Chacal vs Capitão Nascimento

[15.nov.2010]

Na semana passada, fui ver Carlos (2010), filme de Olivier Assayas que se apresenta como “ficção baseada em pesquisas jornalísticas”, e que conta a história do legendário terrorista venezuelano conhecido como Chacal. Produzido como minissérie pelo “Canal Plus”, rede francesa de TV, foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, assim como em Cannes, em sessões de quase seis horas de duração.

Na semana anterior, havia assistido também a Tropa de Elite II (2010), de José Padilha, que dispensa apresentações.

Ambos tratam da complexa relação entre política, corrupção e violência. A história de Carlos se concentra nos anos 70 e 80, no bolo internacional que mistura a guerra fria, a questão palestina e o comércio de petróleo. Tropa de Elite II expõe a relação dos poderes públicos com as ações do crime organizado nos morros cariocas.

O filme francês me ajudou a situar algo que me incomodou em Tropa de Elite: o didatismo, aquela voz facilitadora do Capitão Nascimento, sempre nos ajudando a fazer as conexões entre os fatos e a julgar as ações dos personagens. Em Carlos, ninguém explica nada. Temos que simplesmente detectar em cada momento as tensões políticas que, assim como em Tropa de Elite, se reconfiguram o tempo todo.

Os personagens de Tropa são quase arquetípicos, por isso são fáceis de apreender: o principal deles, o homem sem refinamento que se revela bom em sua rudeza, como são os pais, tios ou avós de alguns de nós, que desenvolveram uma sólida noção de certo e errado sem precisar desenvolver teorias sobre o assunto (o discurso final do Capitão Nascimento em Tropa II é indignado, ingênuo e verdadeiro, como a opinião política dos nossos tios). Tem também o comunicador bonachão, performático que traveste de indignação seu pensamento fascista; o professor universitário de esquerda, militante, sedutor e cheio de retórica; o governante inseguro e manipulável que, quando não chega, termina corrupto… Conhecemos uma dúzia de cada um desses personagens.

Em Carlos, os personagens são contingentes, aqueles que a história nos deu. E, não sendo exemplares de nada, são difíceis de apreender. Para saber do que estamos falando, temos que puxar pela memória o que representam figuras como Kaddafi, Arafat, Sadat, Husseim, ou cidades como Damasco, Tripoli, Bagdá, Beirute, Cairo, ou organizações como OPEP ou FPLP etc. Depois de quase seis horas de filme, ainda é preciso gastar mais algum tempo na wikipedia.

Em Carlos, nenhum personagem que tenha um nome é inocente por muito tempo. Só os figurantes são bons. O filme deixa claro que as alianças são amorais e que, de um instante para o outro, ex-inimigos se juntam para eliminar seus ex-aliados. Já aparece ali, por exemplo, a delicada cooperação entre os EUA e países e líderes ligados ao petróleo que, depois, passariam a representar o mal.

Se Capitão Nascimento já começa Tropa II na condição de herói, fica sob nossa responsabilidade saber exatamente em que momento Chacal deixou de ser o ideólogo marxista, vaidoso e atrapalhado em suas ações, para se tornar o mercenário frio, meticuloso e corrupto. Nesse sentido, o Capitão Nascimento era mais complexo em Tropa I, porque restava ali alguma ambiguidade entre os meios desumanos que adotava e os fins nobres que almejava.

Tanto Carlos quanto Tropa deixam a angústia de não saber como nomear o verdadeiro culpado.  O primeiro se limita a exibir, sempre como pano de fundo, o ponto de vista que se converterá na causa de Chacal, e que redefinirá seu alvo, a cabeça que está a prêmio. O segundo ainda tenta coordenar as coisas numa intrincada relação de causas e efeitos (e que sempre exige a intervenção da voz em off do Capitão Nascimento).

Para demostrar que não há simplesmente um vilão, Tropa de Elite II apela para a noção de “sistema”. Mas, sem querer enfrentar a complexidade desse conceito, o filme quase o transforma num personagem oculto, ou seja, novamente num vilão. É interessante demonstrar ao público que a corrupção é sistêmica, isto é, enraizada de modo insconsciente em ações muito distintas, alimentada por um conjunto complexo movimentos e de relações, mais do que por um centro de decisões. Desse modo, o poder é algo que circula de modo coordenado nas práticas cotidianas, aquilo que Foucault chamou de “microfísica do poder”.

Mas perceber um poder como sistema deveria ser uma forma de enfrentá-lo em suas sutilezas, não uma explicação sobre a impossibilidade de combatê-lo. O sistema, a estrutura, o organismo é algo mais abstrato, mas que ainda pode ser aprrendido por um conhecimento ajustado à sua complexidade. Mas Capitão Nascimento, esse herói rude, só consegue dizer “a culpa é do sistema” do mesmo jeito que se dizia “foi Deus quem quis assim”.

Mesmo que o filme estimule a pensar nesse fantasma que é o sistema, acho mais convincente o que parece se depreender do filme Carlos, quando ele evita grandes explicações: a idéia de que o poder é amoral, de que os movimentos da história têm algo de aleatório, de que as motivações por trás das alianças são sempre de imediatas, de que a ilusão de paz só pode ser alcançada no breve instante de inércia em que todos tem uma arma apontada para suas cabeças.

No final das contas, são dois filmes muito bem feitos, com escolhas estéticas diferentes. Tropa de Elite é sofisticado em sua linguagem. Equipara-se às boas produções norte-americanas no uso dos recursos técnicos e narrativos do cinema, algo que a maior parte dos filmes nacionais fica devendo. Carlos é simples, está longe de ser experimental, continua sendo um filme de ação feito para a TV. Equivale ao olhar atento que dedicamos ao jornal todas as manhãs, enquanto nosso pensamento não cessa de formular discretamente questões sobre um mundo que jamais chegamos a compreender.

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Carlos deve chegar como série em algum canal brasileiro de TV ou, pelo menos, nos cinemas, numa versão de cerca de três horas prometia pelo diretor. Ouvi também notícias de que é possível baixar pela internet, com legendas em português.

A trilha do filme é incrível (Brian Eno, New Order, Wire, The Feelies, Chico Buarque & Pablo Milanez), mas não encontrei nem na Amazon. Se alguém souber de algo, avise.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

2 Respostas

  1. Achei incrível sua comparação!
    Apenas um ponto de discordância, não penso que o Capitão Nascimento deixa um ar de “a culpa é do sistema” sai do cinema, me sentindo culpado e culpando a todos, pela negligência política e cultural. Claro que num sentimento contido, abafado pela idéia de que muito dificilmente poderia ser diferente.

    Mas claro, você falou com tanta propriedade que até eu acredito mais na sua visão do que na minha… 😀

    Bom, verei o filme novamente!

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