Tema: Fotografia Contemporânea

Coisas como elas são

Rubens Fernandes Junior | 11.jun.2013

Foi uma revolução quando Edwin Land, em 1947, apresentou ao mundo o pioneiro processo fotográfico instantâneo: a Polaroid. Curiosamente, um pouco antes disso e nos primeiros anos de atividade de sua empresa, convidou diversos artistas para testarem as câmeras e os filmes que seus engenheiros criavam no laboratório. Mais uma vez, a arte e a ciência estavam juntas, mas desta vez sem restrições e questionamentos. O processo colaborativo intencionava testar a qualidade da imagem e buscar alternativas que pudessem contemplar o desejo humano de acelerar processos e agilizar a comunicação.Leia Mais
Cao Guimarães é um artista e cineasta que tem se empenhado para diminuir a distância entre esses dois campos, mas que, de fato, sempre foi visto mais confortavelmente no circuito de galerias e bienais do que nas salas de cinema. Uma amostra significativa de sua produção, que inclui também seus longa-metragens, está sendo exibida agora no Itaú Cultural, em São Paulo. O título da mostra, Ver é uma fábula, é emprestado do livro Catatau, de Paulo Leminski, e nos desarma das questões que tendemos a colocar sobre a veracidade daquilo queLeia Mais

Imagens animadas pelas sombras*

Ronaldo Entler | 15.abr.2013

Esquecemos o quanto, um dia, a caverna foi acolhedora. Escura, ela era misteriosa e convidativa, assim como a paisagem fora dela que, mesmo iluminada pela luz do dia, não se revelava por completo. Se era preciso percorrer longas distâncias para buscar meios de sobrevivência, era necessário reencontrar a caverna, pelo teto que ela oferecia, mas também pelas paredes: com as imagens que nelas se desenhavam os homens construíam seus rituais e negociavam com a natureza aquilo que sua luz não permitia enxergar. Tanto na claridade quanto na penumbra, pelo ladoLeia Mais

A crueldade que reivindica o fantasma da fotografia*

Cláudia Linhares Sanz | 8.abr.2013

Da série de fatos inexplicáveis que são o universo ou o tempo acrescentaria a fotografia. Uma espécie gabinete mágico, a espera de que algo aconteça para, enfim, revelar-se. Sua sobrevivência histórica é ainda mais enigmática. Hoje? Entre tantas tecnologias inovadoras, entre tantos hibridismos imagéticos: como poderia a fotografia não ter sido totalmente tragada pelas famílias de imagens que não cessam de se multiplicar e fundir-se? Sua persistência é, provavelmente, acontecimento que ninguém poderia pressentir. A despeito dos prognósticos mais acurados de teóricos e pensadores da mais alta qualidade, que avistavamLeia Mais
Imagens Posteriores, de Patricia Gouvêa, é um livro aparentemente simples: há nele uma temática e uma estratégia que se revelam rapidamente e que atravessam todas as suas páginas. Mesmo assim, permanece difícil nomear aquilo que a artista fotografa, e o modo como fotografa. São viagens, paisagens, borrões, elementos bem situados no repertório da fotografia. Ainda assim, o olhar não se acomoda tão facilmente ao conjunto que encontramos. Convidado a discutir esse trabalho, pareceu-me necessário repensar os termos a que recorreria. No final das contas, o que deveria ser apenas umLeia Mais
Num lance de dados, Mallarmé, poeta e esteta do século XIX afirmou que tudo no mundo existe para terminar em livro. Susan Sontag em um dos seus ensaios reforçou essa ideia adiantando que tudo termina em fotografia. Com boa dose de precisão, hoje é possível ampliar ainda mais a ideia e afirmar que tudo terminará num livro de fotografia. O sonho de todo fotógrafo é ver o seu trabalho editado e publicado em livro. Afinal, o livro bem impresso e acabado mostra um momento de maturidade profissional do autor eLeia Mais
É sempre muito difícil escrever sobre o trabalho de uma pessoa muito querida e admirada como Nair Benedicto. Seu nome reina solitário na constelação da fotografia brasileira e está inscrito na história como uma autora engajada na grande aventura humana. Sua fotografia sempre foi politizada e independente, lírica e amorosa, suficientemente forte. Avassaladora. O livro – VI VER, editado por ocasião do FestFotoPOA – é uma oportunidade para a nova geração conhecer melhor sua trajetória, e se surpreender com a edição das imagens que espelha os dilemas centrais da políticaLeia Mais
Acabo de voltar de Nova York, haverá o que contar aqui em breve. Mas a viagem começou um tanto antes, sobretudo com dois documentários que vi recentemente, News From Home (1977), de Chantal Akerman e Lost Book Found (1986), de Jem Cohen. De algum modo, foi a partir deles que surgiu o desejo de fazer essa viagem. São olhares muito distintos. Akerman, recém chegada da Bélgica, mostra em toda sua extensão as dinâmicas que descobre nessa cidade. Parada ou em movimento, permanece sempre receptiva aos acontecimentos, mesmo quando eles demoramLeia Mais
Esta 30ª edição da Bienal de São Paulo parece ter feito as pazes com o olhar. O espaço dedicado aos artistas é generoso: de cada um deles, o que encontramos não é apenas uma amostra, mas um percurso. Isso nos dá o tempo mínimo para dialogar com suas produções. As informações estão disponíveis, enriquecem esse diálogo, mas não estão lá para compensar com retórica o fracasso da produção de sentido. Há muito o que debater, mas há também muito o que ver em silêncio. Alguns espaços vão além, e colocam emLeia Mais

