Tema: Crítica > Cultura contemporânea

Todo corpo merece uma imagem

Ronaldo Entler | 7.out.2013

Pacientes terminais, mulheres mastectomizadas, obesos mórbidos, mutilados, vítimas de violência sexual, corpos em decadência, sobreviventes de catástrofes, criminosos no corredor da morte são, dentre tantos outros, personagens que têm sido vistos em séries fotográficas que ganham grande repercussão, sobretudo pelas redes sociais. Aqui, uma antiga curiosidade do olhar é confrontada com o desejo de construir novas formas de abordagem pela retrato fotográfico. Trata-se de algo difícil de discutir. Para começar, não é fácil definir que tipo de personagem é esse, exatamente porque a noção de “tipo” é quase sempre desastrosaLeia Mais

Ver é inquietar-se

Rubens Fernandes Junior | 23.set.2013

Num momento em que a visibilidade e a transparência da comunicação determinam o quanto somos reconhecidos nos diferentes grupos em que atuamos, não deixa de ser interessante pensar no velho cartão postal como uma mídia aberta, com imagem e texto, que circulou livremente durante décadas mundo afora. Hoje, foi substituído pelos aplicativos tipo Instagram, WhatsApp, entre outros, locais de livre e imediata circulação de imagens e textos. Sou colecionador de cartões postais e, de tempos em tempos, eu me surpreendo com mensagens inscritas no verso dos cartões, que operam comoLeia Mais
Esta semana, uma amiga artista quis discutir a definição de “ensaio autoral”, tal como aparecia num edital, porque não se sentia confortável pensando sua produção fotográfica nesses termos. Essa é uma expressão que se naturalizou no ambiente da fotografia mas que, de fato, raramente é usada por artistas que trabalham com outras linguagens, ou mesmo por aqueles que chegam à fotografia, mas que têm sua formação num universo mais amplo das artes plásticas. Podemos fazer desse estranhamento uma boa ocasião para desconstruir as expectativas depositadas em nosso vocabulário ao longo daLeia Mais
Preâmbulo Demorei a conhecer a nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP, no Ibirapuera. Em princípio, por falta de tempo. Mas, talvez, também por um trauma: por conta de um carro clonado, frequentei durante anos a máquina burocrática do Detran que ocupava aquele edifício há alguns anos. Eu recebia em média duas novas multas a cada mês, todas trazendo a foto de um carro quase igual ao meu cometendo infrações pelas ruas da cidade. O que era lido nessas fotografias (bom pretexto para retomar o foco deste blog)?Leia Mais
A fotografia foi considerada uma forma menor de expressão porque, supostamente, limitava-se a coletar do mundo, por meio de um gesto mecânico, fragmentos de formas prontas e já resolvidas em seus sentidos. Em resposta, a afirmação da fotografia como arte exigiu reduzir a realidade a um estado de matéria-prima insignificante, disponível para a manipulação do fotógrafo e para a projeção de sentidos que lhe são totalmente subjetivos. Se essas posições extremas nos deixam uma lição, é a necessidade de enxergar o processo de criação como algo que concilia invenção eLeia Mais

A crueldade que reivindica o fantasma da fotografia*

Cláudia Linhares Sanz | 8.abr.2013

Da série de fatos inexplicáveis que são o universo ou o tempo acrescentaria a fotografia. Uma espécie gabinete mágico, a espera de que algo aconteça para, enfim, revelar-se. Sua sobrevivência histórica é ainda mais enigmática. Hoje? Entre tantas tecnologias inovadoras, entre tantos hibridismos imagéticos: como poderia a fotografia não ter sido totalmente tragada pelas famílias de imagens que não cessam de se multiplicar e fundir-se? Sua persistência é, provavelmente, acontecimento que ninguém poderia pressentir. A despeito dos prognósticos mais acurados de teóricos e pensadores da mais alta qualidade, que avistavamLeia Mais

