Cao Guimarães: pequenos impulsos para grandes saltos

[01.maio.2013]

Cao Guimarães é um artista e cineasta que tem se empenhado para diminuir a distância entre esses dois campos, mas que, de fato, sempre foi visto mais confortavelmente no circuito de galerias e bienais do que nas salas de cinema. Uma amostra significativa de sua produção, que inclui também seus longa-metragens, está sendo exibida agora no Itaú Cultural, em São Paulo.

O título da mostra, Ver é uma fábula, é emprestado do livro Catatau, de Paulo Leminski, e nos desarma das questões que tendemos a colocar sobre a veracidade daquilo que os meios técnicos mostram: a vocação para a ficcionalização e para a reinvenção dos sentidos está na percepção, não começa e nem termina com a intervenção da câmera.

Para colocar em diálogo trabalhos distintos, a curadoria utiliza o espaço expositivo quase ao modo das instalações. Elas conduzem o espectador por esse espaço, mas discretamente, sem desejar imprimir qualidades alheias aos trabalhos mostrados.

Nesse conjunto, vemos que Cao Guimarães alcança uma combinação rara na arte contemporânea: projetos que não exigem conceituações prolixas, que detém o olhar em sua plasticidade bem cuidada, que convidam também à contemplação e ao silêncio, sem ansiedade para se desdobrar em explicações.

Surpreende a economia de recursos em muitos trabalhos: seus gestos são comedidos e os movimentos mínimos, ou lentos ou, pelo menos, duram o tempo necessário para serem apreendidos, e raramente chegam a compor narrativas. Como diz o artista, o que busca são os “microdramas da forma”. Nada a ver com a defesa de uma estética formalista, mas com a ideia de que os eventos ganham sentido e coesão também por meio de seus pequenos incidentes.

Isso também fica evidente na projeção de fotos da série Gambiarras (2001-2012), espécie de etnografia dos esforços de adaptação e sobrevivência, que são próprios do “terceiro mundo”, como sugere o artista. Nessa série, assim como no vídeo Mestres da Gambiarra (2008), vemos o valor estético e funcional de uma bricolagem praticada cotidianamente, que tira proveito dos encontros mais improváveis entre as coisas.

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Cao Guimarães, da série Gambiarras, 2001-2012

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Cao Guimarães, da série Gambiarras, 2001-2012

Vários trabalhos assumem um caráter documental, quase antropológico, mas sem precisar se apoiar em explicações, e sem a necessidade de encadear os acontecimentos. Apostam apenas no adensamento que as formas adquirem quando oferecidas serenamente ao olhar. Raramente encontramos premissas, apenas descobertas, e uma imensa disponibilidade do artista para mostrar o que encontra. Cao Guimarães não tem pressa, é preciso que o público também não tenha.

Mesmo os trabalhos que assumem intervenções mais conceituais – como Word/World (2001) ou Quarta-feira de cinzas (2006) – não abrem mão da plasticidade das imagens e evitam retóricas rebuscadas. Eles exigem apenas o tempo do olhar e oferecem sem esforço aquilo que é necessário para a compreensão das estratégias adotadas.

Os olhares formados pela fotografia se sentirão bem acolhidos. Porque encontrarão nessas obras a experiência de quem aprendeu a desconfiar que as coisas que se movem pouco estão sempre preparadas para grandes saltos. Encontrarão os mesmos movimentos pequenos, hesitantes, que simplesmente atravessam o olhar, que tanto buscamos quando cercamos um fragmento de realidade com a câmera fotográfica. Podemos ali entender melhor a relação que a performance do fotógrafo estabelece com o tempo: não se trata necessariamente de apanhar no laço o instante certo, mas de arrebanhar num espaço condensado os fluxos das coisas que tendem à dispersão. Esses fluxos não se perdem, permanecem latentes, e realizarão sua vocação assim que houver um olhar disposto a refabulá-los.

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A mostra Ver é uma fábula fica em cartaz no Itaú Cultural até 01/06. Os longa-metragens terão um último ciclo de exibição entre 23 e 26/05. Outras informações, no site do Itaú Cultural.

 

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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