Da caixa preta ao cubo branco: crônica sobre a ressignificação de um espaço

[04.jun.2013]

Preâmbulo

Demorei a conhecer a nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP, no Ibirapuera. Em princípio, por falta de tempo. Mas, talvez, também por um trauma: por conta de um carro clonado, frequentei durante anos a máquina burocrática do Detran que ocupava aquele edifício há alguns anos.

Eu recebia em média duas novas multas a cada mês, todas trazendo a foto de um carro quase igual ao meu cometendo infrações pelas ruas da cidade. O que era lido nessas fotografias (bom pretexto para retomar o foco deste blog)? Apenas os caracteres da placa, idênticos aos meus. Tanto faz se a foto também mostrava diferenças significativas no veículo, até mesmo no tamanho e na tipografia da placa, e tanto faz que eu tivesse recebido uma multa – também com foto – em Campinas, mais ou menos no mesmo horário em que o clone levava outra a trezentos quilômetros dali. Para a burocracia, eu era o culpado. A interpretação da fotografia sempre depende de um sistema de codificação que, neste caso, só permitia ler aquelas letras e números. Vilém Flusser já havia insinuado que suas considerações sobre a câmera fotográfica valiam para outros aparelhos: aquele prédio é o exemplo mais claro que tive do que pode ser uma caixa preta.

Num surto raiva, disse certa vez a um delegado do Detran que, caso aquele prédio viesse a explodir, eu me declarava antecipadamente suspeito. Isso me custou naquele dia uns dois guichês a mais, meia dúzia de carimbos, e aquela propina que eles fazem parecer legalizada pelas mãos dos despachantes.

A história tem final feliz, não só porque o carro clonado foi apreendido (mais ou menos feliz, porque custou a vida de um cidadão atropelado), mas porque o edifício sobreviveu e pôde finalmente ser exorcizado, dando à obra de Niemeyer um destino mais digno. Quem conheceu o Detran, certamente verá no novo museu uma espécie de “memorial da resistência”, a celebração de nossa sobrevivência diante de um estado muitas vezes perverso.

Nessa transformação, ocorre-me que arte e burocracia tem uma grande afinidade: ambas são atividades com uma justificativa em si mesma. A diferença é que a arte se assume e se potencializa nessa condição. Também burocracia se revelaria uma performance muito criativa se não fingisse servir para alguma coisa.

O museu em processo

fotomac

É verdade que o projeto de reforma e ocupação desse espaço sofreu atrasos, mas é um privilégio chegar ali e ver o processo em andamento. Sensação de que a casa está pronta, mas a ação de habitá-la ainda não se transformou em rotina, de modo que a parede mais neutra ainda ainda permanece visível, e nos convida a pensar nas diversas formas de ocupá-la. Trata-se de algo que “desnaturaliza” o museu como lugar da arte, porque expõe seus próprios códigos e determinações.

O contrário disso nós sentimos em espaços tradicionais em que as obras parecem descansar em paz por toda a eternidade, onde tudo parece tão resolvido que nossa presença se torna estranha, ruidosa e desconfortável. O que encontro no MAC é um momento importante de apoderamento de um espaço público, em que as obras ainda parecem como coisas vivas a procura de um lugar de diálogo e, ainda, em que os visitantes não se sentem como objetos profanos que perturbam o silêncio de um espaço sagrado.

O museu claramente assume e busca compensar algumas limitações, sem escondê-las. A questão mais discutida nesse sentido é o “pé direito” baixo dos andares do prédio principal. Mas o que seria um espaço ideal para a obra arte? Essa é uma grande oportunidade para um projeto dedicado à arte contemporânea que, com frequência, faz de uma de suas causas a consciência sobre o espaço que ocupa. Não esconder os vazios e as limitações do edifício parece ser um modo de afirmar uma história, as escolhas e os conflitos dessa ocupação, mais do que de celebrar um resultado.

