Benjamin, Barthes. Aura, Punctum.

[16.dez.2014]

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Walter Benjamin | Roland Barthes

Muitas vezes ficamos tentados a comparar os pensamentos de Benjamin e Barthes sobre a fotografia*. Uma primeira identificação entre eles está na força poética de seus textos, com passagens tão bem resolvidas em suas formas quanto inesgotáveis em seus sentidos. A pequena história da fotografia (Benjamin, 1931) e A câmara clara (Barthes, 1980) transitam entre a crônica e a teoria, porque suas análises se constroem a partir de vivências muito rentes às imagens que discutem. Num artigo chamado “A câmara clara: outra pequena história da fotografia” (2008), Geoffrey Batchen observa que ambos os textos demarcam o lugar e a importância de um olhar amador sobre a fotografia, recusam as pretensões de uma narrativa totalizante e propõem, em lugar disso,  falar da história da fotografia a partir de algumas poucas imagens que atravessam suas subjetividades.

Apesar de não citá-lo diretamente, sabemos que Barthes leu Benjamin (cf. Russel Stephens). Parte das imagens que aparecem em A câmara clara foi retirada de uma edição especial do jornal “L’Observateur” (nov./1977), que traz também uma tradução de A pequena história da fotografia, sob o título de “Os analfabetos do futuro”.

Parece haver, sobretudo, um espaço comum entre os conceitos de aura, que Benjamin constrói de modo fragmentário ao longo de vários textos, e de punctum, que Barthes introduz justamente em A câmara clara. Sobre isso, compartilho algumas intuições.

Ambos têm a ver com o reconhecimento de uma manifestação singular na imagem: o “único” (Benjamin), o “isso” (Barthes); ambos se referem a um fenômeno que depende do acaso: “a pequena centelha do acaso, do aqui e agora, com a qual a realidade chamuscou a imagem” (Benjamin), “esse acaso que, nela [a foto], me punge” (Barthes).

Constituem ainda um gesto que parte das próprias coisas: a experiência de ser visado pelo objeto (Benjamin, Sobre alguns temas em Baudelaire); e de ser tocado pelo objeto (Barthes).  Nesse sentido, Benjamin e Barthes se identificam profundamente com a “memória involuntária” de Proust, autor que ambos citam e conhecem em profundidade.

A aura e o punctum revelam uma temporalidade complexa que sobrepõe um evento ocorrido e suas potências: “o lugar imperceptível em que o futuro se aninha ainda hoje em minutos únicos, há muito extintos” (Benjamin), “isso será e isso foi” (Barthes).

Ambos sugerem também uma tensão entre “proximidade” e “distância”. Mas, quanto a isso, é preciso resguardar a diferença que persiste nessa semelhança. A pista já está em Benjamin, quando distingue aura e rastro: “o rastro é a aparição de uma proximidade, por mais longínquo esteja aquilo que o deixou. A aura é a aparição de algo longínquo, por mais próximo que esteja aquilo que a evoca. No rastro, apoderamo-nos da coisa; na aura, ela se apodera de nós” (Benjamin, Passagens).

Pela aura, abre-se na superfície do objeto uma fissura que conduz o olhar a um lugar distante: a imagem está ali, diante dos olhos, mas aquilo que nela se materializa parece pertencer a outro espaço, metafísico, no caso dos objetos sagrados; ou parece pertencer a outro tempo, à história, no caso dessa aura que sobrevive a um uso laico das imagens.  Pelo punctum, a imagem restitui a sensação de presença, portanto, de proximidade de um ser e um tempo distantes. No caso de Barthes, “apoderar-se da coisa” não significa ter controle do punctum, mas recuperar por meio de sua ocorrência um espaço de uma convívio intenso com aquilo que está ausente (sua mãe).

São movimentos que se identificam mais por serem espelhados do que semelhantes. Em todo caso, os riscos apenas aumentam quando acreditamos que esses autores podem se explicar reciprocamente. Quanto mais pedimos socorro a um para tentar escavar os enigmas do outro, mais camadas acrescentamos ao problema que esperamos resolver.

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* Os riscos aqui são meus, mas as inquietações para essa aproximação nascem da escuta recente de Maurício Lissovsky, Olgária Matos, Leda Tenório, e das conversas com Filipe Barrocas, no contexto do ciclo de palestras “E agora, fotografia?”, realizado no Sesc Belenzinho e no Sesc Consolação.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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