E a fotografia de José Oiticica Filho (1906-1964)?

[19.out.2009]

José Oiticica Filho, O Tunel, 1951

José Oiticica Filho, O Tunel, 1951

O pavoroso incêndio que destruiu parte expressiva do Acervo de Obras de Hélio Oiticica no último sábado, dia 17 de outubro, seguramente entrará para a história como mais um descaso no tratamento, preservação e guarda da arte brasileira. Já conhecemos esta história e sabemos como as autoridades em geral, os familiares e a mídia tratam o assunto.

Mas, curiosamente, em nada que eu li e vi sobre o assunto, há referências à obra de José Oiticica Filho, que mais do que o pai de Hélio Oiticica tem seu lugar garantido na história das artes visuais, particularmente na fotografia, onde atuou com propriedade. Ele é um dos artistas que conseguiu, ao lado de Geraldo de Barros e outros expoentes da fotografia modernista brasileira, na década de 1950, tirar a fotografia do realismo atávico e/ou do pictorialismo tardio que ainda grassava nas fileiras do fotoclubismo brasileiro.

José Oiticica Filho, filho de um anarquista e pai de um dos mais importantes artistas brasileiro de todos os tempos, conseguiu trazer para a fotografia brasileira um frescor ainda hoje revolucionário. Foi professor, matemático e entomologista no Museu Nacional. Nesta atividade via no microscópio coisas que o maravilhavam e forma essas imagens visualizadas é que desencadearam a necessidade de aprender fotografia.

Essa necessidade o levou ao Foto-Club Brasileiro onde aprendeu a magia do quarto escuro. Paulo Herkenhoff, na apresentação do catálogo da exposição realizada pela Funarte (José Oiticica Filho – a ruptura da fotografia nos anos 50) em 1983, afirma que “há quatro fotógrafos em José Oiticica Filho: o utilitário, o fotoclubista, o abstrato e o construtivo”. Só isso já o torna um caso raro de atuação múltipla na linguagem fotográfica. Sua evolução em direção ao abstrato é impressionante e seu trabalho o transformou no fotógrafo brasileiro com maior número de participações em exposições internacionais.

Quero saber como fica sua obra diante do fatídico incêndio que destruiu centenas de trabalhos de seu filho Helio Oiticica – os parangolés, bólides e bilaterais, entre outras peças de inestimável valor para a arte brasileira contemporânea. Na realidade, suas últimas exposições realizadas no Brasil e no exterior, não só recuperaram parte desse precioso acervo, como também documentaram em catálogos e livros. Diante das características destas obras, isso possibilita e viabiliza refazer e remontar algumas peças. Mas e os negativos, positivos e outras matrizes de José Oiticica Filho? Será que também se perdeu, parcial ou totalmente neste incêndio? Estas sim jamais poderão ser vistas novamente.

Digo isso porque esse material ainda não foi pesquisado, exibido e publicado o suficiente para estarmos de certo modo tranqüilos. Afinal de contas, uma matriz fotográfica, negativa ou positiva, não pode ser refeita com as mesmas singularidades do original.. A última exposição que vimos no Centro Municipal de Arte Helio Oiticica, na cidade do Rio de Janeiro – José Oiticica Filho Fotografia e Invenção – foi realizada em setembro de 2007,  e exibiu uma coleção de 158 fotografias, 20 pinturas e 20 vitrines. Uma maravilhosa retrospectiva que esclarecia o processo de criação do artista, seu percurso e seus procedimentos, e que chegava à recepção desavisada como uma bomba estética esclarecedora sobre a obra de um gigante da história da fotografia brasileira.

José Oiticica Filho, Recriação 29-64, sem data

José Oiticica Filho, Recriação 29-64, sem data

Sem falar em seus textos publicados na década de 1950 em muitas revistas brasileiras entre elas destacamos: Fotografia – Arte, Ciência e Técnica, do Rio de Janeiro; Boletim do Foto Cine Clube Bandeirantes, de São Paulo; Jornal do Brasil, do Rio de janeiro; e até mesmo na revista como Flores do Brasil, que publicava seus textos sobre como fotografar flores com luz artificial, luz natural, etc. Sua coleção de textos forma uma importante bibliografia sobre fotografia brasileira em seus aspectos técnicos e estéticos, que nunca foram organizados e publicados em forma de livro. Como pesquisador preocupado com a propagação do conhecimento sobre  fotografia e tudo que envolve o tema, gostaria de saber em que estado se encontra este material após o incêndio.