O exemplo mais claro disso está no prédio anexo, onde vemos o diálogo de dois artistas com o projeto. Num piso, a instalação “Sala de Espera”, de Carlito Carvalhosa: um conjunto de postes de madeira, apoiados num equilíbrio provisório e improvável,  que contrastam com assepsia do branco e perturbam com a distribuição monótona das colunas, como se reivindicassem um caráter de ruína para um prédio que se demonstrou bem acabado.

Carlito Carvalhosa, Sala de Espera, 2013

Carlito Carvalhosa, Sala de Espera, 2013

No outro piso, a série “Obra”, de Mauro Restiffe: que documenta não apenas o processo de reforma do espaço, como também os diálogos provisórios que se produziram a paisagem. A montagem é pensada para lembrar daquilo que os próprios tapumes que sustentam as imagens escondem: colunas, vigas, emendas nas paredes, além de certo estado de tensão e precariedade do processo de reforma. A série narra uma história sem efeitos retóricos, apenas com a autoridade de quem vivenciou a transformação do lugar. Restiffe constrói  janelas que não mostram apenas o entorno do espaço, mas também do tempo: o limiar sutil que separa o espaço idealizado da ruína. A ruína é a condição física e simbólica da qual aquele museu emergiu, e também o lugar para onde um projeto que também depende da burocracia e das decisões políticas está sempre sob ameaça de retornar.

Mauro Restiffe, Obra, 2012

Mauro Restiffe, Obra, 2012

Mauro Restiffe, Obra, 2012

Mauro Restiffe, Obra, 2012

A última surpresa ficou para o piso superior do prédio. Enquanto o andar aguarda em silêncio a chegada de um restaurante,  já temos livre acesso a um panorama de São Paulo como raramente encontramos. Naquele mesmo lugar onde todos movimentos um dia emperravam na burocracia, agora, o olhar transita de forma bastante fluída. Enquanto pensa suas estratégias para dar sentido às obras do acervo, o museu ressignifica a própria cidade.

panorama

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Além dos trabalhos de Restiffe e Carvalhosa, três outras exposições podem ser vistas na nova sede do MAC: “Di Humanista”, “O Agora, o Antes: uma síntese do acervo do MAC USP” e “Doações recentes”:  www.mac.usp.br/mac

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

4 Respostas

  1. Pois é Ronaldo, também paguei por todos os meus pecados (e pelos que ainda virão em minha vida…) por vários anos em meados de 90, e tudo também por conta de um carro clonado… não desejo isso para ninguém! Ainda hoje, a minha batida cardíaca se acelera quando passo por perto deste prédio, espero realmente que o museu mude esta minha percepção… e pelas fotos, parece que ele está lindo!

  2. Olá Ronaldo, fiquei curiosa para visitar a nova sede do MAC, nem sei se já soube um dia que o prédio era um projeto do Niemeyer. Uma vergonha para uma arquiteta, mas, na verdade, não acredito que alguém pudesse frequentar aquele local com um olhar de contemplação e reparar na arquitetura. Eu, pelo menos,não. Ainda costumava chamá-lo de “filial do inferno na terra”, e nem tive carro clonado! Com certeza farei uma visita ao Museu na minha próxima ida a São Paulo, e desta vez com outros olhos!
    Aproveito para te agradecer por compartilhar conosco suas ideias. Elas estão sempre me realimentando.

  3. Oi Ronaldo,

    Seu texto é um convite para visitar o MAC, e a imagem do trabalho de Carvalhosa e de um ângulo inusitado da cidade de São Paulo reforçam isso ainda mais!!
    É interessante observar, também através de seu texto, a forma gradual como a nova sede do MAC vem sendo ocupada, uma relação contemplativa, que talvez desafie esses caminhos “mercenários/mercadológicos” que a arte tem percorrido nos últimos tempos.

  4. Parabéns pelo seu belo artigo.

    Visite o nosso site http://www.aamac,org.br.

    Seja bemvindo!

    Roberta Matarazzo
    Presidente
    AAMAC
    Associação dos Amigos do Museu de Arte Contemporânea USP
    .org.br

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