Carta a Rodrigo, de Valparaíso

[02.maio.2014]

São Paulo, 29 de abril de 2014.

Querido Rodrigo Gomez Rovira,

Há tempos queria tê-lo escrito para falar de mim. Voltei às pressas de sua cidade tentando resolver o fim de uma história profissional construída em grupo, que me colocou, abruptamente, em uma nova trajetório de trabalho. Uma saída corrida em busca do que não havia jeito…

Não escrevi antes. Esperava ter coragem, esperava o tempo que você merecia para saber sobre a minha volta tão rápida a São Paulo. Mas há poucos dias vi a sua cidade pela notícia de um acidente, Valparaiso queimando em um estrondoso incêndio. Que desgraça. Fui à internet buscar imagens desse fogo e refazê-las para que tornassem minhas. Refotografando-as para tê-las. Lembrando que entre as belezas de seu país, existe uma face de solidariedade expressa em todos os bombeiros: pois são voluntários no sentido mais engajado desta palavra.

Em Valparaíso conheci tanta coisa boa. Gente, lugares. Você, Rodrigo, foi o símbolo de tal experiência. Eu saí dai como nunca me despedira de cidade alguma. E foi assim porque tinha pressa de casa; em tentar reaver o que se perdia na minha ausência. Saí daí com uma cidade na memória, cheia por histórias, passeios que fiz com Juca – ela que não conteve a lágrima ao lembrar-se de Valparaíso em tão recente desastre; ao lembrar-se de você, generoso. Sua calma, sua amizade sempre dispostas.

História. Esta que dedico, desde que conheci tamanha generosidade, aos seus. Ainda estou processando uma carta para você, e ela surge na urgência de tal lembrança.

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Quando voltei, dias depois, escrevi um texto pautado pela história das fotografias realizadas em sua cidade no Chile. Este texto foi inicialmente escrito para a Revista Ícone, organizada pelo professor da UFPE, José Afonso Jr. Logo depois, as fotos foram publicadas na revista Cesárea. E contava sobre a construção de um ensaio que captei nos dias que permaneci aí com você. Você bem se lembra que ao invés de clicar, fazia tomadas e apenas filmava.  Suspendia o clique e deixava a cena enlear-se sem interrupção. Fotografias que foram tecnicamente processadas como em um filme, pois cada imagem se formou pela sobreposição de 24 frames, dando a cada uma delas a inscrição de um tempo narrativo, vertical, vertiginoso, para dentro de cada imagem final. Pensava na forma de criar um documento para um lugar no mundo que vivia, sob minha impressão, um certo ostracismo cultural em comparação ao seu ápice econômico.

Valparaíso, importante porto de circulação mundial de mercadorias até o século XIX, fora desmobilizada de sua importância por fatores e prioridades econômicas estrangeiras, entre elas a construção do canal do Panamá que refez a rota internacional de navios.

Fotografias que acumulavam em si, fragmentos de filmes captados na atualidade de sua cidade, onde foi possível ver o tempo histórico desencontrado na estrutura de uma região que já abrigou uma significativa circulação comercial em seu passado. Sentia que o lugar de Valparaíso é uma imagem histórica. Essa analogia imagética nos permite falar sobre a fotografia em um viés pelo qual os limites e o uso dessa linguagem serão expostos em sua relação com outra, a do filme, mantendo-se em seu tradicional papel de documento, adornado por uma ficção poética que sugere tal desencontro de tempos na história de um lugar no sul do mundo.

Conversamos um tanto sobre isto por aí. Minhas ideias e as suas.

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Valparaíso, no Chile, desvelou-se em uma atmosfera dupla, a primeira nítida, inusitada pela sua geografia de encostas, casas suspensas, escadas íngremes, longas; outra, uma segunda, aparecia espessa, como o seu costumeiro fog matinal, e esta tem a espessura de uma narrativa rarefeita. A arquitetura de Valparaíso demonstrava-me o quanto de dinheiro, pessoas e navios transitaram até no passado. Transparecia na cidade essa história residente numa estrutura invertida que aponta para o passado.

Tudo por ai foi muito mais do que é. Nos dias que eu e Juca estávamos aí, menos coisas circulavam e o vazio era determinante na paisagem das ruas com um ritmo de longos intervalos. Comi bem, encontrei sorrisos de uma sociabilidade amigável. E trago à memória o cheiro de um porto que foi importante no trânsito mundial do que se trazia e se levava pelo mar.