Vemos a ressonância na mídia mundial sobre o estrago provocado na obra de Helio Oiticica, mas quase nada encontramos sobre a obra de José Oiticica Filho. Essa é a razão desse texto que busca ampliar a discussão, bem como trazer a público, informações que não estão circulando entre aqueles que estão preocupados com a memória da arte brasileira – seja moderna, seja contemporânea.

José Oiticica Filho é um dos primeiros artistas a dessacralizar a matriz fotográfica, ou seja, a profanar o espaço do fazer fotográfico com intervenções em diferentes etapas do processo de trabalho. Para ele o que realmente importava era retirar da fotografia seu aspecto documental e figurativo, e sintonizá-la com as estéticas contemporâneas à sua época. Foi talvez o primeiro fotógrafo brasileiro que teve seu trabalho, vigoroso e instigante, em plena sintonia com a vanguarda que se praticava naquele momento em que buscava integrar todas as manifestações artísticas num projeto cultural geral para o país.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

17 Respostas

  1. O pior de não sabermos o destino do acervo de José Oiticica é que até agora, dependemos do tal catálogo da Funarte( que não faz justiça a sua obra ) e de algumas outras publicações esparsas.
    A memória da imagem brasileira quase sempre peca pelos momentos póstumos, infelizmente. Temos bons exemplos com Pierre Verger e Alécio de Andrade, que só tiveram reconhecia sua obra em publicações de qualidade depois de mortos.
    Já há tempos José Oiticica merecia uma homenagem desta! Em vez de virar nome de rua, devia ter uma publicação a altura de seu legado como fotógrafo e como pensador.
    Vamos torcer para que tudo isso ainda exista! Mas não como esses livros de bancos/empresas (como o feito sobre o filho Helio) que só habitam as estantes dos sebos a preços caríssimos ou as cofee tables das recepções das empresas.

  2. Pois é, meus caros Rubens e Ronaldo. A sentida ausência das [indiscutivelmente merecedoras] menções à obra de J. Oiticica Filho, no noticiário da nossa imprensa, tem relação direta com as dificuldades impostas à circulação de sua obra. A título de exemplo, vale lembrar que a edição revista de “A Fotografia Moderna no Brasil”, de Helouise Costa e Renato Rodrigues da Silva (Cosac Naify), traz uma nota onde os autores informam que “tivemos apenas que suprimir a análise das fotografias de José Oiticica Filho, pois seus herdeiros não permitiram a publicação das imagens.” Ainda há pouco, folheando a edição mais recente de “The Optical Unconscious” da Rosalind Krauss (The MIT Press), me deparei mais uma vez com as seis páginas onde fios cercam o nada – o vazio – trazendo abaixo, sempre, a mesma legenda: “image removed”. O óbvio motivo: a autora considerou inaceitáveis as condições impostas pelo “Mondrian Estate” para autorizar a continuidade da reprodução daquelas obras de Piet Mondrian, presentes nas edições anteriores do livro – mas ao menos manteve o capítulo em que as analisa. Cito este último fato para mostrar que o fenômeno se expande mundo afora. “Fenômeno”, porque pode ser descrito e explicado cientificamente… Penso que este seria um assunto a ser discutido no âmbito da Unesco, por exemplo: como assegurar aos falecidos a merecida divulgação, a justa acessibilidade de suas obras? Não seria este o caso dos nossos (sim, NOSSOS!) artistas? A minha leitura deste incêndio é a seguinte: trata-se de mais uma das ‘geniais’ e inesperadas manifestações destes finados personagens, como que a tudo fazer para que suas obras se libertem, para cumprir, enfim, a sua função…

  3. Infelizmente, no Brasil, é preciso uma desgraça como esta do incêndio na casa de um parente de Hélio Oiticica para que possamos discutir o quão precárias são as condições de preservação de obras tão significativas na cultura brasileira e mundial, como as de Hélio e seu pai José Oiticica Filho. Mas há também nisto tudo uma desgraça talvez maior na preservação da obra de vários artistas importantes: os herdeiros! Os herdeiros, de escritores a músicos, de artistas plásticos a esportistas, estão mais preocupados em censurar obras, exigir “direitos” do que preservar e garantir a memória do que foi a seu tempo transgressivo e inovador. Torna-se urgente discutir uma política cultural que garanta os acervos e preserve a liberdade de expressão!!!