Entre Morros – excesso de referência e abstração

Rubens Fernandes Junior | 1.out.2012

A cada novo ensaio fotográfico de Claudia Jaguaribe nos deparamos com reinvenções que buscam sintonizar suas inquietações visuais com os desafios da contemporaneidade. Viver hoje exige, antes de tudo, estar antenado diante da multiplicidade das ações simultâneas que nos cercam e do ritmo acelerado imposto pelas tecnologias que nos empurra para um estado de dúvida e indeterminação. Afinal, como sobreviver e como se inserir criativamente nessa situação de permanente incerteza? É com essa perspectiva que podemos avaliar seu livro mais recente, Entre Morros, editado pela Cosac Naify que traz aindaLeia Mais
As casa antigas sempre me intrigaram. Morei dez anos num sobrado cujas portas e janelas, de madeira, não fechavam direito de tão antigas. O teto, também de madeira, ‘ecoava’ tudo que acontecia no andar de cima. De anos em anos, as paredes sujas – as marcas dos pés debaixo da escrivaninha, a disposição dos quadros, o arranhado das costas das cadeiras, o decalque da bola atirada contra a parede, o queimado do sol à direita de meu quarto – eram vestígios substituídos pela pintura branca. A cada sucessiva pintura refaziam-seLeia Mais

Viagens, aparências e aparições

Rubens Fernandes Junior | 7.ago.2012

Nestas últimas décadas, valorizou-se uma fotografia que se destaca tanto pela precariedade técnica quanto pela imagem difusa e irremediavelmente ruidosa. Nada contra essas decisões estéticas. Em contrapartida, alguns artistas fortaleceram a autonomia figurativa da fotografia, assumindo-a por inteiro. Essa segunda variante, que também é uma atitude conceitual da cena contemporânea, além de ampliar o campo de investigação artística, vê a imagem técnica como livre expressão, realista e fecunda, resultado direto da própria natureza do dispositivo. E isso é que vemos na exposição de João Luiz Musa na Galeria Luciana Brito,Leia Mais

A fotografia como teatro da memória*

Mauricio Lissovsky | 4.jun.2012

De onde vêm estas cenas de Luis Gonzalez Palma? Da memória – é fácil responder. O próprio artista nos diz em um texto de apresentação de seu trabalho: “memórias imaginadas”.  Mas que diferença há entre “memórias imaginadas” e nossas recordações vulgares? Mesmo aquelas que a distância no tempo esmaeceu? Walter Benjamin escreveu uma vez que, na hora da morte, isso que passa pela cabeça dos homens são como as figurinhas que colecionava quando criança – figurinhas que envolviam um feixe de balas em forma de palitos. Isto é, são imagensLeia Mais
O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2010, com o filme Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas. É uma narrativa repleta de fantasia sobre um homem que, com a proximidade da morte, reencontra pessoas as que ama, e também lugares, memórias e imagens ligadas a seu passado e a suas outras vidas. Neste ano, Apichatpong retorna ao festival apresentando fora da mostra competitiva dois novos projetos: o documentário Mekong Hotel e o curta Ashes, ambos de 2012. Este último é oLeia Mais

