Tema: Arte > Artes plásticas

É suficiente às vezes pensar a arte como expressão de um contexto histórico ou, pelo menos, de um modelo de pensamento, uma ideologia, a visão de mundo de um sujeito. Isso projeta sobre as obras uma legibilidade apaziguadora. As coisas se complicam quando a imagem é tomada como um instrumento de exploração que se contamina da matéria que investiga. Ela assume uma existência impura, impregnada das alteridades que encontra pelo caminho. Aqui, não será suficiente pensar em arte-tecnologia, arte conceitual ou arte transcendental. Não se nomeará tão facilmente os engajamentosLeia Mais

Pichação como cicatriz

Ronaldo Entler | 6.mar.2017

Não sou apreciador da pichação. Simplesmente não gosto, como também não gosto de boa parte dos edifícios e viadutos que compõem a paisagem de São Paulo. Mas pichação, prédios e viadutos são fenômenos inerentes ao crescimento urbano. Gostando ou não, o melhor que posso fazer é usufruir deles: optei por morar num prédio porque acho mais seguro, passo por viadutos quase todos os dias e me esforço para entender o sentido da pichação. Tento não cair em algumas falácias de quem não gosta: tem que proibir prédios, tem que derrubarLeia Mais
A Folha de S. Paulo repercutiu a polêmica envolvendo o jovem artista brasileiro Andrey Zignnatto, que foi acusado pelo crítico Maxence Alcalde de plagiar obras do francês Vincent Mauger (“A espinhosa questão do plágio na arte contemporânea“). A conclusão se baseia numa semelhança desconcertante e numa questão de cronologia: Mauger fez antes, Zignnatto fez depois. O texto não traz nenhum fato que demonstre que um artista conhecia a obra do outro. Não conheço Zignnatto e não posso dizer de onde vêm suas referências. Talvez se trate mesmo de plágio. Mesmo assim,Leia Mais
Dentro da tradição das academias de arte, o retrato sempre teve um lugar relativamente digno, um pouco abaixo da pintura de cenas históricas, mas acima da paisagem e da natureza morta. Distante da concepção institucionalizada de arte que resultou nessa hierarquização, o retrato tinha também uma função utilitária: era parte de rituais que permitiam dar ao sujeito uma posição social de destaque e gerir a memória que seria deixada para a posteridade. É o mesmo ritual que a fotografia veio a popularizar no século XIX, dando ao pequeno burguês a chanceLeia Mais
La Maison Rouge é um espaço de exposições em Paris criado por um colecionador de arte, Antoine de Galbert. Assemelha-se ao que seria para nós uma galeria de grande porte, mas não está diretamente dedicada à comercialização de obras. Como outras tantas instituições culturais privadas da cidade, abriga exposições importantes, mas passa despercebida à grande maioria dos turistas. São lugares relativamente discretos, aparecem apenas nos roteiros culturais mais especializados e, para quem passa na rua, não são muito visíveis como espaços de visitação. Cobram ingresso para as exposições e, com tudo isso,Leia Mais
A fotografia foi considerada uma forma menor de expressão porque, supostamente, limitava-se a coletar do mundo, por meio de um gesto mecânico, fragmentos de formas prontas e já resolvidas em seus sentidos. Em resposta, a afirmação da fotografia como arte exigiu reduzir a realidade a um estado de matéria-prima insignificante, disponível para a manipulação do fotógrafo e para a projeção de sentidos que lhe são totalmente subjetivos. Se essas posições extremas nos deixam uma lição, é a necessidade de enxergar o processo de criação como algo que concilia invenção eLeia Mais
Cao Guimarães é um artista e cineasta que tem se empenhado para diminuir a distância entre esses dois campos, mas que, de fato, sempre foi visto mais confortavelmente no circuito de galerias e bienais do que nas salas de cinema. Uma amostra significativa de sua produção, que inclui também seus longa-metragens, está sendo exibida agora no Itaú Cultural, em São Paulo. O título da mostra, Ver é uma fábula, é emprestado do livro Catatau, de Paulo Leminski, e nos desarma das questões que tendemos a colocar sobre a veracidade daquilo queLeia Mais