  4. Marçal tem toda razão!
    Não é de hoje que ser herdeiro tornou-se uma profissão na arte brasileira. Poderia citar uma série deles que controlam hoje importantes legados culturais.
    Em nome da suposta preservação da obra do seu parente ( avô, tio, pai, mãe, etc. ) fazem com que a difusão de informação cultural- que deveria ser para muitos -vire uma coisa para poucos.
    Pouquíssimas editoras hoje são capazes de arcar com tamanho custo, sem transformar as edições em mais uma edição de mesa…lindos e decorativos, com 1 ou 3 volumes, que a preços exorbitantes nunca chegarão as mãos de um aluno sequer, e talvez, nem mesmo a uma biblioteca.
    Como autor, creio não ser injusto cobrar pelos direitos que possam preservar uma obra intelectual. Contudo, quando estes inviabilizam a possiblidade desta obra chegar ao grande público só nos restar lamentar

  5. Ola Rubens!
    Parabens pela iniciativa do blog – e pelos seus participantes!
    Realmente gostaria de saber “que fim levou” (que horror…) o acervo Jose Oiticica.
    Quanto aos herdeiros, infelizmente volta-se ao mesmo problema da falta de formação geral que sofre o Brasil. Herdeiro é profissiao, infelizmente, em qualquer lugar do mundo – lembrem-se dos de Picasso… So vejo duas soluções: uma seria o modelo americano de gestao de museus, segundo o qual os membros do “board” (ou seja o conselho diretor) possa responder com seus bens pessoais pela ma gestao do acervo: é o caso do Metropolitan Museum, um fato pouco divulgado, mas importantissimo – se algo um dia acontecer ao Met quem paga sao os chiquerrimos, riquissimos e algumas vezes cultissimos board members (que alias tambem pagam anualmente para dirigir o board e contratam a diretoria do museu). A outra seria a lei de heranças: o Museu Picasso foi criado com o acervo que a familia teve que “doar” para poder ficar com o “grosso” da sua herança… Assim, pelo menos uma parte entra para o usufruto do publico – mas se ninguem se responsabiliza pelo mau estado e a ma gestao dos museus, nao adianta muita coisa….

  6. Bem vindos! Bacana que vocês decidiram montar um blog! Viva longa ao iconica!
    beijos

  7. Oi professor(es), recebi essa notícia antes de assistir a palestra de Witkin no Itáu Cultural. Ou seja, perdi a concentração e fiquei vagando pela obra do carioca que morreu com 43 anos, não antes de deixar um mar de ideias para gente responder. E ainda pela manhã, os amigos do Rio corriam para frente da casa para confirmar a desgraça.

    Parangolés morreu e queimado.

    A noite, César Oiticica dava uma depoimento na tv se dizendo culpado e pedindo para morrer. Foi a segunda imagem mais forte do dia, mais uma que colocou Witkin para trás.

    Como herdeiros talvez eles sofram uma violência diária, contínua. Herdeiros de algo que pertence a uma nação de descasos, a um valor de desrespeitos, a um menosprezo de ignorâncias.

    Salve engano, as obras de José Oiticia foram sim disponibilizadas para tese de Helouise Costa e Renato Rodrigues da Silva. Porém, para a publicação de “A Fotografia Moderna no Brasil” (Cosac Naify), a editora e a família não chegaram a um acordo. E aqui fica uma breve desconfiança de que as pessoas em torno desse blog também tenderíam a serem duras ao negociarem com editoras brasileiras. Acho eu.

    Mas o que fica mesmo é morte, e é a morte inquisitória de obras de Hélio Oiticica. Queimadas em um fogo infernal. Brasileiro.

    PS.: Rubens, Entler, obrigado por esse fôlego de vocês em se colocarem aqui pelo Icônica. Muitíssimos obrigados!

  8. Pio, apenas um esclarecimento: as obras do Oiticica não apenas figuraram no trabalho original da Helouise e do Renato (realizado no âmbito de um concurso nacional de bolsas de pesquisa, promovido pela Funarte), como também na primeira edição em livro (Funarte/IPHAN – Ed. UFRJ, 1995). E quanto à alegada “dureza” ao se negociar com editoras brasileiras (só as brasileiras?), reitero a minha opinião de que, nos dois casos citados em meu ‘post’, a manutenção das imagens na reedição dos trabalhos deveria estar acima de quaisquer outras questões — só isto!

  9. Não se trata aqui de pensar algo como “tá vendo, regulou as imagens, agora elas queimaram”… Ninguém é assim egoísta.

    Mas é verdade que alguns herdeiros e “detentores de direitos” às vezes não fazem diferença entre estampar uma obra no tecido do sofá ou num livro que trabalha em favor da memória do artista.

    Perguntaram a mim e ao Rubens esses dias porque nossas teses ainda não foram publicadas. A razão é a mesma: não dá pra fazer a coisa legalmente, pagando todos os direitos. Sobretudo no caso de autores estrangeiros, em que não dá sequer pra tentar dialogar com a família, a coisa se complica ainda mais.

