De Stoker a Cronenberg: os modos de reencarnar do vampiro

[10.set.2012]

Bram Stoker não inventou o vampiro, ele apenas deu um lugar na literatura moderna a esse personagem que já vagava pelas lendas europeias. Humanizado e romântico, seu Drácula se transformou no modelo de vampiro que foi vivido no cinema por Bela Lugosi, Vincent Price, Christopher Lee e Gary Oldman.

Bela Lugosi e Helen Chandler, Drácula, 1931

Com seu sangue impuro, o vampiro é um ser de linhagem sempre indefinida. Ignoramos sua origem, sabemos apenas que ele sempre retorna. Apesar da má fama, é um ser tolerante: está sempre disposto a reencarnar em corpos atualizados que dialogam com o imaginário de cada momento e de cada público. Impossível inventariar aqui todas as suas variações. Mas, para nos lembrar de sua imortalidade, ele sempre reaparece uma segunda vez em cada uma de suas formas mais expressivas.

Há uma lição a aprender com o vampiro: nessas reencarnações, encontramos o próprio modo de perpetuação da imagem.

A cópia

O sueco Deixa ela entrar (2008) é talvez o melhor filme de vampiro da década anterior. É a história de um amor nada romântico – talvez, mais um misto de compaixão e dependência – entre duas crianças marginalizadas, o solitário Oskar, que apanha dos amigos da escola, e a pequena vampira Eli, que se muda para seu prédio (no roteiro original, entendemos que Eli é, na verdade, um menino que havia sido castrado séculos antes). Tinha tudo para ser um sucesso: roteiro impecável, efeitos competentes, bons ingredientes – amor, medo, violência – e personagens em voga – vampiro e vítima de bulling–, mas a atmosfera e o ritmo nórdico da narrativa entediou o público.

Deixa ela entrar (Låt den rätte komma in), 2008, dirigido por Tomas Alfredson

Pouco tempo depois, o filme reaparecia num remake hollywodiano, Deixe-me entrar (2010). Exatamente a mesma história, com um pouco mais ritmo, de sustos e efeitos especiais. Mas não disse a que veio, além de responder à preguiça dos americanos para ler as legendas. Foi um fracasso, não atraiu nem os entusiastas do cinema europeu, nem os fãs da saga Crepúsculo. Vampiro que suga vampiro, morre de anemia.

Deixe-me entrar (Let me in), 2010, dirigido por Matt Reeves

A citação

O clássico Nosferatu, sinfonia do horror (1922) dispensa apresentações: depois de passar a eternidade tentando evitá-la, o vampiro encontrou no expressionismo alemão sua luz mais marcante (a propósito, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo promete para novembro a projeção de uma cópia restaurada com música ao vivo no Parque do Ibirapuera). Murnau foi acusado de sugar demais do Drácula de Bram Stoker e teve problemas para exibir sua produção. Com o tempo, seu vampiro Orlok revelou-se tão autêntico que gerou sua própria descendência.

Um exemplo célebre é Nosferatu, o vampiro da noite (1979), de Werner Herzog, que devolve ao vampiro criado por Murnau elementos da história original de Bram Stoker. Cita ambos, mas resulta numa obra com méritos próprios, dentre eles, as atuações de Klaus Kinsky (como Drácula), Isabelle Adjani e Bruno Ganz.

Nosferatu, o Vampiro da noite (Nosferatu, the Vampyre), 1979, dirigido por Werner Herzog

Homenagem ainda mais assumida é a paródia A sombra do vampiro (2000), que busca desvendar de modo fantasioso o êxito do personagem criado por Murnau. Nesta ficção, após ter negada a autorização para filmar a história de Bram Stoker, o diretor parte para a Checoslováquia para trabalhar com um ator desconhecido, suposto discípulo de Stanislavsky, e que adota métodos excêntricos para mergulhar em seu personagem. Logo descobrimos que Murnau encontrou um vampiro de verdade, que aceitou cooperar mediante o direito de devorar a atriz principal, a bela Greta. Enquanto o vampiro apavora e dizima a equipe, Murnau tenta contê-lo para completar as filmagens. Esse filme é uma espécie de piada em torno do clássico Nosferatu, não pretende repetir e nem superar o clássico expressionista. Assume-se como celebração e serve para lembrar o lugar em que o vampiro tomou uma de suas formas mais assustadoras.

