Câmara lúcida, câmara insana [Fotógrafos não são normais – parte II]

[04.mar.2013]

O post que inaugurou este blog, Fotógrafos não são normais, foi motivado pelo personagem de Joaquin Phoenix no filme Amantes (2008). Em O mestre (2012), o personagem interpretado por esse mesmo ator volta a temperar sua insanidade com um pouco de fotografia. A insanidade é agora bem mais evidente. Já a fotografia, apesar de ser um elemento totalmente secundário, constitui uma boa metáfora da questão central proposta pelo diretor Paul Thomas Anderson.

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O Mestre tem sido apresentado pela imprensa como uma história baseada na tal “Cientologia”, seita que tem Tom Cruise e John Travolta entre seus adeptos ilustres. É um ótimo filme,  mas será frustrante para quem quiser saber mais sobre aquilo que tem feito a cabeça das celebridades de Hollywood. O roteiro não está comprometido com personagens históricos e tampouco se dá ao trabalho de explicar satisfatoriamente os fundamentos da doutrina. É, antes de tudo, um filme sobre as diferentes formas da loucura, que pode se manifestar como pathos, seu modo clássico, mas também como logos, por meio da técnica, de discursos articulados e performances bem calculadas.

Freddie Quell (Joaquin Phoenix) é um ex-combatente da Segunda Guerra, filho de uma mulher psicótica, viciado em destilados não catalogados, totalmente desprovido de superego. Numa de suas fugas, ele encontra o carismático Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), que se auto-define como “escritor, médico, físico nuclear, filósofo teorético, mas também um homem”. É o criador de uma espécie de terapia de vidas passadas que se realiza sob forma de pequenos espetáculos. Nessa relação, Quell encontra um lugar de tolerância e Dodd, um objeto de estudo. Não demoram a demostrar uma profunda identificação, como se fossem dois lados de uma mesma moeda.

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Os distúrbios de Quell ficam evidentes logo na abertura do filme. Dispensado da marinha ao fim da guerra, e após uma bateria de testes psicológicos e palestras motivacionais, reencontramos Quell bem integrado ao mundo, calmo, trabalhando como fotógrafo numa sofisticada loja de departamentos.  O cuidado que tem com a composição e com a luz ajuda a demonstrar que o personagem é capaz de assimilar um saber técnico e de ter pleno domínio de seus gestos. Esse ambiente e os rostos que encontra são retratos do sonho americano. Mas a fotografia mantém seu lugar de obscurantismo: no laboratório, Quell ainda se droga com bebidas improvisadas e faz sexo com uma colega de trabalho. Quando volta a seu posto, a paixão e o controle demandados pela fotografia ressurgem misturados: vemos um Quell com fisionomia transformada, torto diante de sua câmera, fazendo da própria luz um instrumento de violência.

Essa mesma confusão entre sombra e luz é o que guiará a relação de Quell, o “animal”, e Dodd, o homem ilustrado. Um será para o outro uma espécie de espelho que mostra o que pode haver de loucura represada na ciência e de amor, na violência. Essa distinção se revelará desconfortável, às vezes insuportável, e será preciso recobrar o lugar próprio de cada personagem. Assim como, na fotografia, cobramos um dia a distinção entre o lugar do registro técnico e aquele da expressão de sentimentos.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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