Colecionador de Olhares Desaparecidos [parte 3]

[26.nov.2012]

Anônimos

Recentemente, fiz uma incursão pela minha coleção de retratos anônimos feitos por fotógrafos desconhecidos, e que venho denominando de “olhares desaparecidos dos desconhecidos íntimos”. É sempre uma grata surpresa rever estas fotografias, sentir a naturalidade do fotografado diante do dispositivo e se deparar não só com uma harmoniosa relação de luz e sombra, mas também com uma desavergonhada e teatralizada emoção.

São imagens enigmáticas que possibilitam um confronto com a história desses desconhecidos. Além disso, estar diante destas fotografias é tentar estabelecer possíveis conexões com as gramáticas específicas da fotografia dos estúdios que dominaram esse mercado por algumas décadas e que se aproximaram de uma estética amadora que exige do nosso olhar algum envolvimento e mobilização.

Anônimo

Mas afinal, quem são essas criaturas que habitam meus álbuns e provocam minha imaginação? Quem são essas figuras que evocam histórias e desencadeiam paixões? Desde que iniciei esta longa jornada de tentar compreender o Homem através dessa fotografia, vernacular por excelência e, simultaneamente, expressão simbólica da cultura do nosso tempo, sinto que sou tocado por esses diferentes olhares que enfrentaram e se mostraram à câmera. Baudelaire talvez tenha acertado quando afirmou que há no retrato alguma “verdade enfática do gesto nas grandes circunstâncias da vida”.

Anônimo

Como sabemos, a fotografia tem um potencial de mimesis e de memória que a diferenciou singularmente das outras manifestações visuais. O retrato em particular carrega sempre a certeza de ser uma imagem congelada do tempo; uma imagem que, nesse caso específico, após ser fixada no suporte papel, iniciou nessa imobilidade uma longa viagem sem regresso. Essas fotografias me atraem justamente porque elas percorreram um estranho caminho: foram vibrantes enquanto eram reconhecidas e valorizadas em seu circuito familiar e, depois, sofreram uma ruptura, ou seja, foram esquecidas e abandonadas num fluxo de incertezas e acasos.

Por exemplo, a fotografia ao lado em cujo verso está inscrito apenas “Olinda, Dama da Meia Noite, Carnaval de 1948” me surpreende pelo cenário e figurino; pela luz e pelas sombras; pelo movimento e pelo olhar insinuado da personagem. Ao me apropriar dessas fotografias anônimas busco criar para elas novas possibilidades visuais e ao (re)significá-las podemos estabelecer um percurso visual que propicia uma reversão em suas temporalidades. Ao adotá-las e valorizá-las em novas trajetórias nascem outros elos afetivos que minimizam e aliviam as tragédias de sua existência anterior.

Anônimo

Outra curiosa fotografia é uma espécie de tableau vivant em que três mulheres posam para a posteridade. Em seu verso apenas a inscrição “Campos de Jordão, 3 de junho de 1928”. Um registro de viagem que foi sistematicamente esquecido pelas gerações posteriores até perder completamente todos os vínculos afetivos e ir para o lixo juntamente com algum conjunto iconográfico que reunia uma história social familiar.

A fotografia também é o registro de um acontecimento, qualquer que seja ele. As imagens, e em particular o retrato, parecem cumprir um ritual de visualidade, de importância e de desaparição que tende a se repetir conforme é notável nesse inventário que venho realizando nas últimas décadas. É interessante constatar que o ciclo se repete mas o diversificado conjunto reunido e sistematizado reflete tanto a história da fotografia como a história social da cultura. É nisso que reside meu particular interesse: perceber a força da fotografia enquanto objeto estético e documento visual de uma época.

O efeito de fascinação exercido por estas imagens não deverá jamais provocar algum efeito anestésico sobre o espectador. Ao contrário, deverá mobilizá-lo em direção de uma compreensão mais ampla sobre memória e esquecimento no mundo contemporâneo.

Tags: , , ,

Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

1 Resposta

  1. Fascinante sua pesquisa. Aqui, na criação de um projeto de retratos sem face, esbarrei nesse texto cheio de afeto e consciência imagética. Vou divulgar porque merece ser mais visto.
    Parabéns.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reload Image