, no final das contas, o princípio que parece reger a aventura desses dois personagens – assim como o movimento das traquitanas em O modo como as coisas acontecem – é exatamente o oposto: “uma grande saga com objetivos incertos”.

Fischli & Weiss retomaram a fotografia em exposições recentes, com grandes séries retiradas de seus arquivos. Em Mundo Visível (1986-2001), tanto o título quanto a massa de três mil fotos alinhadas em pequenos conjuntos sugerem os riscos de esgotamento do mundo pelas imagens.

Mundo Visível (livro)

Mundo Visível (Exposição)

Sobre esse trabalho, diz Fischli: “quando atingimos o ponto em que todas as imagens já foram feitas, o fato de realizarmos algo que não tem nenhum propósito é agora um dado do trabalho. Mesmo que essas imagens já tenham sido feitas, decidimos ir a esses locais e fazer nossas próprias imagens. E nós as fizemos. Quanto mais inútil se torna a ação de tirar fotografias, mais o trabalho revela sua importância. Você não pode deixar de experimentar as coisas pessoalmente”.

A comédia tem essa capacidade arrancar potencialidades da insignificância e do erro. O mundo, em toda sua banalidade, merece ser percorrido. Esse percurso, mesmo incerto, pode se traduzir em experiências. No final das contas, assim como vemos na cadeia de eventos de O modo com as coisas acontecem, assim como ocorre nas aventuras do Rato e do Urso, há beleza na iniciativa de seguir com convicção esse caminho que não leva a lugar algum.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

1 Resposta

  1. Gosto especialmente da série Airport que eles fizeram entre os anos 1980 e 90. Ali vemos um tema explorado em série, como um trabalho dito documental, mas com a diferença de que são construídas como uma imagem de turista. As fotografias são feitas a partir da janela no avião, em diferentes aeroportos que eles percorreram – fotografias que fazemos até hoje nas nossas viagens, ali postas já com ares do esgotamento do mundo que vemos por meio das imagens. Um trabalho sutil para aquele momento.
    Passei por aqui para não perder o fio da meada do Icônica, e também pra dar um oi. Bj

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