Fischli & Weiss: a comédia dos objetos

Ronaldo Entler | 7.maio.2012

Morreu na semana passada, aos 66 anos de idade, o artista suíço David Weiss que, desde o final dos anos de 70, trabalhava em parceria com Peter Fischli.  A dupla Fischli & Weiss se consagrou com várias séries fotográficas que foram, no entanto, pouco reconhecidas pelos críticos de fotografia. Entendidas como registros de esculturas e instalações, suas fotos pareciam manter certa subserviência diante de técnicas mais consagradas. Não demonstravam portanto a autoridade conquistada a duras penas pelos fotógrafos. Não raramente, a história da fotografia se pauta por essa mágoa e,Leia Mais

Wolfgang Tillmans: engenharia do acaso

Ronaldo Entler | 16.abr.2012

As imagens de Wolfgang Tillmans são simples mas, como conjunto, seu trabalho é de difícil apreensão. Não é desses autores que a gente entende buscando referências em livros ou na internet. Quando fazemos isso, fica sempre a impressão de que as imagens não se conectam. Uma exposição panorâmica como a que está agora no Museu de Arte Moderna de São Paulo não muda essa leitura, mas permite constatar o modo como suas imagens efetivamente não se conectam: reconhecemos que o aleatório se constrói ali como uma arquitetura. Não é suficienteLeia Mais

Fotografias radiantes II

Rubens Fernandes Junior | 6.dez.2011

A produção fotográfica atual é quantitativamente alucinante e sua circulação é garantida pelas novas plataformas tecnológicas, mas fica evidente que é quase impossível destacar as singularidades visuais. Será que a fotografia passa por uma crise de aceitação e até mesmo de criação? Haveria uma nova maneira de entender a fotografia como a representação maquínica do nosso tempo?  Diante desse impasse e da dificuldade de redefinir seus parâmetros, é inevitável que apareçam alguns pressupostos que nos convidam a repensar a fotografia. O importante é que a fotografia continua provocando discussão eLeia Mais

O olhar como performance

Ronaldo Entler | 26.set.2011

A atividade do olhar é normalmente entendida como captação discreta e passiva dos movimentos do mundo. Mas o próprio olhar é movimento, como diz Alfredo Bosi, “com propriedades dinâmicas de energia e calor graças a seu enraizamento nos afetos e na vontade” (“Fenomenologia do Olhar”, 1988. p. 77). Alguns artistas buscam reconhecer os momentos em que o olhar revela sua espessura, em que se torna por si mesmo uma performance, gesto que afeta também aquilo que é visto. Quando o olhar se torna visível, seus vetores compõem um enredo: oLeia Mais
O post anterior se encerrou com a seguinte questão: quais as formas de lidar com a nova escala de produção e circulação de fotografias? A “quantidade” de imagens disponível na era da fotografia digital e da internet parece dar uma nova “qualidade” ao problema, mas os sentimentos que temos diante disso não são propriamente novos, o deslumbramento e a desconfiança são coisas inerentes à qualquer mudança. Por exemplo, dizem que os pintores impressionistas se encantaram com o modo como o mundo se transformava quando visto de dentro de um trem, enquantoLeia Mais
Onde a revolução digital não aconteceu Há vinte anos, especulávamos sobre os impactos das câmeras digitais que estavam para chegar ao mercado, tentávamos entender a mudanças no estatuto das imagens que elas produziriam, e prevíamos uma crise em sua credibilidade pelas facilidades de manipulação. Autores como André Rouillé sugerem que estamos diante de uma imagem de natureza tão distinta, que é um equívoco chamá-la ainda de fotografia (A fotografia, p. 16 e 452). Na prática, creio que essa mudança na forma de inscrição da imagem tenha desdobrado em promessas e ameaçasLeia Mais