    No meu caso, escrevi para 40 pessoas ou instituições do mundo inteiro para ter as autorizações. Só um Man Ray no miolo do livro me custaria cerca de 1000 US$. Desisti. Mando o PDF da tese pra quem me pedir.

    Talvez haja um tanto de descaso e de má vontade, tanto na falta de publicações quanto no incêndio. O pior é quando as duas coisas acontecem com um artista.

  10. Caro Rubens e Ronaldo,

    Com tristeza leio o post sobre o desastre no Jardim Botânico.

    Por outro lado, é uma alegria o surgimento do Icônica e tenho esperança de que possa ser um excelente canal para discussão da fotografia.

    Uma questão sobre os acervos: entre herdeiros e museus não caberia uma política, pública ou privada, para pesquisa, difusão e comodato?

  11. Olá Professores. Que bom poder ter acesso a uma discussão de qualidade e relevância.

    Já assinei o blog

  12. Quero lembrar, diante das diferentes colaborações dos colegas, que como membro do Conselho Curador da Coleção Pirelli-Masp, após 17 edições, nós não conseguimos incluir as fotografias de José Oiticica Filho em nenhuma edição por intransigência familiar. Foram feitas inúmeras tentativas, mas todas, de alguma forma, foram anuladas pelo filtro familiar. Esse mesmo procedimento sei que aconteceu com outras instituições, não permitindo que as cópias fotográficas de JOF fossem adquiridas e ampliassem a recepção e a permanência do seu trabalho. A fotografia permite tiragens, limitadas ou não, que poderiam estar em diferentes coleções do país e garantir um mínimo de longevidade para a memória visual e para a história da fotografia.

  13. Triste ver a cultura se transformando em fumaça; mas muito esperançoso ao ver os ilustres nomes que assinam este icônico espaço, e os que nele comentam.
    A pergunta que não quer calar, porém, é pertinente; o servidor do icônica é seguro? Tem backup?
    🙂

  14. Que bom ver surgir mais um blog realmente bom sobre fotografia!
    Vou acompanhar sempre!!

    beijos

  15. Caros colegas, infelizmente o pior aconteceu. Tomo aqui a liberdade de reproduzir texto da professora Helouise Costa recebido por email em uma lista de discussão…

    > Caros Amigos,
    >
    > Não bastasse a tragédia da perda das obras de Hélio Oiticia, aconteceu o
    > que eu temi quando vi as primeiras notícias do incêndio: todo o acervo
    > de José Oiticica Filho também foi consumido pelo fogo na sexta-feira
    > passada, de acordo com as informações que recebi hoje.
    >
    > É uma perda imensa, pois que eu saiba nenhum pesquisador havia
    > conseguido acesso aos arquivos do JOF, onde havia inúmeras anotações,
    > projetos de séries fotográficas e câmeras, textos, a sua biblioteca de
    > referência, etc. Eu, inclusive, tentei mais de uma vez pesquisar esse
    > material, sem sucesso; a família não me autorizou nem mesmo incluir as
    > fotos dele na edição do meu livro da CosacNaify. Uma exposição
    > apresentada no Centro Hélio Oiticica, organizada pela família, há alguns
    > poucos anos deixou ver um pouco da riqueza do acervo até então
    > inacessível, agora perdido para sempre.
    >
    > Creio que há outros casos de acondicionamento precário de acervos
    > fotográficos importantes. O Foto Cine Clube Bandeirante é um deles. Me
    > pergunto qual o nosso papel como pesquisadores da área diante dessa
    > situação. Parece que, infelizmente, a nossa única alternativa tem sido
    > rezar para que os acervos sejam comprados pela iniciativa privada.
    >
    > Joan Fontcuberta em sua recente visita a São Paulo demonstrou seu
    > estranhamento em relação à ausência de políticas públicas em relação à
    > fotografia no Brasil, não apenas de incentivo à produção, mas também de
    > guarda e difusão do patrimônio.
    >
    > Este é mais um informe e um desabafo…
    >
    > Abraços a todos.
    >
    >
    >
    > Helouise Costa
    >
    >
    >
    > Profa. Dra. Helouise Costa
    > Vice-Diretora
    > Museu de Arte Contemporânea- USP
    > Rua da Reitoria, 160 – Cidade Universitária
    > 05508-050 São Paulo – SP
    > Tel: (55.11) 3091.3028

  16. Achei legal

  17. eu quero saber mais sobre o hélio oticica

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