Texto-imagem-teoria

Ronaldo Entler | 11.mar.2013

Uma vez, numa roda de conversa que incluía Lívia Aquino e Pio Figueiroa, perguntei a Maurício Lissovsky se uma teoria poderia ser estética. Ele me respondeu que não havia teoria aceitável que não fosse estética. De fato, tive muitas vezes a intuição de que os pensadores que eu mais admiro são grandes alegoristas: apropriam-se de imagens que, quando sobrepostas aos objetos de suas reflexões, permitem ver alguns de seus aspectos ou dinâmicas mais sutis. Os exemplos são fartos em Benjamin, Barthes, Sontag, Dubois, Flusser, Didi-Huberman, entre tantos outros. A possibilidadeLeia Mais
O post que inaugurou este blog, Fotógrafos não são normais, foi motivado pelo personagem de Joaquin Phoenix no filme Amantes (2008). Em O mestre (2012), o personagem interpretado por esse mesmo ator volta a temperar sua insanidade com um pouco de fotografia. A insanidade é agora bem mais evidente. Já a fotografia, apesar de ser um elemento totalmente secundário, constitui uma boa metáfora da questão central proposta pelo diretor Paul Thomas Anderson. O Mestre tem sido apresentado pela imprensa como uma história baseada na tal “Cientologia”, seita que tem TomLeia Mais

Minhas férias no Instagram

Ronaldo Entler | 4.fev.2013

Fim das férias. Nesse período, um lugar por onde me aventurei foi o Instagram. Lá eu procurei e fui encontrado por amigos, colegas de trabalho, alunos, alguns desconhecidos, pessoas com quem compartilho não mais que uma dezena de imagens por semana. É algo lúdico, irreverente, descomprometido com um ideal de arte fotográfica, assim como sempre foi para a maioria das pessoas. Boa parte dessa minha pequena rede é formada por pessoas que, fora dali, levam a fotografia muito a sério. Quase todos assumem essa rede como um espaço para coisasLeia Mais

Fotógrafos, humanos, às vezes, covardes

Ronaldo Entler | 17.dez.2012

Há duas semanas, um homem foi empurrado nos trilhos do metrô de Nova York. Ele tentava subir de volta à plataforma enquanto Umar Abbas, um fotógrafo freelancer, registrava a cena. Uma das imagens, feita pouco antes do homem ser atropelado pelo trem, foi publicada na primeira página do tabloide The New York Post.  O episódio trouxe à tona um debate que retorna de tempos em tempos sobre a ética do jornalismo. Muitos lembraram da foto feita pelo sul-africano Kevin Carter, que mostra um urubu à espreita de uma criança subnutridaLeia Mais

Realegorizações da caverna

Ronaldo Entler | 13.nov.2012

  Este texto norteou a conversa com Pio Figueiroa (texto disponível no site da Cia de Foto), no Espaço Veredas, sobre a exposição A Espessura da Travessia. Ali, foram reunidos trabalhos de um grupo de alunos da Pós-Graduação em Fotografia da Faap, realizados a partir da leitura de textos de Platão. As leituras foram conduzidas pela professora a Edilamar Galvão.   Platão, criador de imagens Como supor que seria possível encontrar em Platão um convite à  fotografia. Justo ele que tem fornecido, ainda hoje, duros argumentos contra a produção de imagens.Leia Mais

Arte, mercado e especulação

Ronaldo Entler | 29.out.2012

Diante da dificuldade de justificar o valor que algumas obras contemporâneas alcançam em leilões internacionais, parece evidente a existência de uma bolha especulativa. Antes de seguir, vale pensar um pouco o sentido do que chamamos de especulação. Há mais de um século, a economia não trata necessariamente da circulação de bens, mas de representações que podem ser lastreadas por uma riqueza potencial, aquela que se espera gerar a partir de uma capacidade produtiva demonstrada. No capitalismo tardio (ou pós-moderno, ou pós-industrial, ou seja lá o nome que se queira dar)Leia Mais

O silêncio e a passividade de um novo começo

Rubens Fernandes Junior | 23.out.2012

Os tios mais velhos reclamam porque nunca poderão ver aquelas centenas de fotografias produzidas em uma festa familiar. Em contrapartida, as crianças se deliciam com o imediatismo das múltiplas telas luminosas que mostram essas mesmas fotografias reclamadas passando de mão em mão. Enfim, o clássico conflito de gerações entre os mais velhos e os mais jovens, só que desta vez muito mais acentuado, uma vez que exige algum domínio técnico e demais complexidades. Na verdade, existe entre eles uma enorme diferença perceptual que envolve justamente o ato de fotografar (ritualLeia Mais