Fischli & Weiss: a comédia dos objetos

Ronaldo Entler | 7.maio.2012

Morreu na semana passada, aos 66 anos de idade, o artista suíço David Weiss que, desde o final dos anos de 70, trabalhava em parceria com Peter Fischli.  A dupla Fischli & Weiss se consagrou com várias séries fotográficas que foram, no entanto, pouco reconhecidas pelos críticos de fotografia. Entendidas como registros de esculturas e instalações, suas fotos pareciam manter certa subserviência diante de técnicas mais consagradas. Não demonstravam portanto a autoridade conquistada a duras penas pelos fotógrafos. Não raramente, a história da fotografia se pauta por essa mágoa e,Leia Mais

A fotografia e a Semana de 22 – Parte II

Rubens Fernandes Junior | 26.mar.2012

A Semana de Arte Moderna comemora seus noventa anos e acredito que ninguém pode negar sua importância como evento que rompeu alguns paradigmas que imperavam na literatura e nas artes em geral daquele momento. Entendo a Semana como uma pequena insurreição que deve sim ser celebrada, mas hoje, com o distanciamento histórico, podemos também apontar alguns vazios que não foram ocupados pelos precursores do movimento. Como entender, por exemplo, a ausência da fotografia e do cinema, duas linguagens em plena ebulição nas primeiras décadas do século passado? Nesse mesmo período,Leia Mais

A fotografia e a Semana de 22 – Parte I

Rubens Fernandes Junior | 26.fev.2012

Na celebração dos noventa anos da Semana de Arte Moderna, há várias homenagens e publicações que tentam dar conta da extensão e da importância que o evento teve nas artes em geral. Mas poucos discutem as lacunas e as ausências cada vez mais evidentes à medida que nos distanciamos no tempo. No dia 15 fevereiro de 1922, duas semanas antes do Carnaval, teve início a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Em tese, este acontecimento cultural com preocupações nacionalistas poderia ter ampliado sua ressonância caso seLeia Mais
Três eventos recentes e importantes – o SP-Arte/Foto, o Paraty em Foco e o VídeoBrasil – me fizeram pensar sobre a presença tensa do fotógrafo em alguns ambientes dedicados às artes. Em agosto, quando o Videobrasil divulgava sua lista de artistas selecionados, encontrei com Solange Farkas, curadora do evento, que me perguntou: cadê o pessoal da fotografia? Certamente, o vídeo se expandiu na última década tanto quanto a fotografia ou qualquer outra linguagem artística. Mas, acima de tudo, o evento viveu uma grande abertura. Basta relembrar que, em 2009, tivemos emLeia Mais
O post anterior se encerrou com a seguinte questão: quais as formas de lidar com a nova escala de produção e circulação de fotografias? A “quantidade” de imagens disponível na era da fotografia digital e da internet parece dar uma nova “qualidade” ao problema, mas os sentimentos que temos diante disso não são propriamente novos, o deslumbramento e a desconfiança são coisas inerentes à qualquer mudança. Por exemplo, dizem que os pintores impressionistas se encantaram com o modo como o mundo se transformava quando visto de dentro de um trem, enquantoLeia Mais

Inhotim: espaço e experiência

Ronaldo Entler | 21.mar.2011

Neste carnaval, fui conhecer Inhotim. Eu sabia que encontraria obras importantes de grandes artistas, algumas delas já vistas em outras montagens. A surpresa não é a qualidade das obras, mas a experiência. Ali circulam artistas, críticos, estudantes, turistas, gente perdida, de tudo um pouco. Vez ou outra, uns estranham os comportamentos dos outros, mas o espaço é capaz de satisfazer igualmente a todos. Inhotim: GoogleMaps Assimilamos a ideia de que a arte é uma atividade dotada de autonomia, que se justifica por si mesma. Mas a defesa dessa especificidade temLeia Mais