Como escreve o fotógrafo francês Chris Marker, em seu texto para o filme À Valparaíso, de Joris Ivens: “abaixo, o porto, já foi o porto mais rico, já foi meta, já foi destino, tantas vezes cantado. Outra cidade vive sobre as colinas, uma federação de vilas. 42 colinas, 42 vilas. Não outra cidade, outro mundo. Dois mundos que se comunicam por ladeiras e escadas. […]Com o sol, a miséria deixa de ser vista como miséria. Esta é a mentira de Valparaíso, sua mentira é o sol e sua verdade é o mar.[…] Ela persiste. Todas as nações marítimas lhe deixaram pequenas recordações. Quantas casas são recordações de barcos até o ponto que quase se transformam elas mesmos em barcos.[…] Arriba, abaixo, abaixo, arriba, arriba, abaixo. Um homem só com uma perna sobe as escadas com 121 degraus. Ele sabe, ele lhes conta. É preciso um coração forte e também uma boa memória. Um pode baixar pela rampa 10 vezes mais rápido do que se sobe. Uns baixam sorrindo, uns sobem arquejando. É gracioso, fatigável, solene, bizarro. Tanta gente em cima, poucos em baixo, e outrora já fora o contrário.” Você, querido Rodrigo, me mostrou este filme, logo após te mostrar o início da pesquisa que aqui descrevo.

E como fotografaria uma cidade que um dia foi tão importante em seu atual estado de um isto que foi? Como apresentar e conhecer Valparaíso, demonstrá-la pela imagem que é?

Na viagem de outubro, na oportunidade de tê-lo, meu caro, como anfitrião, convidado de seu Festival, me vi imerso nessa pesquisa fotográfica que se baseava na relação com o tempo histórico da cidade e com o atravessamento desta linguagem que comumente itinera a outros domínios, como ao do cinema por exemplo. Captei filmes para construir fotografias que inscrevem tempos, sobreposições, estratos de cenas que se constituem pelo acúmulo de quadros.

E aqui te mostro este resultado: a sobreposição dos frames que se formaram numa relação mínima de tempo, pois quase podemos tê-los por idênticos estes que se afastam pela fração mínima de 1/24 segundos. Ao sobrepormos esses quadros, sua pequenas diferenças, suas mínimas variações de luz e movimento, inscrevem uma superfície densa, que não se permite como apenas uma composição mais geométrica de linhas definidas e planas, mas aparecem como espessas. E cada frame constituinte dessas fotografias se permitem unir-se em sua transparência a seus pares.

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Espessas pois de fato estão carregadas de um tempo que lhes imprime uma espécie do tremor constituinte de sua aura e dimensão, pois cada imagem contrai fisicamente seu desenvolvimento e seu futuro, e não se valem da expectativa de se inserirem como imagens no tempo narrativo linear, mas são sobrepostas para serem únicas e assim se fazem, nessa única imagem, repletas. Esse tremor que se ver nas fotos descreve os vestígios das imagens sobrepostas como uma descrição contraditória de um cinema de imagens paradas no qual a narrativa se condensa na vertical. Os quadros tentam correr lateralmente mas se mantêm retidos, suprimidos e acumulados em um segundo. E é por esse relevo que lhe convido a caminhar.  O trabalho proposto é um filme que corre em um sequência imersiva de imagens e sabe-se que cada fotografia final é prenhe do horizonte de quadros que lhes constitui.

A cidade que você me apresentou tem a feição desgastada de uma fotografia de acervo. Um conto guardado em si, vozes remanescentes tentando achar no mundo contemporâneo um sentido para que isso não signifique um mero passado. Esse tempo em Valparaíso denuncia um modelo de uma época que dá às costas à história pela conveniência do capital. Fica o espaço do vencido, a cor pálida de um uso urbano discreto, a saudade silenciosa de ruas e lugares que vivem no solo do desencontrado. Saudade.

Toda história, os rostos, aquilo que percebia e passava por mim em um movimento que me fazia estrangeiro. Cidade anacrônica, exemplo impregnado de uma história destituída. E segue companheira de seu povo em diálogos silenciosos confirmando que essa existência depende de outras, as que ralentam tal fluxo temporal para se sentirem patrióticos no espaço de um presente.

Podíamos falar somente sobre fotografia. Especificamente sobre essas que fiz na tua companhia, nos diálogos com você, por aí ou na volta a São Paulo. Nas tantas vezes que me sentei para te escrever e não o fiz pois não saberia  o que dizer. Agora te falo sobre as lembranças de Valparaíso, dessa nossa história.Breve, mas ficou para mim. Obrigado pelos dias, não queria ter saído tão rápido. Saiba que a sua cidade nos tem. E que te envio todo sentimento possível, ação que se frustra na distância mas age pelo que nos permite as mais sinceras lembranças.

Um abraço,

Pio e família.

 

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Fotógrafo e diretor de cena, sua atuação profissional se articula entre a produção fotográfica e a pesquisa teórica em torno desta linguagem.

1 Resposta

  1. Obrigada por esse filme memorável, esplendidamente constituído por linguagens que, mesmo isoladamente, resplandeceriam toda a grandeza que contêm.
    A poética textual com pequenas pitadas de humor e ironia, como “petites touches des coulerus dans les ombres ténèbres” e o silêncio musicado, na medida e tempo certos, trazem sutileza, emoções, subjetividades, contribuindo ainda mais (sim , tudo é possível), para sua grande beleza.
    A fotografia apreende a alma do lugar, transforma o referencial em poesia.
    Essa obra de arte é a prova de que a França detém as mais belos conteúdos do mundo em prosa, verso e imagem.

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