Quatro lições de Chris Marker

Ronaldo Entler | 24.set.2012

Viagens no tempo aparecem de forma recorrente na obra do fotógrafo e cineasta Chris Marker, a exemplo do que vemos em seus trabalhos mais conhecidos, o “foto-romance” La Jetée (1962) e, mais sutilmente, em Sans Soleil (1983).   Viajar no tempo é algo que ele mesmo faz na relação que estabelece com seus arquivos. Desde seus primeiros trabalhos, ele assume transitar por um terreno instável: os sentidos das imagens. E faz delas o palco em que a história contracena com o presente. Dessas experiências, podemos tirar algumas lições: 1. as imagensLeia Mais
Bram Stoker não inventou o vampiro, ele apenas deu um lugar na literatura moderna a esse personagem que já vagava pelas lendas europeias. Humanizado e romântico, seu Drácula se transformou no modelo de vampiro que foi vivido no cinema por Bela Lugosi, Vincent Price, Christopher Lee e Gary Oldman. Com seu sangue impuro, o vampiro é um ser de linhagem sempre indefinida. Ignoramos sua origem, sabemos apenas que ele sempre retorna. Apesar da má fama, é um ser tolerante: está sempre disposto a reencarnar em corpos atualizados que dialogam comLeia Mais
Não vem ao caso discutir aqui se publicidade é ou não uma forma de arte. Precisaríamos de mais fôlego e espaço, e a história da fotografia nos mostra bem o quanto esse debate nos empurra para posições dogmáticas. De todo modo, vale focar alguns pontos de aproximação e distanciamento. Penso, por exemplo, que os publicitários, com o caráter impuro e utilitário de sua atividade, sabem inserir suas criações na vida cotidiana das pessoas mais do que a média dos artistas. Para o bem e para o mal, a publicidade ocupaLeia Mais
Em junho, estive no Cannes Lions, o mais importante evento do mercado publicitário. O festival conta com uma programação intensa de workshops e debates, mas a ansiedade do público se concentra nas Shortlists, mostra de trabalhos pré-selecionados que disputam os “Leões”. Esses são os prêmios que definem o prestígio internacional das agências. O festival em si já é notícia velha, mas algumas questões exigem algum tempo de digestão. Olhando as Shortlists, sobretudo as categorias mais tradicionais como Press e Outdoor, foi inevitável que eu me perguntasse: e a fotografia, aLeia Mais

A imagem como teoria

Ronaldo Entler | 21.maio.2012

Neste último sábado, estive no I Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia, no MIS, conversando sobre a experiência do Icônica com os amigos Fernando de Tacca, da Revista Studium, e Mane Adaro, do blog Chilenización de la Fotografia. A proposta era pensar a internet como espaço de difusão do pensamento sobre a fotografia. O Icônica nasceu da vontade de compartilhar de um modo mais informal nossas pesquisas e intuições, e da constatação de que a internet é um grande espaço para fazer circular o pensamento. O blog é, de fato,Leia Mais
Na chamada da propaganda da Canon, quando Sofia é interrogada pelo locutor sobre qual o significado de ter refeito a fotografia, ela afirma ter sido a chance de recuperar o que deveria “ter dado certo na primeira vez e não deu”. Em seu depoimento, Sofia ‘reflete’: “Os grandes momentos escapam, e não temos oportunidade de reconhecê-los pelo que eles são. Quando se tem a oportunidade de observá-los, aí podemos olhar para trás e perceber que se tratava de um grande momento que não se tinha reconhecido”. As histórias apresentadas noLeia Mais
As fotografias nascem quando se tornam legíveis – e essa legibilidade diz respeito ao que se pode ver, pensar e acreditar em determinado ponto crítico de uma época. Como já mencionado, todo presente é determinado pelas imagens que lhe são sincrônicas. Cada agora é o agora de uma capacidade de perceber, tornar legível não o passado em si, mas a constelação entre a materialidade do agora atual e do agora virtual. A visibilidade de uma imagem – aquilo que se atualiza numa fotografia de modo imanente e singular – dependeLeia Mais