Arqueologia de um filme de Godard

Ronaldo Entler | 16.dez.2010

O Dobras Visuais lançou uma pergunta a uma série de convidados: qual imagem chacoalhou você na 29a Bienal? Vale a pena conferir as respostas. Escolhi Je vous salue, Sarajevo, de Jean-Luc Godard, filme de pouco mais de dois minutos em que Godard disseca uma fotografia feita durante a guerra nos Balcãs, na antiga Iugoslávia.  Mandei para o Dobras um breve comentário. Aqui, deixo um relato sobre a aventura que foi mergulhar nesse pequeno filme. Pensar qualquer obra de um artista erudito implica fazer uma espécie de arqueologia. Você encontra coisasLeia Mais
No trabalho que levou à Bienal, Jonathas de Andrade toma como referência uma série de cartazes propostos pelo educador Paulo Freire para a alfabetização de adultos, e estabelece relações entre novas imagens e palavras a partir de conversas que manteve com um grupo de mulheres analfabetas (vejam mais informações no site do artista). Barthes disse uma vez que a língua é fascista, não porque impede de dizer, mas porque obriga a dizer (Barthes, A aula).  Usar uma palavra é filiar-se a uma estrutura cuja tradição espera impor um sentido. Cabe aoLeia Mais
Três posts abaixo, eu falava da sobrevivência de um “valor de culto” na fotografia, emprestando de Barthes e Didi-Huberman a comparação com o Sudário de Turim, como forma de expressar um aspecto misterioso e sagrado que existe em algumas fotos. Zapeando a TV dias depois, parei num programa do Discovery Channel que falava extamente sobre o Sudário (na última experiência que tive com esse canal, aprendi muito sobre os possíveis resultados do duelo entre um urso polar e uma morsa). Nesses pseudo-documentários as coisas sempre adquirem um aspecto espetacular, comLeia Mais

Muita fotografia e vídeo na Bienal

Ronaldo Entler | 19.set.2010

Fui procurar saber o que haveria de fotografia na 29a Bienal de São Paulo: Guy Veloso, Jonathas de Andrade, Rochelle Costi, Rosangela Rennó, Miguel Rio Branco, Alice Miceli, Alfredo Jaar, Nan Goldin são nomes que consigo identificar na lista oficial de participantes. Certamente, há outros fotógrafos que não conheço, e artistas menos óbvios que eventualmente podem se aproximar dessa linguagem. Já se insinuou que a intensa presença da fotografia e do vídeo nas Bienais coincidia com a escassez de obras consagradas e com o fim dos “núcleos históricos”, sintomas deLeia Mais

O retrato de Zidane

Ronaldo Entler | 18.maio.2010

Em época de copa do mundo, vale lembrar de um filme experimental sobre um jogador que se aposentou na última edição do evento: Zidane, um retrato do século XXI (Zidane, un portrait du 21e siècle, 2005). Dirigido por dois artistas com boa presença na agenda européia de arte contemporânea, o escocês Douglas Gordon e o francês Philippe Parreno, o filme foi rodado durante a última partida de Zinedine Zidane pelo Real Madrid (em 2005, no estádio Santiago Bernabéu), com todas as câmeras focadas no jogador, independentemente do que acontece emLeia Mais

"Pixo" na Bienal

Ronaldo Entler | 15.abr.2010

(… entre um post e outro, um pensamento em voz alta, mesmo deslocado dos nossos temas…) Mônica Bergamo noticiou na Folha Ilustrada de segunda-feira que o grupo de “pixadores” que fez um protesto na 28a Bienal de São Paulo foi convidado a integrar a 29a edição do evento. Naquela ocasião, o curador Ivo Mesquita criticou duramente a ação. Deixo aqui algumas dúvidas. O gesto de Moacir dos Anjos, atual curador, pode ser lido de modo ambíguo: pode representar a abertura do evento a manifestações não institucionalizadas, ou pode ser umaLeia Mais

Gordon Matta-Clark: o registro como obra

Ronaldo Entler | 23.fev.2010

Gordon Matta-Clark (1943-1978) pertenceu a uma geração de artistas que, a partir dos anos 60 e 70, rompeu com as linguagens tradicionais para realizar ações cujo valor está sobretudo na experiência e nos debates que propiciam. Seus trabalhos mais importantes são intervenções em espaços urbanos, às vezes sutis como a compra de propriedades minúsculas e inúteis que restaram da especulação imobiliária em Nova York; às vezes grandiosas, como orifícios e recortes gigantescos feitos em edifícios que estavam prestes a desaparecer da paisagem. Para nós, é uma boa oportunidade para discutirLeia Mais