A contaminação

Quando o vampiro já não frequentava nossos pesadelos, Stephenie Meyer fez com que ele reaparecesse em sonhos mais doces, exacerbando na saga Crepúsculo o potencial romântico, civilizado e fashion do personagem. É preciso reconhecer a habilidade da escritora de conciliar os medos mais arcaicos e os desejos mais juvenis. A versão para o cinema tem também o mérito de ter dado um rosto marcante ao vampiro. Tão marcante que o ator Robert Pattinson permanece sendo assombrado por ele, não importa o papel que assuma.

Crepúsculo 2 – Lua Nova (New moon), 2009, dirigido por Chris Weitz

Ao incorporar Pattinson a Cosmópolis (2012), David Cronenberg não teve a intenção de aproveitar seu antigo personagem, mas também não teve como exorcizá-lo totalmente. O público logo percebe isso. No filme de Cronenberg, Pattinson interpreta Eric Packer, também um corpo sem alma vagando com sua maldição, a busca por um alimento cujo sabor ele já não sente: o capital especulativo. Sua limusine blindada e ultratecnológica é, no final das contas, tão assustadora e solitária quanto a cripta de Drácula.

Packer vive de apostar um dinheiro cujo valor já não é capaz de medir. Sua tarefa é multiplicá-lo, mas já não sente sequer a sua perda. A especulação é para o capital aquilo que o espelho é para o vampiro: diante deles, toda forma sensível desaparece. Enquanto todo vampiro é nostálgico de um amor do passado que lhe custou a alma, Packer vaga em direção ao futuro, um tempo que se revela vazio, constituído de apostas, números e gráficos. Um futuro sem qualquer experiência, sem perspectiva de transformação, sem criação, portanto, sem devir.

Segundo li, o ator de Crepúsculo só foi convocado depois que Colin Farrell recusou o papel, e Cronenberg se irrita ao ver seu personagem comparado com o vampiro. Mas as imagens tem vida própria e produzem sentidos à revelia de seus autores. Isso não é demérito para Cronemberg, há gênios cujo talento se revela na desventura (como aconteceu com Buñuel em Esse obscuro objeto do desejo, quando teve que trocar a atriz principal no meio do filme). Cosmópolis estava predestinado a redimir o vampiro da doçura de Crepúsculo, para devolvê-lo à sombra, restituir-lhe o poder, o vazio, a melancolia. Cabe dizer que, nesse filme, Cronenberg reencontra ele próprio sua vocação mais monstruosa: abandona a ação violenta de filmes recentes e retoma formas profundas de perversidade, como nos bons tempos de Videodrome (1983) e Crash (1996).


[Não se deixem enganar pelo trailer. Cosmópolis é acima de tudo um filme de personagens inclassificáveis, diálogos afiados e um apocalipse mais sugerido do que mostrado].

 

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. Belo artigo. Lembrei de Anne Rice e seu “Entrevista com o vampiro”, livro de 1976, e sua referência à entrevista jornalística como um ato de vampirismo. O filme homônimo de 1994, dirigido por Neil Jordan e estrelado por Tom Cruise, Brad Pitt e Kirsten Dunst, não faz jus ao livro, e deixa escapar essa sútil crítica feita ao jornalismo vampiresco.

  2. O cinema é uma referência essencial para alguns fotógrafos, eu sou um deles. Um texto sobre os filmes Stanley Kubrick seria maravilhoso.

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